Ausência

2016 - 1 (5)

Me desvaneço

em sombras & pó

& numa canção que

rasga o rádio e as

entranhas de

um passado

febril

 

vou embora

com o resquício da

sua voz

que embala o

corredor pálido

(de nós dois e de frio)

 

Sou capaz de tropeçar

nesse arremedo de gente

em cada quina e canto

em cada curva da

estrada

 

Vou deixando de ser

Eu-Nós-Vós

Me-mim-comigo

Até restar

absolut

ame

nt

e

 

Quinze

Lazy days | via Tumblr

Éramos quinze em um momento antes do anoitecer, quando as luzes violeta do dia diziam adeus. No quintal, alguém ria extravagantemente. Ou talvez fossem duas pessoas. Ou três. Não sabia ao certo, mas a culpa certeira era das garrafas de vinho, vazias e espalhadas pelo chão. Eu não queria prestar atenção nas piadas ou cantigas dedilhadas no violão, porque você estava lá. O mesmo corte de cabelo e o mesmo olhar distante, como uma fera machucada e acuada. E eu, que costumo falar mais do que silenciar o seu eco dentro de mim, me vi fitando seus traços tão sutis e desejando que um meteoro caísse e com ele levasse todos nós, menos você e o seu perfume que bailava com o vento naquele instante em que éramos catorze, pois o Augusto estava passando mal no banheiro. E no meio daquela confusão de cores e ventania, você me olhou pela quinta vez e sorriu e desviou o olhar do meu – e eu, que tinha tanto direito de ir embora daquele quintal de grama mal aparada quanto você, me senti presa a algo que escorre pelas minhas mãos até hoje.

Um casal estava deitado na grama olhando as estrelas; eu também queria estar longe dali, fingindo estar tudo bem com o caos da minha mente. Mas não estava e nunca estará. Você tomou o violão das mãos da Marina e, com a confiança de um gladiador prestes a vencer a batalha, tocou a nossa música. E eu te odiei naquele instante. Mas só naquele instante, porque depois do ódio veio o meu sorriso, bendito réu confesso. Sua voz transformava tudo em um grande abismo de nós dois, e todos nós caímos nele. E eu me despedacei em suas rochas e marcas e cicatrizes e beijos e horas mal dormidas, nas quais eu não conseguia decidir entre te ligar ou dormir me sentindo culpada.

Estávamos todos mortos. E aquele era o pedaço de um paraíso que só existia dentro de mim.

Você fez aquilo para me provocar, eu sei. Melodiou algo que deveria estar enterrado e colocou no fogo todas as minhas objeções. A raiva deveria me consumir, mas a paz de espírito – a sua paz – cantou mais alto em meus ouvidos e apenas desejei me afogar até não restar nenhum resquício meu no Universo.

As horas tropeçavam e estancavam como muitos de nós que ali estavam. Pra ser mais precisa, doze deles. Nós, os únicos sóbrios de bebida, nos embriagávamos em cada promessa calada e olhar penetrante, como se fôssemos um e o resto do mundo pouco importasse. Até que raiou o dia e o céu se tornou rosa-laranja-amarelado. E você desviou seu olhar castanho dos meus, cor de céu chuvoso. Senti frio naquela manhã quente de domingo, mas aquele frio era meu companheiro há tanto tempo que eu não deveria me surpreender. Nosso orgulho falou mais alto e a vontade de ser alguém e ter alguém pra si morreu ainda prematura.

Éramos quinze naquele momento. Quinze almas que vagueiam trôpegas pelo mundo, sem dinheiro ou perdão.

Éramos quinze até restarem dois.

Eu e a solidão.

Boy and Girl sitting on a Couch at 10 P. M.

I think I love you, I said

I think I love you too, he said

I wanna hold your hand, I said

I want to see your eyes, he said

I’ll stop breathing, I said

I’ve done it for you, he said

My mind will explode and

I want to stay silent, I said

I want to stay silent, he said

[Inspirado em “Man and Woman in Bed at 10 P.M.”, de Charles Bukowski]

Aquela música do Jeneci

large (2)

Tocou aquela música do Jeneci num comercial de TV, amor, e eu lembrei de nós dois. Fiz quatrocentos e cinquenta mil planos e os escrevi naquele guardanapo que você não usou no café da manhã. Dentre eles um mochilão pela Europa, acordar às cinco e meia da madrugada todo dia pra te ver dormindo, tomar um sorvete num quiosque de praia qualquer e criar três filhos sapecas correndo pela casa. Imaginei cada linha do que ainda virá. E será lindo.

Sempre irei paralisar quando te ver chegando. As borboletas no estômago nunca sairão voando pelos ares; elas permanecerão aqui dentro, me lembrando indiretamente que eu preciso respirar e correr para os seus braços. Mas só olhar você vindo até mim em câmera lenta – sorrindo sem jeito – já basta.

