25. Narrador incomum #PHpoemaday

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“Você deve me ouvir”, eu dizia a ela.

O vento batia lá fora e inundava o quarto pelas frestas da janela. Amélia segurava com as duas mãos uma xícara quente de chá, agarrando-a como se fosse a última da Terra. Ela não tomava café desde quando me ganhara e o final do namoro ocorrera. Os olhos dele eram da mesma cor do líquido fresco e vivo que enchia de aroma quente seus pulmões pela manhã. Amélia não tinha outra opção, senão fechar os olhos e inspirar o cheiro de hortelã que subia com a fumaça quente da caneca de porcelana quebrada. O cobertor ninava seu corpo e a camuflava de um mundo desinteressante, no qual não havia amigos para acalentar sua dor. Ela ainda sentia falta dele mais do que qualquer coisa no mundo, mas, para esquecê-lo, deveria transformá-lo em literatura.

“Eu sei que devo te ouvir, Ramón, mas eu não consigo…”, dizia ela sem esperança. “Não consigo por para fora tudo aquilo que eu sinto. Não agora”. Ela me fitava com olhos tristes e suplicantes. Não sabia mais o que fazer. As bolas de papel amontoavam-se no chão e transformavam o quarto dela em um campo minado de palavras mal sucedidas. Ela deveria me usar para o próprio bem, escrever sonetos, contos de terror, crônicas, e não remoer um amor do passado. Tenho certeza de que ele nem sequer se lembra dela.

“Sabe de uma coisa”, eu disse, “Me jogue fora. Me arrebente na parede e desconte sua dor em mim. Eu não posso continuar existindo com essa dor que só te faz mal. Deve haver um fim…”

“Eu não posso me desfazer de você, Ramón. Eu te amo. E não consigo viver sem você. Você é meu único amigo e eu não quero te perder”, as lágrimas se acumularam no canto dos olhos dela e ela me abraçou tão forte que senti a minha última folha de papel se amassar. “Então o esqueça. Escreva sobre você, sobre nós dois, sobre o que você espera do futuro. Ele não te ama como eu e só quer te fazer mal… Transformá-lo em um livro o eternizará dentro de você. E de mim. E eu estou cansado”.

“Então temos um acordo. Vou parar de mencioná-lo em cada linha que datilografo. Vou começar a escrever… vejamos… Um livro de contos! Sim! Um livro de contos fantásticos, mesclados a poemas do mesmo gênero! Como o meu livro favorito do Gaiman!”, ela assuou o nariz em um lenço de papel, levantou-se e buscou o enorme bloco de folhas A4 que estava sobre a escrivaninha. Voltou para a cama e sentou-se ao meu lado, substituindo a folha amassada por uma novinha e branca como neve.

“Não sei o que seria da minha inspiração sem você, minha máquina de escrever favorita. Meu Ramón…”, seus olhos brilharam de felicidade e eu me senti vivo pela primeira vez em semanas.

“Não sei o que seria de mim sem você, meu amor.”

E ela começou a inventar dragões, monstros de duas cabeças e criaturas que saem de tumbas ao anoitecer.

Serendipidade

Vá para aonde sua alma te chamar.

Nunca se sabe quando encontraremos algum lugar que nos chame a atenção, um lugar nostálgico que já estava ali antes do nosso nascimento e que, muito provavelmente, permanecerá lá quando morrermos. As pessoas que passam por esse lugar, tão diferentes e iguais ao mesmo tempo, sussurram palavras que vão ao encontro da minha alma, mesmo em outro idioma ou em meio a gargalhadas altas. Ali, no meio da cidade grande, encontrei um pedaço de mim, movimentado e angustiado, cheio de novidades, carros, obras de arte e pedidos de socorro velados. A vida corrida do paulistano em hora de almoço é o que me encanta. O hippie vendendo colares de miçanga perto do parque me encanta. A arquitetura do MASP me encanta. E é por isso que me permito essa epifania, sentada na calçada do Trianon, bebendo os últimos resquícios de um refresh de frutas vermelhas comprado na Starbucks mais próxima.

