Estranhos

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“Ela é diferente das outras garotas”, ele pensou.

“Ele é diferente de todos os outros humanos – como é mesmo o nome? – ‘homens’”, ela disse para si mesma.

Ela ruiva, ele dono de cachos leves e castanhos. Ela branca, ele um tom a mais que o dela. Ele da Terra. Ela de muito longe.

Era estranho como os humanos se comportavam. Bebiam um líquido de gosto ruim em copos de um cristal frágil e passavam a ficar alegres além do habitual. Falavam bobagens, contavam vantagens e eram ambiciosos, ela notara assim que chegou aqui. Eram filhotes de coelhos assustados vivendo em um pequeno planeta, – se comparado à grandiosidade do Universo – porém, mesmo assim, achavam-se melhores que os outros habitantes do próprio mundo. Poluíam, matavam e roubavam dos próprios irmãos. Isso era loucura… Mas aquilo era algo corriqueiro. Para eles.

Apesar do caos organizado que os humanos eram, ela admitia que aquele garoto era especial. Tinha um coração puro, ela conseguia ler em seus olhos. Também tinha medo. Mas ela não conseguia decifrar sobre o quê.

E ela era assustadoramente linda, ele repetia mentalmente nos intervalos de tempo em que forçava-se a lembrar que respirar é preciso. Aquele par de olhos verdes nutria todo o brilho das luzes do ambiente. Eram vivos, acesos, convidativos. Ele nunca mais sairia dali, desde que ela também o fizesse.

Conversaram sem interrupções sobre o Aquecimento Global, a dívida externa do país, os inúmeros planetas ainda invisíveis aos humanos e sobre a música que tocava naquele momento. Sem contar a enxurrada de coisas sem nexo que ela dizia – e ele não ligava. Ela maravilhava-se com cada sílaba que saía da boca dele, como se nunca houvesse presenciado evento tão maravilhoso. Ele era despreocupado, leve, dono de uma calma digna dos deuses mais antigos. E ela sentia o próprio coração inquietando-se – uma inquietação boa, como o ruflar de asas de um beija-flor. Então aquilo era o Amor de que tanto falavam.

Aproximaram-se pouco a pouco, até não haver mais um centímetro de espaço entre os dois. O garoto sentiu as mãos involuntariamente subirem aos cabelos dela que caíam em uma cascata de cachos rubi-acobreados sobre os ombros. Eram macios e cheiravam à maresia. Era bom.

Encostaram-se num meio-abraço-desengonçado e ela primeiramente o beijou de leve nos lábios. Depois passou a murmurar palavras apressadas no ouvido dele. Eram histórias de uma civilização antiga. Várias guerras, muito sangue, mortes e um povo sofrido. Deuses abandonados, fogueiras acesas e um céu púrpura que despedaçava-se pela partida dos guerreiros mais bravos do reino. Mas apesar da tragédia premeditada, havia música envolvendo todas as cenas. Não como as que ele era acostumado a ouvir com os amigos nas tardes de sábado, muito menos alguma das bandas punk que ele tanto idolatrava. Era poesia. A mais bela poesia já escutada por meros ouvidos humanos.

Em algum ponto da conversa anterior a garota confessara que não era uma menina normal. Havia sido programada para guardar toda a história de uma civilização já extinta. Era o ser mais importante de um mundo outrora engolido pelo oceano. E, além disso, era uma poesia decodificada, o que para ele não passava de uma metáfora citada por uma garota de quinze anos. Mas, naquele instante, ele compreendia tudo.

A sensação que ficou de toda aquela loucura de palavras era melhor do que a de um beijo demorado. Ele não queria abrir os olhos e deixar que tudo o que vivenciara se esvaísse para sempre. Ela queria dizer-lhe cada letra do que era e vivera, mas já estava muito encrencada por ter revelado algo tão precioso. Foi então que tudo tornou-se um borrão de olhos verdes, cabelos e copos com bebidas ainda não terminadas. Vic puxava Enn para fora da festa enquanto ele tentava ver Triolé pela última vez.

– Eu adorei te conhecer! – Enn gritou em meio à multidão de garotas diferentes que se juntava na sala principal da casa, na esperança de que ela o ouvisse e o perdoasse pelo mau jeito.

– Espero te encontrar novamente algum dia… – ela sussurrou e sentiu o rosto aquecer-se e pequenos pingos d’água salgada molhar-lhe o rosto.

Seu coração, antes apaixonado, quebrou-se em questão de segundos. Aquilo era certo? Triolé buscou em algum canto da memória algo que explicasse tal fato, mas não obteve sucesso. Sentou em uma cadeira de madeira desconfortável e ingeriu o resto do conteúdo do copo de plástico que ele abandonara. Fitou o vazio da cozinha e voltou a chorar sem controle. Uma típica menina de quinze anos ela seria dali para frente.

– Esses humanos são indiscutivelmente estranhos. Mesmo.

Baseado no conto “Como Conversar com Garotas em Festas”, de Neil Gaiman. Quer entender um pouco mais sobre esse texto confuso e pouco fiel ao original? Clique aqui.

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