Ausência

2016 - 1 (5)

Me desvaneço

em sombras & pó

& numa canção que

rasga o rádio e as

entranhas de

um passado

febril

 

vou embora

com o resquício da

sua voz

que embala o

corredor pálido

(de nós dois e de frio)

 

Sou capaz de tropeçar

nesse arremedo de gente

em cada quina e canto

em cada curva da

estrada

 

Vou deixando de ser

Eu-Nós-Vós

Me-mim-comigo

Até restar

absolut

ame

nt

e

 

Serendipidade

Vá para aonde sua alma te chamar.

Nunca se sabe quando encontraremos algum lugar que nos chame a atenção, um lugar nostálgico que já estava ali antes do nosso nascimento e que, muito provavelmente, permanecerá lá quando morrermos. As pessoas que passam por esse lugar, tão diferentes e iguais ao mesmo tempo, sussurram palavras que vão ao encontro da minha alma, mesmo em outro idioma ou em meio a gargalhadas altas. Ali, no meio da cidade grande, encontrei um pedaço de mim, movimentado e angustiado, cheio de novidades, carros, obras de arte e pedidos de socorro velados. A vida corrida do paulistano em hora de almoço é o que me encanta. O hippie vendendo colares de miçanga perto do parque me encanta. A arquitetura do MASP me encanta. E é por isso que me permito essa epifania, sentada na calçada do Trianon, bebendo os últimos resquícios de um refresh de frutas vermelhas comprado na Starbucks mais próxima.

Quem me vê neste exato lugar não dá a mínima; garotos de cabelos compridos e coloridos e meninas com tênis de cores extravagantes e dreads passam sem ser notados, então tudo bem ficar por aqui, no meio da passagem, meditando sobre a beleza desse caos que é São Paulo. Tudo bem estar vestida com calças jeans claras e camiseta da Joy Division (sem ser tachada de pseudo hipster). Tudo bem ser o que você quer ser. Sem estereótipos ou compromissos. E é exatamente isso que me fascina nesse lugar: liberdade.

Me dei conta de que hoje não houve nenhum protesto em frente ao vão do MASP. Milagre. Mesmo assim os motoristas se atropelam, clamando por férias e salários mais altos e quase passam por cima da senhora de cabelos brancos que, por estar com um alto grau de glaucoma, não vê o semáforo fechado para pedestres (a velhinha está bem, e já vai a passos lentos no outro lado da avenida). Um homem vestido com calças cáqui e camisa social a ajuda a encontrar a lanchonete mais próxima, da mesma forma que outro, mais alto e gordinho, pede a namorada loura e magrinha em casamento quando o semáforo fecha. E isso me faz questionar se realmente não existe amor em São Paulo (em pequenas doses, creio que ainda exista).

O poeta gruda seus versos datilografados em um poste. Propaganda de uma página no Facebook (será só marketing ou amor às palavras?). Um casal briga para decidirem onde almoçarão ao meio-dia. Um sósia do Elvis termina sua performance dramática de Suspicious Mind, ao mesmo tempo em que uma banda de bluegrass começa a dedilhar uma canção num banjo. Uma criança cai da bicicleta, machucando o joelho e os pais tiram mais do que prontamente o Merthiolate ainda lacrado da bolsa cor-de-rosa da Barbie, salvando-a daquele vilão dolorido, enquanto fazem carinhos em seu cabelo liso e castanho e a ajudam a levantar. Um menino de rua, sem pais (e paz), agoniza de fome ali perto.

Aqui há a mistura do velho com o novo; do adulto com a criança; do contemporâneo com o anacrônico; do rico com o pobre; da indiferença com a exaltação e tudo isso – junto com a beleza e o aconchego da livraria Martins Fontes – faz com que eu tenha vontade de trazer um colchonete e viver sob o sol e as estrelas, vivenciando o que há de mais lindo (e estranho) na Avenida Paulista.

Já ouvi várias pessoas dizendo que viver em São Paulo faz com que você se torne apenas mais um. Mais um na multidão, mais um na fila da padaria, mais um para entrar no metrô lotado na hora do rush. Mas, ao mesmo tempo, toda essa solidão é enterrada quando você se dá conta de que não está só: sempre esbarrará em alguém conhecido ou parecido. Sempre haverá quem divida com você o chopp gelado e o sanduíche de mortadela com queijo. Sempre existirá alguém em cada esquina para te estender a mão (sem ser em um assalto) quando você precisar, e é isso que faz valer a pena morar em uma selva de pedras por vezes hostil.

Levanto com relutância e jogo o copo vazio na lixeira. Estico as pernas e os braços e limpo os olhos para retirar o resto do sonho que sonhei há pouco tempo e que ainda está bem vivo dentro de mim. Não há mágica aqui. Mesmo com a mente fresca e acordada, percebo que a magia dos momentos, das pessoas, dos prédios cinzentos e seus ar condicionados que não combinam e poluem visualmente o céu, dos livros que acabei de adotar, da Casa das Rosas, dos semáforos multicoloridos e das árvores do Trianon que desmancham em folhas secas está ali. No real, no palpável. E não há praia, campo ou sossego que a substitua.

[NOTASerendipidade, também conhecido como Serendipismo, Serendiptismo ou ainda Serendipitia, é um neologismo que se refere às descobertas afortunadas feitas, aparentemente, por acaso.
A história da ciência está repleta de casos que podem ser classificados como serendipismo. O conceito original de serendipismo foi muito usado, em sua origem. Nos dias de hoje, é considerado como uma forma especial de criatividade, ou uma das muitas técnicas de desenvolvimento do potencial criativo de uma pessoa adulta, que alia perseverança, inteligência e senso de observação. Fonte: Dicionário inFormal.]