Quem me vê neste exato lugar não dá a mínima; garotos de cabelos compridos e coloridos e meninas com tênis de cores extravagantes e dreads passam sem ser notados, então tudo bem ficar por aqui, no meio da passagem, meditando sobre a beleza desse caos que é São Paulo. Tudo bem estar vestida com calças jeans claras e camiseta da Joy Division (sem ser tachada de pseudo hipster). Tudo bem ser o que você quer ser. Sem estereótipos ou compromissos. E é exatamente isso que me fascina nesse lugar: liberdade.

Me dei conta de que hoje não houve nenhum protesto em frente ao vão do MASP. Milagre. Mesmo assim os motoristas se atropelam, clamando por férias e salários mais altos e quase passam por cima da senhora de cabelos brancos que, por estar com um alto grau de glaucoma, não vê o semáforo fechado para pedestres (a velhinha está bem, e já vai a passos lentos no outro lado da avenida). Um homem vestido com calças cáqui e camisa social a ajuda a encontrar a lanchonete mais próxima, da mesma forma que outro, mais alto e gordinho, pede a namorada loura e magrinha em casamento quando o semáforo fecha. E isso me faz questionar se realmente não existe amor em São Paulo (em pequenas doses, creio que ainda exista).

O poeta gruda seus versos datilografados em um poste. Propaganda de uma página no Facebook (será só marketing ou amor às palavras?). Um casal briga para decidirem onde almoçarão ao meio-dia. Um sósia do Elvis termina sua performance dramática de Suspicious Mind, ao mesmo tempo em que uma banda de bluegrass começa a dedilhar uma canção num banjo. Uma criança cai da bicicleta, machucando o joelho e os pais tiram mais do que prontamente o Merthiolate ainda lacrado da bolsa cor-de-rosa da Barbie, salvando-a daquele vilão dolorido, enquanto fazem carinhos em seu cabelo liso e castanho e a ajudam a levantar. Um menino de rua, sem pais (e paz), agoniza de fome ali perto.

Aqui há a mistura do velho com o novo; do adulto com a criança; do contemporâneo com o anacrônico; do rico com o pobre; da indiferença com a exaltação e tudo isso – junto com a beleza e o aconchego da livraria Martins Fontes – faz com que eu tenha vontade de trazer um colchonete e viver sob o sol e as estrelas, vivenciando o que há de mais lindo (e estranho) na Avenida Paulista.

Já ouvi várias pessoas dizendo que viver em São Paulo faz com que você se torne apenas mais um. Mais um na multidão, mais um na fila da padaria, mais um para entrar no metrô lotado na hora do rush. Mas, ao mesmo tempo, toda essa solidão é enterrada quando você se dá conta de que não está só: sempre esbarrará em alguém conhecido ou parecido. Sempre haverá quem divida com você o chopp gelado e o sanduíche de mortadela com queijo. Sempre existirá alguém em cada esquina para te estender a mão (sem ser em um assalto) quando você precisar, e é isso que faz valer a pena morar em uma selva de pedras por vezes hostil.

Levanto com relutância e jogo o copo vazio na lixeira. Estico as pernas e os braços e limpo os olhos para retirar o resto do sonho que sonhei há pouco tempo e que ainda está bem vivo dentro de mim. Não há mágica aqui. Mesmo com a mente fresca e acordada, percebo que a magia dos momentos, das pessoas, dos prédios cinzentos e seus ar condicionados que não combinam e poluem visualmente o céu, dos livros que acabei de adotar, da Casa das Rosas, dos semáforos multicoloridos e das árvores do Trianon que desmancham em folhas secas está ali. No real, no palpável. E não há praia, campo ou sossego que a substitua.

[NOTASerendipidade, também conhecido como Serendipismo, Serendiptismo ou ainda Serendipitia, é um neologismo que se refere às descobertas afortunadas feitas, aparentemente, por acaso.
A história da ciência está repleta de casos que podem ser classificados como serendipismo. O conceito original de serendipismo foi muito usado, em sua origem. Nos dias de hoje, é considerado como uma forma especial de criatividade, ou uma das muitas técnicas de desenvolvimento do potencial criativo de uma pessoa adulta, que alia perseverança, inteligência e senso de observação. Fonte: Dicionário inFormal.]

