POEIRA, Eu.

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Um resquício de poeira flutuante é o que sou, mas não brilho se contrastada com a luz do sol. Transito por prédios, estantes abarrotadas de livros, semáforos fechados e insônias. Acumulo-me no passado e pelos cantos da casa, como um cadeado enferrujado de minhas próprias lembranças. Sou o que sou por medo de ser o que nunca fui.

Há mais mistérios entre a janela da sala e o porta retrato quebrado do que eu jamais imaginara.

Tresloucada, logo eu? Que talvez por culpa me calo inerte, talvez por preguiça, graça, desespero. Talvez. Talvez eu tome impulso e fôlego, talvez em meio àquele olhar de despedida, já fragilizado pelas perdas, ele queira ficar (e, talvez, de modo breve, segure a minha mão). Talvez nasçam, em meio aos sóis, pontos minúsculos de bocejos e cheiros de café fresco. Talvez amanheça, talvez adormeça e remonte-me num amontoado de pó, criatura errante de ilusões distintas.
Quero que ele aqueça as horas e as perca na soleira da porta (e que pendure os erros de anteontem no canto mais lindo do jardim).

E que floresça.
E que acalme.
E que orvalhe e frutifique.

Ama-me.

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Quinze

Lazy days | via Tumblr

Éramos quinze em um momento antes do anoitecer, quando as luzes violeta do dia diziam adeus. No quintal, alguém ria extravagantemente. Ou talvez fossem duas pessoas. Ou três. Não sabia ao certo, mas a culpa certeira era das garrafas de vinho, vazias e espalhadas pelo chão. Eu não queria prestar atenção nas piadas ou cantigas dedilhadas no violão, porque você estava lá. O mesmo corte de cabelo e o mesmo olhar distante, como uma fera machucada e acuada. E eu, que costumo falar mais do que silenciar o seu eco dentro de mim, me vi fitando seus traços tão sutis e desejando que um meteoro caísse e com ele levasse todos nós, menos você e o seu perfume que bailava com o vento naquele instante em que éramos catorze, pois o Augusto estava passando mal no banheiro. E no meio daquela confusão de cores e ventania, você me olhou pela quinta vez e sorriu e desviou o olhar do meu – e eu, que tinha tanto direito de ir embora daquele quintal de grama mal aparada quanto você, me senti presa a algo que escorre pelas minhas mãos até hoje.

Um casal estava deitado na grama olhando as estrelas; eu também queria estar longe dali, fingindo estar tudo bem com o caos da minha mente. Mas não estava e nunca estará. Você tomou o violão das mãos da Marina e, com a confiança de um gladiador prestes a vencer a batalha, tocou a nossa música. E eu te odiei naquele instante. Mas só naquele instante, porque depois do ódio veio o meu sorriso, bendito réu confesso. Sua voz transformava tudo em um grande abismo de nós dois, e todos nós caímos nele. E eu me despedacei em suas rochas e marcas e cicatrizes e beijos e horas mal dormidas, nas quais eu não conseguia decidir entre te ligar ou dormir me sentindo culpada.

Estávamos todos mortos. E aquele era o pedaço de um paraíso que só existia dentro de mim.

Você fez aquilo para me provocar, eu sei. Melodiou algo que deveria estar enterrado e colocou no fogo todas as minhas objeções. A raiva deveria me consumir, mas a paz de espírito – a sua paz – cantou mais alto em meus ouvidos e apenas desejei me afogar até não restar nenhum resquício meu no Universo.

As horas tropeçavam e estancavam como muitos de nós que ali estavam. Pra ser mais precisa, doze deles. Nós, os únicos sóbrios de bebida, nos embriagávamos em cada promessa calada e olhar penetrante, como se fôssemos um e o resto do mundo pouco importasse. Até que raiou o dia e o céu se tornou rosa-laranja-amarelado. E você desviou seu olhar castanho dos meus, cor de céu chuvoso. Senti frio naquela manhã quente de domingo, mas aquele frio era meu companheiro há tanto tempo que eu não deveria me surpreender. Nosso orgulho falou mais alto e a vontade de ser alguém e ter alguém pra si morreu ainda prematura.

Éramos quinze naquele momento. Quinze almas que vagueiam trôpegas pelo mundo, sem dinheiro ou perdão.

Éramos quinze até restarem dois.

Eu e a solidão.

Por enquanto

(3) Tumblr

Enquanto a música não termina, eu tamborilo meus dedos impacientemente

Nos espaços que você deixou aqui.

Enquanto a chuva inunda o jardim do quintal e mata

Aquela rosa vermelha que plantei, tento matar

O que restou da última vez em que nos vimos.

Enquanto o sono dorme em meu peito, entorpecendo a vontade

De sair por aí e deixar o sol aquecer minha pele

Eu deixo o tempo passar e remendar todas as feridas

Da minha mente

[É que saí de lágrimas para ler gente].

