Serendipidade

Vá para aonde sua alma te chamar.

Nunca se sabe quando encontraremos algum lugar que nos chame a atenção, um lugar nostálgico que já estava ali antes do nosso nascimento e que, muito provavelmente, permanecerá lá quando morrermos. As pessoas que passam por esse lugar, tão diferentes e iguais ao mesmo tempo, sussurram palavras que vão ao encontro da minha alma, mesmo em outro idioma ou em meio a gargalhadas altas. Ali, no meio da cidade grande, encontrei um pedaço de mim, movimentado e angustiado, cheio de novidades, carros, obras de arte e pedidos de socorro velados. A vida corrida do paulistano em hora de almoço é o que me encanta. O hippie vendendo colares de miçanga perto do parque me encanta. A arquitetura do MASP me encanta. E é por isso que me permito essa epifania, sentada na calçada do Trianon, bebendo os últimos resquícios de um refresh de frutas vermelhas comprado na Starbucks mais próxima.

Quem me vê neste exato lugar não dá a mínima; garotos de cabelos compridos e coloridos e meninas com tênis de cores extravagantes e dreads passam sem ser notados, então tudo bem ficar por aqui, no meio da passagem, meditando sobre a beleza desse caos que é São Paulo. Tudo bem estar vestida com calças jeans claras e camiseta da Joy Division (sem ser tachada de pseudo hipster). Tudo bem ser o que você quer ser. Sem estereótipos ou compromissos. E é exatamente isso que me fascina nesse lugar: liberdade.

Me dei conta de que hoje não houve nenhum protesto em frente ao vão do MASP. Milagre. Mesmo assim os motoristas se atropelam, clamando por férias e salários mais altos e quase passam por cima da senhora de cabelos brancos que, por estar com um alto grau de glaucoma, não vê o semáforo fechado para pedestres (a velhinha está bem, e já vai a passos lentos no outro lado da avenida). Um homem vestido com calças cáqui e camisa social a ajuda a encontrar a lanchonete mais próxima, da mesma forma que outro, mais alto e gordinho, pede a namorada loura e magrinha em casamento quando o semáforo fecha. E isso me faz questionar se realmente não existe amor em São Paulo (em pequenas doses, creio que ainda exista).

O poeta gruda seus versos datilografados em um poste. Propaganda de uma página no Facebook (será só marketing ou amor às palavras?). Um casal briga para decidirem onde almoçarão ao meio-dia. Um sósia do Elvis termina sua performance dramática de Suspicious Mind, ao mesmo tempo em que uma banda de bluegrass começa a dedilhar uma canção num banjo. Uma criança cai da bicicleta, machucando o joelho e os pais tiram mais do que prontamente o Merthiolate ainda lacrado da bolsa cor-de-rosa da Barbie, salvando-a daquele vilão dolorido, enquanto fazem carinhos em seu cabelo liso e castanho e a ajudam a levantar. Um menino de rua, sem pais (e paz), agoniza de fome ali perto.

Aqui há a mistura do velho com o novo; do adulto com a criança; do contemporâneo com o anacrônico; do rico com o pobre; da indiferença com a exaltação e tudo isso – junto com a beleza e o aconchego da livraria Martins Fontes – faz com que eu tenha vontade de trazer um colchonete e viver sob o sol e as estrelas, vivenciando o que há de mais lindo (e estranho) na Avenida Paulista.

Já ouvi várias pessoas dizendo que viver em São Paulo faz com que você se torne apenas mais um. Mais um na multidão, mais um na fila da padaria, mais um para entrar no metrô lotado na hora do rush. Mas, ao mesmo tempo, toda essa solidão é enterrada quando você se dá conta de que não está só: sempre esbarrará em alguém conhecido ou parecido. Sempre haverá quem divida com você o chopp gelado e o sanduíche de mortadela com queijo. Sempre existirá alguém em cada esquina para te estender a mão (sem ser em um assalto) quando você precisar, e é isso que faz valer a pena morar em uma selva de pedras por vezes hostil.

Levanto com relutância e jogo o copo vazio na lixeira. Estico as pernas e os braços e limpo os olhos para retirar o resto do sonho que sonhei há pouco tempo e que ainda está bem vivo dentro de mim. Não há mágica aqui. Mesmo com a mente fresca e acordada, percebo que a magia dos momentos, das pessoas, dos prédios cinzentos e seus ar condicionados que não combinam e poluem visualmente o céu, dos livros que acabei de adotar, da Casa das Rosas, dos semáforos multicoloridos e das árvores do Trianon que desmancham em folhas secas está ali. No real, no palpável. E não há praia, campo ou sossego que a substitua.

[NOTASerendipidade, também conhecido como Serendipismo, Serendiptismo ou ainda Serendipitia, é um neologismo que se refere às descobertas afortunadas feitas, aparentemente, por acaso.
A história da ciência está repleta de casos que podem ser classificados como serendipismo. O conceito original de serendipismo foi muito usado, em sua origem. Nos dias de hoje, é considerado como uma forma especial de criatividade, ou uma das muitas técnicas de desenvolvimento do potencial criativo de uma pessoa adulta, que alia perseverança, inteligência e senso de observação. Fonte: Dicionário inFormal.]

Anúncios

One thought on “Serendipidade

  1. Que texto!! Quanto detalhe na descrição! Imaginei as ruas, as pessoas, os carros, você em algum lugar olhando fixamente o céu e depois um giro de 360°, como se estivesse dentro dos seus olhos e quem sabe sentindo o que você sentia quando a inspiração te abraçou. Estou aqui, submersa.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s