POEIRA, Eu.

Tumblr
Um resquício de poeira flutuante é o que sou, mas não brilho se contrastada com a luz do sol. Transito por prédios, estantes abarrotadas de livros, semáforos fechados e insônias. Acumulo-me no passado e pelos cantos da casa, como um cadeado enferrujado de minhas próprias lembranças. Sou o que sou por medo de ser o que nunca fui.

Há mais mistérios entre a janela da sala e o porta retrato quebrado do que eu jamais imaginara.

Tresloucada, logo eu? Que talvez por culpa me calo inerte, talvez por preguiça, graça, desespero. Talvez. Talvez eu tome impulso e fôlego, talvez em meio àquele olhar de despedida, já fragilizado pelas perdas, ele queira ficar (e, talvez, de modo breve, segure a minha mão). Talvez nasçam, em meio aos sóis, pontos minúsculos de bocejos e cheiros de café fresco. Talvez amanheça, talvez adormeça e remonte-me num amontoado de pó, criatura errante de ilusões distintas.
Quero que ele aqueça as horas e as perca na soleira da porta (e que pendure os erros de anteontem no canto mais lindo do jardim).

E que floresça.
E que acalme.
E que orvalhe e frutifique.

Ama-me.

(…)

Stay with me♡

Teus traços
tão sutis
florescem enquanto
eu bebo o calor
dos teus olhos
para fugir de mim
[foge comigo também, e
perca na rua
a vontade de ser
o que já é,
apenas seja
por inteiro].

Dance em meio às nuvens
e não tema: o hoje é nosso
(e o amanhã: quem é que sabe?)

Somos infinitos pássaros
em busca de serenidade
divina
– o céu é nosso berço
e, teu coração, o meu
mar.

Ame sem medo de enxergar
trincheiras e vontades
que escancaram a porta
do quarto e o cobertor,
ame só pelo fato de que
tu és jardim de vida e
eu, rosa-morena, alimento-me
da luz que entra pela
janela e nos banha sem
cerimônia.

Valse com a pressa,
com a gana e comigo,
seja refúgio para
o doce dos meus lábios
e
toque-me – como melodia
toque-me – como um acorde de pétala
toque-me – que sou poesia.

O meio-dia dorme menino
em nossos braços
E tua alma tranquila
jaz em mim:

doce é a tua paz e
teu cheiro de jasmim.

Quinze

Lazy days | via Tumblr

Éramos quinze em um momento antes do anoitecer, quando as luzes violeta do dia diziam adeus. No quintal, alguém ria extravagantemente. Ou talvez fossem duas pessoas. Ou três. Não sabia ao certo, mas a culpa certeira era das garrafas de vinho, vazias e espalhadas pelo chão. Eu não queria prestar atenção nas piadas ou cantigas dedilhadas no violão, porque você estava lá. O mesmo corte de cabelo e o mesmo olhar distante, como uma fera machucada e acuada. E eu, que costumo falar mais do que silenciar o seu eco dentro de mim, me vi fitando seus traços tão sutis e desejando que um meteoro caísse e com ele levasse todos nós, menos você e o seu perfume que bailava com o vento naquele instante em que éramos catorze, pois o Augusto estava passando mal no banheiro. E no meio daquela confusão de cores e ventania, você me olhou pela quinta vez e sorriu e desviou o olhar do meu – e eu, que tinha tanto direito de ir embora daquele quintal de grama mal aparada quanto você, me senti presa a algo que escorre pelas minhas mãos até hoje.

Um casal estava deitado na grama olhando as estrelas; eu também queria estar longe dali, fingindo estar tudo bem com o caos da minha mente. Mas não estava e nunca estará. Você tomou o violão das mãos da Marina e, com a confiança de um gladiador prestes a vencer a batalha, tocou a nossa música. E eu te odiei naquele instante. Mas só naquele instante, porque depois do ódio veio o meu sorriso, bendito réu confesso. Sua voz transformava tudo em um grande abismo de nós dois, e todos nós caímos nele. E eu me despedacei em suas rochas e marcas e cicatrizes e beijos e horas mal dormidas, nas quais eu não conseguia decidir entre te ligar ou dormir me sentindo culpada.

Estávamos todos mortos. E aquele era o pedaço de um paraíso que só existia dentro de mim.

Você fez aquilo para me provocar, eu sei. Melodiou algo que deveria estar enterrado e colocou no fogo todas as minhas objeções. A raiva deveria me consumir, mas a paz de espírito – a sua paz – cantou mais alto em meus ouvidos e apenas desejei me afogar até não restar nenhum resquício meu no Universo.

As horas tropeçavam e estancavam como muitos de nós que ali estavam. Pra ser mais precisa, doze deles. Nós, os únicos sóbrios de bebida, nos embriagávamos em cada promessa calada e olhar penetrante, como se fôssemos um e o resto do mundo pouco importasse. Até que raiou o dia e o céu se tornou rosa-laranja-amarelado. E você desviou seu olhar castanho dos meus, cor de céu chuvoso. Senti frio naquela manhã quente de domingo, mas aquele frio era meu companheiro há tanto tempo que eu não deveria me surpreender. Nosso orgulho falou mais alto e a vontade de ser alguém e ter alguém pra si morreu ainda prematura.

Éramos quinze naquele momento. Quinze almas que vagueiam trôpegas pelo mundo, sem dinheiro ou perdão.

Éramos quinze até restarem dois.

Eu e a solidão.