Quinze

Lazy days | via Tumblr

Éramos quinze em um momento antes do anoitecer, quando as luzes violeta do dia diziam adeus. No quintal, alguém ria extravagantemente. Ou talvez fossem duas pessoas. Ou três. Não sabia ao certo, mas a culpa certeira era das garrafas de vinho, vazias e espalhadas pelo chão. Eu não queria prestar atenção nas piadas ou cantigas dedilhadas no violão, porque você estava lá. O mesmo corte de cabelo e o mesmo olhar distante, como uma fera machucada e acuada. E eu, que costumo falar mais do que silenciar o seu eco dentro de mim, me vi fitando seus traços tão sutis e desejando que um meteoro caísse e com ele levasse todos nós, menos você e o seu perfume que bailava com o vento naquele instante em que éramos catorze, pois o Augusto estava passando mal no banheiro. E no meio daquela confusão de cores e ventania, você me olhou pela quinta vez e sorriu e desviou o olhar do meu – e eu, que tinha tanto direito de ir embora daquele quintal de grama mal aparada quanto você, me senti presa a algo que escorre pelas minhas mãos até hoje.

Um casal estava deitado na grama olhando as estrelas; eu também queria estar longe dali, fingindo estar tudo bem com o caos da minha mente. Mas não estava e nunca estará. Você tomou o violão das mãos da Marina e, com a confiança de um gladiador prestes a vencer a batalha, tocou a nossa música. E eu te odiei naquele instante. Mas só naquele instante, porque depois do ódio veio o meu sorriso, bendito réu confesso. Sua voz transformava tudo em um grande abismo de nós dois, e todos nós caímos nele. E eu me despedacei em suas rochas e marcas e cicatrizes e beijos e horas mal dormidas, nas quais eu não conseguia decidir entre te ligar ou dormir me sentindo culpada.

Estávamos todos mortos. E aquele era o pedaço de um paraíso que só existia dentro de mim.

Você fez aquilo para me provocar, eu sei. Melodiou algo que deveria estar enterrado e colocou no fogo todas as minhas objeções. A raiva deveria me consumir, mas a paz de espírito – a sua paz – cantou mais alto em meus ouvidos e apenas desejei me afogar até não restar nenhum resquício meu no Universo.

As horas tropeçavam e estancavam como muitos de nós que ali estavam. Pra ser mais precisa, doze deles. Nós, os únicos sóbrios de bebida, nos embriagávamos em cada promessa calada e olhar penetrante, como se fôssemos um e o resto do mundo pouco importasse. Até que raiou o dia e o céu se tornou rosa-laranja-amarelado. E você desviou seu olhar castanho dos meus, cor de céu chuvoso. Senti frio naquela manhã quente de domingo, mas aquele frio era meu companheiro há tanto tempo que eu não deveria me surpreender. Nosso orgulho falou mais alto e a vontade de ser alguém e ter alguém pra si morreu ainda prematura.

Éramos quinze naquele momento. Quinze almas que vagueiam trôpegas pelo mundo, sem dinheiro ou perdão.

Éramos quinze até restarem dois.

Eu e a solidão.

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