Ausência

2016 - 1 (5)

Me desvaneço

em sombras & pó

& numa canção que

rasga o rádio e as

entranhas de

um passado

febril

 

vou embora

com o resquício da

sua voz

que embala o

corredor pálido

(de nós dois e de frio)

 

Sou capaz de tropeçar

nesse arremedo de gente

em cada quina e canto

em cada curva da

estrada

 

Vou deixando de ser

Eu-Nós-Vós

Me-mim-comigo

Até restar

absolut

ame

nt

e

 

TODOS OS BILHETEIROS DE CINEMA SÃO TRISTES (ou a arte de esquecer em casa o livro que tô lendo & não ter o que fazer enquanto espera o horário do filme & ter que escrever poemas melancólicos no bloco de notas do celular)

do outro lado há olhos

que espreitam

e passam o troco

 

do lado de cá há mãos

que se beijam

olhos que se beijam

beijos que se beijam

entre os cartazes

da próxima sessão

 

do lado de dentro, existo

sem ter o que fazer-fazendo

(escrevendo isso)

por uma hora e trinta

bocejos

olhadas ao redor

e cheiros de pipoca amanteigada

 

o bilheteiro me olha triste

disfarço o olhar entre as

crianças que correm

 

ele suspira

eu suspiro

ele trabalha

eu espero

e espero

e espero

 

[solidão em tela grande]

Pedaços de mim #1: A brisa de dezembro

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              Ocorreu-me que ontem não havia nada para fazer na minha monótona vida. Decidi aproveitar o dia para encarar o teto branco do meu quarto e pensar em absolutamente nada – olha o que a falta de livros para ler não faz, não é mesmo? A internet anda deveras irritante e porque não perder algumas horas formando pensamentos niilistas, sem compromisso algum? Em um desses momentos, em que eu pensava em tudo e nada, uma brisa boa entrou pela janela. Não uma brisa qualquer, de um dia sem importância: era uma brisa de dezembro. Sim, existe uma grande diferença entre a Brisa de Dezembro e a de qualquer outro mês do ano. As brisas de finais de ano são quentes, convidativas, prenunciam a alegria das festas natalinas e um ano novo que logo mais se iniciará. Lembram praia, sol, maresia, risadas de crianças e churrascos em família. Já as de março, abril ou junho não têm a menor graça. Servem apenas para despentear nossos cabelos e levar as folhas de papel soltas da escrivaninha para algum lugar inóspito do quarto.

              A minha Brisa de Dezembro lembrou-me tantos episódios felizes da minha infância que foi impossível não sorrir sozinha. Ela sempre me acompanhava no quintal da minha antiga casa enquanto eu fitava o céu, ansiosa pela queima de fogos do Réveillon – ou quando esperava papai estourar a garrafa de champanhe depois da meia-noite, apenas para ter a oportunidade de vasculhar a varanda inteira em busca da rolha saltitante que insistia em fugir de mim.

              Talvez a brisa que veio ontem me visitar pela manhã tenha sido apenas um anúncio de que a Primavera bate à porta com seu longo vestido florido, oferecendo esperanças aos sonhadores. Mas, no fim das contas, a Brisa de Dezembro durou menos do que eu gostaria e, em questão de segundos, voltou a ser setembro.

Note to self

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Pegue um bloquinho de papel e abra-o na primeira página. É aí que sua vida começará a ser escrita.

Com o lápis que você costumava desenhar pássaros no céu quando criança, escreva o que você planeja ser daqui a dez anos. Professora, arquiteta, estátua viva ou contadora de estórias.

No verso da página, anote seus medos mais banais. Inclusive o de dormir no escuro (já está muito grandinha para temer o bicho papão, não acha?). Escreva sobre suas viagens de carro, sobre a música que tocou naquela tarde de verão no rádio da cozinha enquanto você e sua mãe preparavam biscoitos de polvilho.

Escreva sobre os amores e desamores que passaram e ainda virão. Coloque no papel o que você sente quando vê aquele par de olhos castanhos brilhantes sorridentes. Provavelmente falta de ar e tontura no coração. As lágrimas e quedas também deverão ser devidamente escritas. Ninguém aprende fórmulas de Física sem antes errar algumas contas (ou a andar de bicicleta sem cair).

Anote os nomes dos amigos de infância e tios favoritos. Não esqueça a cadelinha que foi correr nas ruas de ouro do céu quando você tinha dez anos. Ela foi e sempre será sua primeira melhor amiga.

Dezoito páginas já foram preenchidas, ainda faltam cem. As mais importantes.

Seus sonhos e desejos devem ser marcados com caneta preta, a fim de que nunca mais saiam do papel. Mantenha em mente que você é a única que pode persegui-los e realizá-los. Afinal, você leu em um de seus livros favoritos que o mundo não é uma fábrica de realização de desejos e, mesmo que você falhe na missão, persista.

O bloco de papel completo é sua vida, menina. Em alguns lugares borrado e rasgado, e em outros desenhado e escrito com letra de forma bem redondinha. As últimas páginas ainda não devem ser preenchidas, porque não podemos ter controle do nosso futuro. Podemos apenas idealizá-lo positivamente (e correr atrás dos bons frutos da árvore da vida).