Enquanto eu não sei de suas manias e velhices,

Escuto pela milésima vez a música do começo e

Continuo tamborilando os dedos nos espaços que você deixou

– Tão bonitos, mas não meus –

Enquanto eu vejo seu rosto em todos os lugares,

Em todas as casas,

E em cada esquina e azulejo do banheiro,

Paro e fico como náufraga a lhe procurar

Como sinal de fuga ou farol a iluminar meu caminho.

Corro risco por todo esse choro

Corro risco por todo esse amor

Corro risco por toda e qualquer

Saudade sua.

Enquanto nossos encantos não cantam um dueto,

Fico, por enquanto, adiando sua partida do meu coração.

Nostalgia

large (1)

ela carrega flores ao longo

dos cabelos

e o amor dentro dos olhos.

vaga para um lugar próximo

à Lugar Nenhum

e sabe que não vai voltar.

ela corre com dois pés esquerdos

e grita mais alto que o som

do vento passando por entre as árvores:

ela não está bem (como se isso, de fato, fosse novidade).

o orvalho cai de seus olhos

quando ela lembra dele; ser inanimado,

que mais parece Sonho do que Realidade;

ele sorriu uma ou duas vezes e

deu três suspiros profundos, seguidos

de trezentos e sessenta olhares mal-correspondidos.

ela se inflamou de paixão e quase entrou em combustão na primeira

vez em que viu a cascata cor de chocolate

que eram aqueles benditos olhos.

ah, aqueles benditos olhos castanhos…

ela queria se afogar

[nele e na calma e esperança que ele trazia]

mas não havia tempo: ela tinha que

correr até Lugar Nenhum e, quem sabe,

encontrar o Amor em sua forma mais pura.

ela carrega flores ao longo

dos cabelos

e o amor dentro dos olhos.

passa despercebida por tudo e todos

como um papel de parede rasgado

e puído pelo peso dos anos.

ela quer aprender a falar mais

do que sonha,

mas os sonhos são mais sagrados

do que palavras jogadas ao vento.

então ela se acalma e olha a

linha infinita entre as montanhas

e o céu.

e para.

e chora.

e se lembra de quando era menina.

de quando não precisava se apaixonar,

ou pagar contas, ou resolver fórmulas

de Física, ou ser politicamente correta…

ela se lembra de quando a inocência

a enrolava como um cobertor e

as duas dormiam de mãos dadas

ouvindo a canção de ninar

da noite.

mas agora tudo isso se foi.

ela cresceu, assim como os cabelos dela

ornamentados por flores;

o amor que mora bem no fundo dos

olhos dela necessita de

aconchego, carinho e estórias a

serem ouvidas e contadas.

ela carrega flores ao longo

dos cabelos

e o amor dentro dos olhos.

ela parou no meio do caminho.

[e sabe que não poderá voltar]

Virou clichê

ImageVirou clichê acordar lá pelas duas da manhã pensando em você. Talvez você também pense em mim antes de dormir e também imagine diálogos soltos que nunca serão ditos por nós dois. Talvez. Não sei. Virou clichê ficar pensando nisso. Virou clichê te colocar em cada verso do poema, em cada linha da prosa perdida, em cada personagem dos romances que eu leio por aí. Virou clichê ouvir inúmeras músicas numa estação qualquer e te encontrar no dedilhado do violão ou no grito que enche meus ouvidos na última parte da canção. Virou clichê pegar meus pensamentos vagando e oscilando entre seus olhos e sua respiração, quando eu tenho tanta coisa – mas tanta coisa – para fazer. Virou clichê escrever para você (levando em conta que também é clichê o fato de que você nunca chegará perto das folhas de papel acumuladas na última gaveta da minha escrivaninha).

Se você pudesse ouvir o silêncio gritante que paira bem acima do meu peito, entenderia. Entenderia a origem do Universo, as inúmeras falhas que cometemos inconscientemente e o porquê de eu sorrir toda vez que te pego me observando. Com esses benditos olhos castanhos que me fitam, até sem querer, de minuto em minuto.

Virou clichê ter medo de você. Ter medo que você não sinta, não chore ou não pense em mim quando a chuva tamborila no telhado. Existe algo mais clichê que isso? Porque eu quero suas mãos nas minhas enquanto caminhamos pela cidade. Enquanto você olha uma árvore e vê um ninho, imaginando o nosso próprio daqui a alguns anos. Quero acordar de manhãzinha, naquela hora em que o sol começa a se espreguiçar, só pra te ver suspirando leve, sereno, menino. Meu.

Mas o maior clichê de todos os clichês é essa incerteza que me corrói. Não saber se você vai ficar por aqui em alguma dessas suas chegadas bruscas que me tiram o fôlego. Não saber se posso me mostrar para você do jeito que sou – sem máscaras, medos ou inseguranças, apenas eu e meu coração. Não saber se é válido cronometrar os milésimos de segundo até o dia em que só existirá um “nós”. E mais nada.