20. Seu sonho hoje #PHpoemaday

Eu só queria escrever até cansar. Escrever até o lápis sumir dos meus dedos ou apertar teclas até as minhas digitais apagarem. Eu só queria escrever o que sinto (fielmente) em meu peito e, talvez assim, sentir alívio por uma dor que nem deveria existir. Queria escrever sobre o sonho que tive esta madrugada, envolvendo uma ponte quebrada sobre um rio e notas baixas na faculdade, mas o medo que isso se torne realidade faz com que eu não escreva. Então omito do papel. E do computador.

Se eu pudesse, de verdade, colocaria em 300 páginas aquele romance que comecei ano passado, porém não há alternativas de terminá-lo (estória clichê, personagens clichês, vida clichê…) e, se a sorte estivesse ao meu favor, eu o publicaria. Mas isso é um projeto futuro e que não me impede de escrever, escrever, escrever e escrever.

Queria ser como os meus escritores favoritos, pessoas que têm inspiração para a escrita até mesmo ao olhar uma parede em branco, sem rachadura ou mofo. Queria conseguir por para fora todos os sonhos mais incompreensíveis e fazê-los tomarem a forma de conto fantástico, envolvendo seres oníricos que pertencem somente a mim.

Queria ser poeta e saber rimar.

Queria ser bailarina e saber rodar.

Queria ser coração e saber amar.

Mas, para isso, me desdobro em mil personagens, todos eles uma ramificação do que eu gostaria de ser. Ser escritora é o preço que se paga por ser muitas dentro de um próprio corpo. Um universo em expansão.

Queria ter esse dom que tanto admiro nos outros. Queria fazer alguém sentir o que sinto ao ler um livro do Neil Gaiman, Edgar Allan Poe, John Green, Machado de Assis… Queria ter a chance de sentir o coração em paz ao concluir a última página de um livro, um último verso de um poema, uma saudação carinhosa em uma carta de amor. Só queria poder descrever os minuciosos tons acinzentados que tomam o meu céu neste momento, contrastando com o frio que gela minhas mãos ao escrever este texto.

Queria ser imortal e imortalizar. Queria respirar a poesia que há no ar. Queria abrir as asas e poder voar.

Mas, enquanto isso não acontece, escrevo.

3. Espelho

Ele é o que sou quando faz calor, parte de mim harmoniosa que não sente dor. Ele é o olhar pedinte que se esconde e que procura amor ao mesmo tempo, a calmaria de um dia tranquilo buscando alento. Somos iguais, porém de diferentes pais; adoça minha alma com teus abraços que duram tão pouco, desejando mais. Ele é o poema, eu sou rima. Ele é a chuva, eu sou o molhar. Ele é o céu que transborda em nuvens, eu sou pássaro para nele voar.
Somos espelhos um do outro sem nem saber.
Conhecemo-nos, amor meu, muito antes de o sol nascer.

 

#PHpoemaday

1. Auto Retrato

A Flor e os Espinhos

🌸

Às vezes (bem às vezes) eu não queria ser eu. Não queria navegar neste mar de emoções que eletrificam e aquecem minha alma, não queria arrepiar-me com o sussurro da noite ou com o suspiro da manhã. Às vezes (bem às vezes) preferiria abdicar da paixão que fere meu peito e que rouba as poucas horas de sono que tenho no dia. Às vezes (bem às vezes) gostaria de ir embora para uma galáxia distante, ou talvez conversar com um sábio hindu que mora na Lua. Às vezes, queria sair na rua gritando o que não cabe dentro de mim: queria me perder em minhas próprias curvas, que de tão demasiadas me espantam e talvez as jogaria do primeiro precipício que encontrasse pela frente. Às vezes, sinto muito por sentir tanto, e por sentir tanto me despedaço. Às vezes (bem às vezes) queria ser outra, mas por não poder ser outra, sou muitas dentro de um mesmo corpo.

Às vezes (bem às vezes) gostaria de tirar o pouco do riso que me resta. Deveria insistir mais em viver sem tudo isso.
Mas sempre (ou quase sempre) me lembro de que se não fosse assim, seria apenas um rascunho do que pretendia ser na infância. Ou em outras vidas.

Então desisto.

Sem tudo isso, eu não seria eu.

[Ideia originalmente tirada do blog Central da Leitura]

#PHpoemaday