E por fim, em um cantinho minúsculo da última folha, escreva singelamente:

 NOTE TO SELF: SER FELIZ.

A Dustland Fairytale

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Ela passava a maior parte do tempo em uma ilha encantada no meio do oceano, cercada por sereias, gnomos e fadas com asas cor de rosa. Mas aquilo tudo não passava de ilusão, porque eram apenas sonhos perdidos no meio da madrugada. Ela queria que tudo se tornasse realidade. Queria viajar em unicórnios, sentir a textura das nuvens e ver o pôr do sol sentada em uma jangada no meio do nada. Mas não podia realizar tal sonho por viver em um mundo real.

Desde pequena, vivia entre princesas e castelos de areia. Esperava impacientemente por um príncipe encantado e uma linda serenata de amor dedilhada à luz do luar. Queria ser rainha, golfinho e anjo de neve. Desejava tudo aquilo que não podia ter.

Todos diziam Mariazinha deveria crescer, que não tinha mais idade para conversar com o coelho de estimação ou com o cachorro da vizinha, mas ela não se importava. Preferia habitar um mundo colorido distante, aonde chuva tem gosto de limonada, do que perder tempo com trabalho e faculdade.

Para falar a verdade, Mariazinha queria ser Peter Pan. Não crescer nunca, viver à mercê de boas doses de aventura, voar pelo céu ao invés de pegar trânsito. Mas Mariazinha tinha reunião do Clube do Livro aos sábados e não queria decepcionar ninguém.

Quando deitava a cabeça no travesseiro, chorava até os olhos arderem. Queria levar uma vida mais feliz, sem tanta morte, violência, injustiças e contas a pagar. Queria pegar o navio do Capitão Gancho e sumir de vez. Queria construir um reino de poeira e magia. Queria abonar, pelo menos por alguns anos, suas responsabilidades no Trágico Mundo dos Adultos. Queria ser criança para todo o sempre.

Mas, em um belo dia de sol, Mariazinha descobriu que contos de fadas também existem no mundo real. Que a bruxa má está sempre à espreita em qualquer esquina, que um belo príncipe (mesmo não sendo encantado) apareceria de uma hora para outra e que fadas madrinhas sempre lhe estendem a mão quando você mais precisa. Era hora de a Cinderela perder o sapatinho de cristal por um bom tempo e encarar o fato de que a vida não é fácil para ninguém. E também parar de usar o próprio nome no diminutivo.

Alguém

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Enquanto a última folha seca do outono caía vagarosa no jardim, ela olhava pensativa a grama recém-regada. A brisa fria passava pelos seus cabelos e levava o perfume de lavanda para paraísos perdidos que ela mesma não conhecia. Dentro de casa, a chaleira apitou. Encontraria um pedaço quente naquele mundo frio, dentro de uma xícara de chá de erva doce. Mas não naquele momento. Preferiu ficar estática e muda, enquanto esperava a chuva cair e levar consigo toda a angústia que sentia. Mas não caiu.

Marina era uma mulher de meia idade e não muito bem resolvida. Trabalho e faculdade andavam muito bem, mas ela nunca poderia dizer o mesmo de seu coração. Marina queria se casar, ter filhos e um labrador chamado Trovão, mas esses eram sonhos muito distantes, porque Marina tinha medo de se expressar. Na escola, ela era aquela menina miúda que sentava na primeira fileira, tranças negras e grossas caindo-lhe por sobre os ombros, óculos de grau e um olhar que ia além das constelações. O único namoro relâmpago que teve foi na quarta série, num jogo de “verdade ou desafio”. Aquele beijo estalado que durou menos de cinco segundos em Marcelo ainda perdurava em seus lábios, como uma marca de nascença que nos acompanha até o final da vida.

Depois de Marcelo, o mundo cor-de-rosa de Marina se fechou. Tinha vergonha de olhar para os garotos, pois se achava pequena e sem sal. As outras meninas, maquiadas e bem vestidas, conseguiam um paquera ou outro no baile da cidade, enquanto Marina usava seu tempo para ouvir os Beatles cantando na vitrola da sala.

“Você precisa falar mais, viver mais”, dizia a voz que ecoava em sua mente. Se ela não conseguia apresentar um seminário sem tremer ou gaguejar, quem dirá conversar com um homem? Era por essas e outras que o silêncio de Marina a perturbava a cada instante, transformando sua vida num oceano de monotonia e cabelos brancos que estavam por vir.

Uma lágrima escorreu pelo canto direito de seu rosto e ela deixou que caísse em sua blusa cor de violeta. Os próprios soluços agudos eram o único barulho que ela conseguia ouvir em meio à calmaria. Marina olhou para o céu negro e majestoso que se estendia sobre ela e focou o olhar na estrela mais brilhante que avistou.

– Eu só queria ter o amor de alguém… – dizendo isso, Marina levantou-se enxugando o resto das lágrimas na manga da blusa e entrou. Ao tomar um copo de chá, ainda um pouco quente, acalmou a alma e o coração. Decidiu mudar seu jeito de ser e não deixar que o silêncio fizesse eco nos quatro cantos de sua vida.

Sossegue esse coração, Marina. Um dia aparece alguém, meu bem.