[Amor, na verdade, acho que todo esse clichê é apenas saudade. Ou talvez solidão.]

Sobre o processo de desapaixonar-se

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De repente o mundo volta ao seu eixo habitual. Músicas tocam no rádio, cenas passam na televisão e tudo o que você faz é ignorá-las. Apático. De repente a comida no prato volta a tornar-se quente e o banho quente no frio não é mais tão convidativo. O travesseiro passa a acomodar-lhe apenas os cabelos curtos e cacheados. Não mais sonhos e planos. A vida segue tranquila, como se nela não faltasse nada além de contas a serem pagas no fim do mês. Ou o cinema de sábado à tarde. Sem companhia.

O caminho que leva à rua agora é curto. Não há mais pressa ou agonia em encontrar a calçada, os carros, a porta de madeira escura e aquele olhar que tanto o perseguia por entre a multidão. Quem dorme tranquila no banco do passageiro, neste exato momento, é a solidão.

Essa bobagem de ter alguém para amar é ilusão, você pensa. Você percebe que a vida passa rápido e é difícil fazer as coisas boas durarem. Você percebe que o sol não se põe. É apenas uma ilusão causada pelo mundo girando, a letra da canção já dizia. Você se deu conta, não é mesmo? No fim de tudo, talvez o amor seja mesquinho. Você não queria fazê-la feliz. Apenas ser feliz com ela.

Mas não foi isso o que você aprendeu no jardim de infância, quando a tia Maria o obrigava a fazer dupla com a Luana, a menina dos olhos tristes. Ela o ensinou que amor é algo supremo e que não existe apenas entre casais. Você ama seus pais, seus irmãos, seus livros e o cachorro de estimação. Até aquela moça aparecer e roubar seu mais lindo sorriso e as mais tímidas batidas do seu coração. Por um ano e seis meses. Escravo de algo que funcionava teoricamente.

Você pensa em nunca mais querer tanto outro alguém. Pensa em desistir do trabalho e da escrita e viajar pelo mundo como um lobo solitário – ou talvez apenas observar a chuva açoitando a janela e ter o prazer de discutir mentalmente qual gota chegará primeiro ao terceiro andar. Não mais enxergá-la como algo poético. Mas, bem lá no fundo, sabe que mais dia ou menos dia todas as lembranças voltarão. Encobertas por outros cabelos, outra risada, outros gostos, outra voz, outro olhar de menina e outras noites de insônia e indecisão: ligar para ela ou não ligar? Eis a questão.

Em algum canto remoto da sua mente, você admite que valeu a pena. Por um tempo.

Agora você pode respirar aliviado. Não há o quê temer. Amores vêm e vão. Voltam e tiram nosso sossego. Acabam rápida e drasticamente. Duram um minuto e duas respirações. Ou eternamente.

Deite a cabeça no encosto do sofá e feche os olhos por alguns minutos. Agora você pode voltar a dormir.

Por enquanto.

[Neste texto foi utilizado um trecho da música “Do You Realize?”, The Flaming Lips].

Hoje acordei meio assim, sei lá…

Síndrome coleccionista: Margaret Atwood. Frases como puñales.

Acordei às 6h30 de súbito. Culpa de um sonho enrolado, envolvendo pessoas conhecidas, desconhecidas e a querida Wednesday de A Família Addams – que acabara não sendo tão amigável comigo. Notei que não conseguia respirar direito: um copo d’água gelado, consumido no dia anterior, sentenciou-me a um resfriado nada bem-vindo. O mundo ao meu redor girava e minha vontade de sair da cama habitava algum lugar obscuro do Universo.

Isso aconteceu durante toda a semana. Minha amiga Preguiça envolveu-me em lençóis confortáveis de segunda à sexta, sem intervalos ou rendição. Aceitei sua companhia, como boa anfitriã que sou, porém tinha muitas tarefas a cumprir. A Física e a Química de todo-santo-dia-de-estudos me aguardavam com fórmulas e cálculos que em outro tempo me escravizavam. Arrastei-me por cinco dias até minha escrivaninha, mas meu ânimo-sonolento em nada ajudou.

Decidi abonar do meu metodismo por alguns momentos. Deixei o caderno e as canetas de cores formais descansarem um pouco. Talvez, se tudo der certo, amanhã eu acorde melhor – sem o funga-funga do resfriado e sem Wednesday-fantasma-ameaçadora me perseguindo por aí. Espero não ter de me sentir mal por esquecer o mundo lá fora por um par de horas ou meu compromisso com a escrita – que por sinal anda bem largada e sem inspiração.

Virei-me para o outro lado da cama e imaginei um modo de arrumar forças para me levantar e encarar o lindo dia ensolarado de 25 °C. Abri o notebook e encarei uma página do Word em branco pelo que pareceu-me uma eternidade.

E não é que meu ócio rendeu um texto?