Ausência

2016 - 1 (5)

Me desvaneço

em sombras & pó

& numa canção que

rasga o rádio e as

entranhas de

um passado

febril

 

vou embora

com o resquício da

sua voz

que embala o

corredor pálido

(de nós dois e de frio)

 

Sou capaz de tropeçar

nesse arremedo de gente

em cada quina e canto

em cada curva da

estrada

 

Vou deixando de ser

Eu-Nós-Vós

Me-mim-comigo

Até restar

absolut

ame

nt

e

 

TODOS OS BILHETEIROS DE CINEMA SÃO TRISTES (ou a arte de esquecer em casa o livro que tô lendo & não ter o que fazer enquanto espera o horário do filme & ter que escrever poemas melancólicos no bloco de notas do celular)

do outro lado há olhos

que espreitam

e passam o troco

 

do lado de cá há mãos

que se beijam

olhos que se beijam

beijos que se beijam

entre os cartazes

da próxima sessão

 

do lado de dentro, existo

sem ter o que fazer-fazendo

(escrevendo isso)

por uma hora e trinta

bocejos

olhadas ao redor

e cheiros de pipoca amanteigada

 

o bilheteiro me olha triste

disfarço o olhar entre as

crianças que correm

 

ele suspira

eu suspiro

ele trabalha

eu espero

e espero

e espero

 

[solidão em tela grande]

Pluviosidades

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(Por Laís, Rhayra e Rhayana)

A chuva e suas gotas
caem em conjunto e soltas
De longe, tudo parece uma ilusão,
mas o mundo se revela quando
essas gotas caem ao chão

O frio que paira acima da casa
invade o peito, se instala
a chuva cai lá fora
(não para)
o choro, aqui dentro, se cala

O vento está forte
os céus estão sem sorte;
O barulho se manifesta:
está formando uma orquestra!

O som delas atinge meus ouvidos
(talvez não tenham me atingido):
um barulho forte
que, em meu coração,
deixa um corte

Banha a calçada,
o quintal
e o sol que antes
transpassava a janela;
Queria tanto, para sempre
poder chorar nos braços dela.

Ouroboros

Ouroboros mandala design

E se renova a cada instante.

Pelo fogo que incendeia ela renasce.

Transforma o próprio ser em paráfrase.

De repente, serpente.

Morde com avidez o inicio,

O fim e os meios

Quer mudar o que passou

Quer dançar o que não dançou

Mas, ao final do dia, adormece

como uma criança.

Ri, com seu silvo ondulante,

Chora uma morbidez irritante

Respira e vê: a vida é como

Tem de ser;

De repente, sê gente.

(…)

Stay with me♡

Teus traços
tão sutis
florescem enquanto
eu bebo o calor
dos teus olhos
para fugir de mim
[foge comigo também, e
perca na rua
a vontade de ser
o que já é,
apenas seja
por inteiro].

Dance em meio às nuvens
e não tema: o hoje é nosso
(e o amanhã: quem é que sabe?)

Somos infinitos pássaros
em busca de serenidade
divina
– o céu é nosso berço
e, teu coração, o meu
mar.

Ame sem medo de enxergar
trincheiras e vontades
que escancaram a porta
do quarto e o cobertor,
ame só pelo fato de que
tu és jardim de vida e
eu, rosa-morena, alimento-me
da luz que entra pela
janela e nos banha sem
cerimônia.

Valse com a pressa,
com a gana e comigo,
seja refúgio para
o doce dos meus lábios
e
toque-me – como melodia
toque-me – como um acorde de pétala
toque-me – que sou poesia.

O meio-dia dorme menino
em nossos braços
E tua alma tranquila
jaz em mim:

doce é a tua paz e
teu cheiro de jasmim.