POEIRA, Eu.

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Um resquício de poeira flutuante é o que sou, mas não brilho se contrastada com a luz do sol. Transito por prédios, estantes abarrotadas de livros, semáforos fechados e insônias. Acumulo-me no passado e pelos cantos da casa, como um cadeado enferrujado de minhas próprias lembranças. Sou o que sou por medo de ser o que nunca fui.

Há mais mistérios entre a janela da sala e o porta retrato quebrado do que eu jamais imaginara.

Tresloucada, logo eu? Que talvez por culpa me calo inerte, talvez por preguiça, graça, desespero. Talvez. Talvez eu tome impulso e fôlego, talvez em meio àquele olhar de despedida, já fragilizado pelas perdas, ele queira ficar (e, talvez, de modo breve, segure a minha mão). Talvez nasçam, em meio aos sóis, pontos minúsculos de bocejos e cheiros de café fresco. Talvez amanheça, talvez adormeça e remonte-me num amontoado de pó, criatura errante de ilusões distintas.
Quero que ele aqueça as horas e as perca na soleira da porta (e que pendure os erros de anteontem no canto mais lindo do jardim).

E que floresça.
E que acalme.
E que orvalhe e frutifique.

Ama-me.

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Sobre o processo de desapaixonar-se

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De repente o mundo volta ao seu eixo habitual. Músicas tocam no rádio, cenas passam na televisão e tudo o que você faz é ignorá-las. Apático. De repente a comida no prato volta a tornar-se quente e o banho quente no frio não é mais tão convidativo. O travesseiro passa a acomodar-lhe apenas os cabelos curtos e cacheados. Não mais sonhos e planos. A vida segue tranquila, como se nela não faltasse nada além de contas a serem pagas no fim do mês. Ou o cinema de sábado à tarde. Sem companhia.

O caminho que leva à rua agora é curto. Não há mais pressa ou agonia em encontrar a calçada, os carros, a porta de madeira escura e aquele olhar que tanto o perseguia por entre a multidão. Quem dorme tranquila no banco do passageiro, neste exato momento, é a solidão.

Essa bobagem de ter alguém para amar é ilusão, você pensa. Você percebe que a vida passa rápido e é difícil fazer as coisas boas durarem. Você percebe que o sol não se põe. É apenas uma ilusão causada pelo mundo girando, a letra da canção já dizia. Você se deu conta, não é mesmo? No fim de tudo, talvez o amor seja mesquinho. Você não queria fazê-la feliz. Apenas ser feliz com ela.

Mas não foi isso o que você aprendeu no jardim de infância, quando a tia Maria o obrigava a fazer dupla com a Luana, a menina dos olhos tristes. Ela o ensinou que amor é algo supremo e que não existe apenas entre casais. Você ama seus pais, seus irmãos, seus livros e o cachorro de estimação. Até aquela moça aparecer e roubar seu mais lindo sorriso e as mais tímidas batidas do seu coração. Por um ano e seis meses. Escravo de algo que funcionava teoricamente.

Você pensa em nunca mais querer tanto outro alguém. Pensa em desistir do trabalho e da escrita e viajar pelo mundo como um lobo solitário – ou talvez apenas observar a chuva açoitando a janela e ter o prazer de discutir mentalmente qual gota chegará primeiro ao terceiro andar. Não mais enxergá-la como algo poético. Mas, bem lá no fundo, sabe que mais dia ou menos dia todas as lembranças voltarão. Encobertas por outros cabelos, outra risada, outros gostos, outra voz, outro olhar de menina e outras noites de insônia e indecisão: ligar para ela ou não ligar? Eis a questão.

Em algum canto remoto da sua mente, você admite que valeu a pena. Por um tempo.

Agora você pode respirar aliviado. Não há o quê temer. Amores vêm e vão. Voltam e tiram nosso sossego. Acabam rápida e drasticamente. Duram um minuto e duas respirações. Ou eternamente.