Eu vou cantar pra você, amor. Uma das músicas que você tanto ama, daquela banda que ninguém conhece. Vou segurar sua mão nas enchentes que a vida traz de repente, inundando nosso sono e nossa paciência. Ela gosta de pregar peças como um menino arteiro, mas eu sempre consertarei tudo o que ela estragar. Por você e pra você. Serei seu porto seguro, sua dormida, seu lar. Deixarei você fazer morada em mim pelo tempo que restar, até o eco dos nossos corações se tornar barulho no meio da multidão. Vou dançar com você no silêncio da noite, só pra você pisar no meu pé e eu rir da sua cara de espanto. Quem sabe nós daremos sorte de observar o sol nascer na varanda. Quem sabe um passarinho pouse na janela e encha nossa casa de poesia. Quem sabe…

[Quem sabe a gente se perca no mundo e passe a viver só de amor…]

Te abraçarei infinitamente até você sentir falta de ar. Te olharei no fundo dos olhos e não direi uma só palavrá. Você entenderá, assim, o amor que mora em mim, o amor que mora em nós, o amor que mora em tudo o que nos cerca. Recitarei Pablo Neruda pra você quando brigarmos. Neruda cura qualquer dor de amor. Você ouvirá cada verso até cair no sono. E eu farei dos meus beijos seu cobertor.

O problema, amor, é que ainda não existe “nós dois”. Mas eu largo tudo se a gente se casar domingo.

(A música do Jeneci é essa aqui, ó ♥:)

Pra você guardei o amor

aw

O sol escondia-se atrás do aglomerado de prédios à nossa frente. Era o evento mais lindo que eu presenciava em anos, apesar de toda a poluição de São Paulo que mesclava o céu alaranjado com enormes cortinas acinzentadas. Nossas mãos entrelaçavam-se como um nó de marinheiro, enquanto minha cabeça dormia tranquila no ombro direito dele.

– Eu queria ser uma câmera fotográfica agora. – eu disse, ainda fixando o olhar na enorme meia-lua laranja.

Ele limitou-se a suspirar o aroma de morango dos meus cabelos e rir. O meu riso preferido, que podia significar “você é maluca” ou “eu concordo com você”. Mas, bem lá no fundo, sabia que ele havia captado a mensagem.

Naquele momento, em que o silêncio ricocheteava na árvore mais próxima daquele mirante, eu encontrei respostas para as perguntas que rondavam meus pensamentos desde pequena. Ali, sentada na grama recém-aparada, ao lado do cara mais incrível do mundo eu entendi o que era amar alguém de verdade. Entendi o propósito de passar noites sem sono ou dias inteiros ouvindo a mesma canção romântica no replay infinito. Entendi o significado de sacrificar-se por alguém, mesmo que isso mude sua vida por completo. Entendi o porquê dos meus pais se abraçarem quando passávamos por alguma dificuldade e também o porquê deles terem me ensinado que você só entrega seu coração quando tem total certeza de que a pessoa vai cuidá-lo como realmente tem que ser. Arrancando todas as ervas daninhas e semeando flores ao longo dele pelo tempo que restar. E é por isso que eu queria ser uma câmera fotográfica naquele instante. Eu armazenaria cada minúsculo ponto daquele cenário perfeito, no qual éramos rei e rainha daquela enorme cidade, apenas para repassar mentalmente para os nossos filhos algum dia o que eu havia descoberto: que amar é o ato mais altruísta que existe.

– Valeu a pena ter esperado por você. – encontrei o olhar amendoado dele enquanto corria meus dedos pelos cabelos castanhos desgrenhados que eu tanto amava. Ele apenas sorria, ou talvez pudesse ler na minha mente tudo o que eu acabara de pensar naqueles poucos minutos nos quais o sol desaparecia.

Porque eu sei que lá na frente sempre haverá a linha tênue entre o céu escuro e os inúmeros pontos brilhantes que começavam a aparecer. Lá na frente, os gigantes prédios sempre adormecerão um a um. Lá na frente sempre haverá nós dois. Perdidos para sempre no horizonte da vida.

