1. Auto Retrato

A Flor e os Espinhos

🌸

Às vezes (bem às vezes) eu não queria ser eu. Não queria navegar neste mar de emoções que eletrificam e aquecem minha alma, não queria arrepiar-me com o sussurro da noite ou com o suspiro da manhã. Às vezes (bem às vezes) preferiria abdicar da paixão que fere meu peito e que rouba as poucas horas de sono que tenho no dia. Às vezes (bem às vezes) gostaria de ir embora para uma galáxia distante, ou talvez conversar com um sábio hindu que mora na Lua. Às vezes, queria sair na rua gritando o que não cabe dentro de mim: queria me perder em minhas próprias curvas, que de tão demasiadas me espantam e talvez as jogaria do primeiro precipício que encontrasse pela frente. Às vezes, sinto muito por sentir tanto, e por sentir tanto me despedaço. Às vezes (bem às vezes) queria ser outra, mas por não poder ser outra, sou muitas dentro de um mesmo corpo.

Às vezes (bem às vezes) gostaria de tirar o pouco do riso que me resta. Deveria insistir mais em viver sem tudo isso.
Mas sempre (ou quase sempre) me lembro de que se não fosse assim, seria apenas um rascunho do que pretendia ser na infância. Ou em outras vidas.

Então desisto.

Sem tudo isso, eu não seria eu.

[Ideia originalmente tirada do blog Central da Leitura]

#PHpoemaday

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POEIRA, Eu.

Tumblr
Um resquício de poeira flutuante é o que sou, mas não brilho se contrastada com a luz do sol. Transito por prédios, estantes abarrotadas de livros, semáforos fechados e insônias. Acumulo-me no passado e pelos cantos da casa, como um cadeado enferrujado de minhas próprias lembranças. Sou o que sou por medo de ser o que nunca fui.

Há mais mistérios entre a janela da sala e o porta retrato quebrado do que eu jamais imaginara.

Tresloucada, logo eu? Que talvez por culpa me calo inerte, talvez por preguiça, graça, desespero. Talvez. Talvez eu tome impulso e fôlego, talvez em meio àquele olhar de despedida, já fragilizado pelas perdas, ele queira ficar (e, talvez, de modo breve, segure a minha mão). Talvez nasçam, em meio aos sóis, pontos minúsculos de bocejos e cheiros de café fresco. Talvez amanheça, talvez adormeça e remonte-me num amontoado de pó, criatura errante de ilusões distintas.
Quero que ele aqueça as horas e as perca na soleira da porta (e que pendure os erros de anteontem no canto mais lindo do jardim).

E que floresça.
E que acalme.
E que orvalhe e frutifique.

Ama-me.

Tuas mãos

Untitled | via Tumblr

Calmas, singelas e precisas, elas deslizam pelas páginas dos livros, tentando absorver com as pontas dos dedos toda a essência das aventuras que teus olhos cor-de-café-fresco tanto se deliciam ao ler. Calmamente, raptam o pires da toalha de mesa bordada e seguram a xícara de porcelana quebrada nas beiradas com precisão invejável. Anotam com caneta os devaneios de tua mocidade e limpam as manchas de tinta que respingam o papel branco. Branco como a teu sorriso tímido e o suspirar de teus pulmões.

Elas arrumam teus cabelos curtos e escuros com delicadeza, e ali descansam, mansas e alongadas. E eu as invejo. Deus, como as invejo! Queria tê-las entre meus próprios cabelos, pescoço e acima do coração. Tenho certeza de que adorariam sentir o palpitar de meus nervos de menina que só clamam por um aconchego teu. Dormiríamos entrelaçados, assim como elas, e esse nó de dois nunca se apartaria de nossas vidas.

Mas o dia logo irá embora, assim como a tua presença.

E eu as terei junto a mim, com sorte, apenas em meus pensamentos noturnos.

[Não há cristão no mundo que me convença a não amar tuas mãos, meu amor, mesmo de longe. E tenho dito.]