Deite a cabeça no encosto do sofá e feche os olhos por alguns minutos. Agora você pode voltar a dormir.

Por enquanto.

[Neste texto foi utilizado um trecho da música “Do You Realize?”, The Flaming Lips].

Entre linhas

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Escancaro o livro empoeirado em busca de companhia. Passo os olhos por palavras, lugares, pessoas e tinta escura no papel. É tão mais fácil fingir que está tudo bem quando se está só. Mas, para falar a verdade, desejaria que a distância entre nós, que essa barreira fantasiosa desaparecesse de uma vez por todas. Mas ela insiste em ficar aqui comigo.

São tantas histórias, tantos rostos, tantos vilões e mocinhas que eu me perco. Perco a vontade, a coragem e meus pensamentos voltam para um único ponto inalcançável no universo. Os dedos que apoiam o livro tremem de frio. O edredom e a caneca de chá quente já não fazem mais efeito. Lá fora a chuva chicoteia violentamente a janela. Aqui dentro, o frio arrebata-me completamente.

A trama desenrola-se, o bem vence o mal e, por fim, os protagonistas ficam juntos, num baile, num barco, num casamento… Pelo resto da vida. Ao contrário de nós, passados de apaixonados a meros conhecidos.

No fundo devo admitir que leio desde sempre para encontrar-te. Encontrar-te em um sorriso sem graça, em uma valsa formal, em uma jura de amor ou no grito de gol do futebol. Leio para ser a donzela que tem a vida revirada quando o príncipe aparece e que faz planos e mais planos para o futuro, que fica nervosa antes do casamento e faz com que toda a insegurança acabe ao chegar ao altar – o noivo a espera, afinal.

Leio porque tenho ânsia em ter-te por perto, porque meu personagem favorito tem o mesmo gosto musical que o seu e o mesmo tom castanho dos seus olhos. Leio porque quando me vejo desamparada é para o meu livro que corro. Leio porque as palavras são preciosas e importam-se, mesmo que indiretamente, com o que eu sinto. Mostram exatamente o que eu preciso ler. Ao contrário de você, não é?

No fim das contas, leio por você. Para que talvez o nosso amor entre linhas, subentendido, escasso, fadado ao fracasso torne-se um best seller digno do The New York Times.

Muso

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O lápis martela as linhas, mas nada é lapidado

Sinto falta de quando conseguia fluir por elas sem o mínimo de esforço.

O traço do desenho não é mais o mesmo.

Palavras faltam

Palavras fogem

Palavras correm

Para você.

Queria ser Neruda, Shakespeare, Pessoa…

Mas sou apenas uma obra inacabada

Que acabou de te perder.

Os versos perderam o brilho,

o poema perdeu o trilho,

o céu perdeu a cor.

Ah, se eu voltasse a te encontrar

Talvez a inspiração voltasse

Talvez a lágrima parasse

E tentasse não mais cair.

Talvez um dia você perceba

Que tudo o que escrevi foi para ti

(Até mesmo esse poema-prosa frouxo sem nexo, emoção e calor.)

Tudo isso é para você, amor.

“Era uma vez um…

“Era uma vez uma garota que amava, sonhava, chorava, se preocupava e esperava intensamente por alguém que a quisesse como ela realmente era. Os anos se passaram, nada aconteceu e ela se cansou. Se cansou de amar, sonhar, chorar, se preocupar e esperar intensamente por alguém que a quisesse como ela realmente era. Seu coração hoje em dia é cercado por espinhos e erva daninhas. Não há quem tenha coragem de encarar sua melancolia.”

Saída

ImagemPasso delicadamente as mãos pelo tecido da cortina. Renda. Tão branca quanto aquela neblina sonolenta de todas as manhãs. O sol nasce ao longe manchando o céu, antes escuro, de carmim. Olho a escrivaninha de mogno, a prateleira de cd’s e o disco do John Lennon sobre a vitrola. Suas roupas largadas no chão descansam, repousando em sono leve. Na cama, você respira profundo e se vira, tateando o canto que há cinco minutos era meu. Puxa o cobertor até o pescoço. Faz frio ali.

