Virou clichê

ImageVirou clichê acordar lá pelas duas da manhã pensando em você. Talvez você também pense em mim antes de dormir e também imagine diálogos soltos que nunca serão ditos por nós dois. Talvez. Não sei. Virou clichê ficar pensando nisso. Virou clichê te colocar em cada verso do poema, em cada linha da prosa perdida, em cada personagem dos romances que eu leio por aí. Virou clichê ouvir inúmeras músicas numa estação qualquer e te encontrar no dedilhado do violão ou no grito que enche meus ouvidos na última parte da canção. Virou clichê pegar meus pensamentos vagando e oscilando entre seus olhos e sua respiração, quando eu tenho tanta coisa – mas tanta coisa – para fazer. Virou clichê escrever para você (levando em conta que também é clichê o fato de que você nunca chegará perto das folhas de papel acumuladas na última gaveta da minha escrivaninha).

Se você pudesse ouvir o silêncio gritante que paira bem acima do meu peito, entenderia. Entenderia a origem do Universo, as inúmeras falhas que cometemos inconscientemente e o porquê de eu sorrir toda vez que te pego me observando. Com esses benditos olhos castanhos que me fitam, até sem querer, de minuto em minuto.

Virou clichê ter medo de você. Ter medo que você não sinta, não chore ou não pense em mim quando a chuva tamborila no telhado. Existe algo mais clichê que isso? Porque eu quero suas mãos nas minhas enquanto caminhamos pela cidade. Enquanto você olha uma árvore e vê um ninho, imaginando o nosso próprio daqui a alguns anos. Quero acordar de manhãzinha, naquela hora em que o sol começa a se espreguiçar, só pra te ver suspirando leve, sereno, menino. Meu.

Mas o maior clichê de todos os clichês é essa incerteza que me corrói. Não saber se você vai ficar por aqui em alguma dessas suas chegadas bruscas que me tiram o fôlego. Não saber se posso me mostrar para você do jeito que sou – sem máscaras, medos ou inseguranças, apenas eu e meu coração. Não saber se é válido cronometrar os milésimos de segundo até o dia em que só existirá um “nós”. E mais nada.

[Amor, na verdade, acho que todo esse clichê é apenas saudade. Ou talvez solidão.]

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4 thoughts on “Virou clichê

  1. Esse clichê, afinal, é o que todos queremos, não é? Todos nós, por mais que não confessemos, esperamos que nossas vidas sejam como em uma comédia francesa: simples, bonita e aventureira.
    Aliás, lindo texto.

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