Leia ouvindo:

Dialogando

Imagem

– Tá vendo aquela estrela lá em cima, Marcelo? Ela é sua. Dei seu nome pra ela. Não, não ri assim. É verdade. Eu te amo. Tá, não tanto quanto você gostaria, mas amo. Mesmo. Voltando à estrela: ela é sua. Você pode fazer o que quiser com ela. Um pedido, dois pedidos, três pedidos… Não, Marcelo, ela não é uma lâmpada mágica. É uma estrela. E-s-t-r-e-l-a. Uma estrela brilhante, como você. Ok, admito que sou ingênua. Mas o que seria da nossa vida sem um pouco de distração e infantilidade às vezes, hein? Marcelo, olha pra mim, não vai embora… Daqui a pouco o dia amanhece e eu quero continuar aqui. Com você. E com a estrela. Marcelo, a Estrela Brilhante. Não é bonito? Não? Como não? Tá. Parei. Mas, por favor, não me deixa. Eu sei que eu errei, mas fica. Por mim. Por nós. Pela estrela… Vou te contar um segredo: ela tá olhando pra gente também. Estrelas têm vida própria, só não podem sair perambulando pelo espaço toda noite. Seria estranho ver um montão de pontos brilhantes dançando pelo céu, não acha? Mas, pra ser sincera, seria lindo. Como naquela festa em que a gente dançou até os pés doerem. Como assim eu não danço bem? Você é que não dança bem. Nunca dançou. Mas eu gosto de você mesmo assim. Com dois pés esquerdos e esse olhar de menino. É. Eu te amo. Estranho falar isso várias vezes em voz alta. Sabe quando a gente repete muito uma palavra e ela acaba perdendo o sentido? Então. Eu-te-amo-eu-te-amo-eu-te-amo-eu-te-amo-eu-te-amo-eu-te-amo… Cansei. Tá vendo? Amar você não faz mais sentido. Acho que vou embora. Não quer que eu vá? Que milagre! Posso deitar aqui com você? A grama é desconfortável. Demais, até… Posso ouvir seu coração batendo? É lindo. Como você, a estrela e o céu. Eu sei que é chato eu ficar repetindo isso, mas é que eu tô feliz. E a estrela continua sendo sua. Como o meu amor. Pelo tempo que restar.

[E os dois caíram no sono ali mesmo. Marina, Marcelo e a estrela que se apagava com a chegada dos primeiros raios de sol.]

Sobre o processo de desapaixonar-se

Tumblr

De repente o mundo volta ao seu eixo habitual. Músicas tocam no rádio, cenas passam na televisão e tudo o que você faz é ignorá-las. Apático. De repente a comida no prato volta a tornar-se quente e o banho quente no frio não é mais tão convidativo. O travesseiro passa a acomodar-lhe apenas os cabelos curtos e cacheados. Não mais sonhos e planos. A vida segue tranquila, como se nela não faltasse nada além de contas a serem pagas no fim do mês. Ou o cinema de sábado à tarde. Sem companhia.

O caminho que leva à rua agora é curto. Não há mais pressa ou agonia em encontrar a calçada, os carros, a porta de madeira escura e aquele olhar que tanto o perseguia por entre a multidão. Quem dorme tranquila no banco do passageiro, neste exato momento, é a solidão.

Essa bobagem de ter alguém para amar é ilusão, você pensa. Você percebe que a vida passa rápido e é difícil fazer as coisas boas durarem. Você percebe que o sol não se põe. É apenas uma ilusão causada pelo mundo girando, a letra da canção já dizia. Você se deu conta, não é mesmo? No fim de tudo, talvez o amor seja mesquinho. Você não queria fazê-la feliz. Apenas ser feliz com ela.

Mas não foi isso o que você aprendeu no jardim de infância, quando a tia Maria o obrigava a fazer dupla com a Luana, a menina dos olhos tristes. Ela o ensinou que amor é algo supremo e que não existe apenas entre casais. Você ama seus pais, seus irmãos, seus livros e o cachorro de estimação. Até aquela moça aparecer e roubar seu mais lindo sorriso e as mais tímidas batidas do seu coração. Por um ano e seis meses. Escravo de algo que funcionava teoricamente.

Você pensa em nunca mais querer tanto outro alguém. Pensa em desistir do trabalho e da escrita e viajar pelo mundo como um lobo solitário – ou talvez apenas observar a chuva açoitando a janela e ter o prazer de discutir mentalmente qual gota chegará primeiro ao terceiro andar. Não mais enxergá-la como algo poético. Mas, bem lá no fundo, sabe que mais dia ou menos dia todas as lembranças voltarão. Encobertas por outros cabelos, outra risada, outros gostos, outra voz, outro olhar de menina e outras noites de insônia e indecisão: ligar para ela ou não ligar? Eis a questão.

Em algum canto remoto da sua mente, você admite que valeu a pena. Por um tempo.

Agora você pode respirar aliviado. Não há o quê temer. Amores vêm e vão. Voltam e tiram nosso sossego. Acabam rápida e drasticamente. Duram um minuto e duas respirações. Ou eternamente.

Deite a cabeça no encosto do sofá e feche os olhos por alguns minutos. Agora você pode voltar a dormir.

Por enquanto.

[Neste texto foi utilizado um trecho da música “Do You Realize?”, The Flaming Lips].