Te olho como se olha um estranho. Esses que acabamos encontrando na fila do banco ou no ponto de ônibus. O problema é que essa estranheza toda não condiz com o que vivemos mais de uma vez. Seu cabelo castanho ainda tem as marcas das minhas mãos.

Olho para o chão movendo minha enorme fileira de cílios negros, envergonhada. Não te amo, mas tão pouco penso em ir embora e apagar tudo o que vivemos noite passada – e nas outras dezenas de noites.

“Droga, por que me deixei envolver tanto assim?”, penso enquanto caminho de um lado para o outro e paro diante da sua máquina de escrever. “Poema para ela”, estava escrito em uma folha em branco. Não posso ser sua musa. Sou errada para você. Leio todas as palavras minuciosamente datilografadas e paro para te olhar novamente. Sua mão sobre o meu travesseiro. Minha culpa escancarada por não ter coragem de partir de vez.

Arrumo o cabelo num coque desajeitado, pego minha bolsa e vou ao banheiro tirar os últimos vestígios de minha aventura imatura e inconsequente. Lhe dou um beijo na testa. Você abre os olhos e sorri. “Adeus. Para sempre”, eu digo em seu ouvido. Mas você sabe que eu nunca cumpro minhas promessas.

Lá fora e aqui dentro, a chuva

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Estaciono o carro e subo para o apartamento. Passo a chave na porta, destrancando-a e entro. A jaqueta de couro dele ainda está sobre a cadeira. Sento na escrivaninha, na tentativa de obter alguma inspiração para escrever, tamborilo os dedos impaciente e observo os porta-retratos que me mostram fragmentos de lembranças do nosso passado. Nossa primeira foto, nossos primeiros sorrisos cúmplices, nosso primeiro beijo. Lembro perfeitamente daquele dia, no qual quebrei todas as minhas barreiras idealizadas e segurei a mão dele pela primeira vez. Era março, uma tarde chuvosa e fria, mas aquecida por conta dos nossos corações. Tínhamos dezessete anos e experimentávamos o amor pela primeira vez.
– Posso encostar a cabeça no seu ombro? – eu disse timidamente, um pouco ruborizada.
– Claro que pode… – ele riu baixo, não acreditando na pergunta que eu acabara de fazer.
Fui chegando de mansinho, o coração acelerando ao mesmo tempo em que eu respirava aquele perfume. De repente tudo fazia sentido. Aquele lugar me pertencia.
– Seu ombro é confortável. – falei por impulso. – Quente e aconchegante.
– Ele pode ser seu para sempre. – ele sussurrou no meu cabelo, enquanto passava o braço pela minha cintura.
Se a minha coragem naquele momento não falasse mais alto, teria permanecido inerte, apenas saboreando aquelas palavras. Mas não: encarei como gente grande o fato de que ele também me amava e o olhei bem no fundo dos olhos. O tempo foi desacelerando, nossas mãos se entrelaçando e, finalmente, nossos lábios se encontraram, nos fazendo sentir um misto de alegria e saudade de algo vivido apenas no nosso imaginário.
Agora somos apenas eu, a saudade e a chuva fina lá fora. Me levanto e vou ao quarto, mas ele não está lá para me receber com beijos e palavras carinhosas. Na cozinha, procuro por uma taça de vinho, mas creio que a última garrafa tomamos mês passado. Sento e fico observando as pequenas gotas escorrerem pela janela. Não me permito chorar. Já encarei muitas perdas ao longo da vida e estou aqui, não estou? Depois de muito pensar em nós dois e tentar encontrar alguma explicação para o nosso término repentino, decido ir para o chuveiro. Ele não voltará, não viveremos nosso “pseudo conto de fadas” novamente e muito menos teremos um futuro juntos. Sou crescida o suficiente para admitir.