Pedaços de mim #1: A brisa de dezembro

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              Ocorreu-me que ontem não havia nada para fazer na minha monótona vida. Decidi aproveitar o dia para encarar o teto branco do meu quarto e pensar em absolutamente nada – olha o que a falta de livros para ler não faz, não é mesmo? A internet anda deveras irritante e porque não perder algumas horas formando pensamentos niilistas, sem compromisso algum? Em um desses momentos, em que eu pensava em tudo e nada, uma brisa boa entrou pela janela. Não uma brisa qualquer, de um dia sem importância: era uma brisa de dezembro. Sim, existe uma grande diferença entre a Brisa de Dezembro e a de qualquer outro mês do ano. As brisas de finais de ano são quentes, convidativas, prenunciam a alegria das festas natalinas e um ano novo que logo mais se iniciará. Lembram praia, sol, maresia, risadas de crianças e churrascos em família. Já as de março, abril ou junho não têm a menor graça. Servem apenas para despentear nossos cabelos e levar as folhas de papel soltas da escrivaninha para algum lugar inóspito do quarto.

              A minha Brisa de Dezembro lembrou-me tantos episódios felizes da minha infância que foi impossível não sorrir sozinha. Ela sempre me acompanhava no quintal da minha antiga casa enquanto eu fitava o céu, ansiosa pela queima de fogos do Réveillon – ou quando esperava papai estourar a garrafa de champanhe depois da meia-noite, apenas para ter a oportunidade de vasculhar a varanda inteira em busca da rolha saltitante que insistia em fugir de mim.

              Talvez a brisa que veio ontem me visitar pela manhã tenha sido apenas um anúncio de que a Primavera bate à porta com seu longo vestido florido, oferecendo esperanças aos sonhadores. Mas, no fim das contas, a Brisa de Dezembro durou menos do que eu gostaria e, em questão de segundos, voltou a ser setembro.

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Dialogando

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– Tá vendo aquela estrela lá em cima, Marcelo? Ela é sua. Dei seu nome pra ela. Não, não ri assim. É verdade. Eu te amo. Tá, não tanto quanto você gostaria, mas amo. Mesmo. Voltando à estrela: ela é sua. Você pode fazer o que quiser com ela. Um pedido, dois pedidos, três pedidos… Não, Marcelo, ela não é uma lâmpada mágica. É uma estrela. E-s-t-r-e-l-a. Uma estrela brilhante, como você. Ok, admito que sou ingênua. Mas o que seria da nossa vida sem um pouco de distração e infantilidade às vezes, hein? Marcelo, olha pra mim, não vai embora… Daqui a pouco o dia amanhece e eu quero continuar aqui. Com você. E com a estrela. Marcelo, a Estrela Brilhante. Não é bonito? Não? Como não? Tá. Parei. Mas, por favor, não me deixa. Eu sei que eu errei, mas fica. Por mim. Por nós. Pela estrela… Vou te contar um segredo: ela tá olhando pra gente também. Estrelas têm vida própria, só não podem sair perambulando pelo espaço toda noite. Seria estranho ver um montão de pontos brilhantes dançando pelo céu, não acha? Mas, pra ser sincera, seria lindo. Como naquela festa em que a gente dançou até os pés doerem. Como assim eu não danço bem? Você é que não dança bem. Nunca dançou. Mas eu gosto de você mesmo assim. Com dois pés esquerdos e esse olhar de menino. É. Eu te amo. Estranho falar isso várias vezes em voz alta. Sabe quando a gente repete muito uma palavra e ela acaba perdendo o sentido? Então. Eu-te-amo-eu-te-amo-eu-te-amo-eu-te-amo-eu-te-amo-eu-te-amo… Cansei. Tá vendo? Amar você não faz mais sentido. Acho que vou embora. Não quer que eu vá? Que milagre! Posso deitar aqui com você? A grama é desconfortável. Demais, até… Posso ouvir seu coração batendo? É lindo. Como você, a estrela e o céu. Eu sei que é chato eu ficar repetindo isso, mas é que eu tô feliz. E a estrela continua sendo sua. Como o meu amor. Pelo tempo que restar.

[E os dois caíram no sono ali mesmo. Marina, Marcelo e a estrela que se apagava com a chegada dos primeiros raios de sol.]

Uni{verso}

runaway ♡ | via Tumblr

Uni tuas mãos nas minhas

Vê como o sol vai embora

Quanta paciência tinhas

Ao observar o céu da Aurora.

Uni teu riso doce

Às ondas do mar corriqueiras,

Uni teu suspiro breve

Ao aroma das macieiras.

E de unir em unir, formamos um.

De deixar em deixar,

Partimos sempre.

Uni cada verso meu em uma prosa branda

Deixe a seriedade

A métrica

E a rima

Para depois

Uni cada verso meu em ti.

Universo.

Estranhos

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“Ela é diferente das outras garotas”, ele pensou.

“Ele é diferente de todos os outros humanos – como é mesmo o nome? – ‘homens’”, ela disse para si mesma.

Ela ruiva, ele dono de cachos leves e castanhos. Ela branca, ele um tom a mais que o dela. Ele da Terra. Ela de muito longe.

Era estranho como os humanos se comportavam. Bebiam um líquido de gosto ruim em copos de um cristal frágil e passavam a ficar alegres além do habitual. Falavam bobagens, contavam vantagens e eram ambiciosos, ela notara assim que chegou aqui. Eram filhotes de coelhos assustados vivendo em um pequeno planeta, – se comparado à grandiosidade do Universo – porém, mesmo assim, achavam-se melhores que os outros habitantes do próprio mundo. Poluíam, matavam e roubavam dos próprios irmãos. Isso era loucura… Mas aquilo era algo corriqueiro. Para eles.

Apesar do caos organizado que os humanos eram, ela admitia que aquele garoto era especial. Tinha um coração puro, ela conseguia ler em seus olhos. Também tinha medo. Mas ela não conseguia decifrar sobre o quê.

E ela era assustadoramente linda, ele repetia mentalmente nos intervalos de tempo em que forçava-se a lembrar que respirar é preciso. Aquele par de olhos verdes nutria todo o brilho das luzes do ambiente. Eram vivos, acesos, convidativos. Ele nunca mais sairia dali, desde que ela também o fizesse.

Conversaram sem interrupções sobre o Aquecimento Global, a dívida externa do país, os inúmeros planetas ainda invisíveis aos humanos e sobre a música que tocava naquele momento. Sem contar a enxurrada de coisas sem nexo que ela dizia – e ele não ligava. Ela maravilhava-se com cada sílaba que saía da boca dele, como se nunca houvesse presenciado evento tão maravilhoso. Ele era despreocupado, leve, dono de uma calma digna dos deuses mais antigos. E ela sentia o próprio coração inquietando-se – uma inquietação boa, como o ruflar de asas de um beija-flor. Então aquilo era o Amor de que tanto falavam.

Aproximaram-se pouco a pouco, até não haver mais um centímetro de espaço entre os dois. O garoto sentiu as mãos involuntariamente subirem aos cabelos dela que caíam em uma cascata de cachos rubi-acobreados sobre os ombros. Eram macios e cheiravam à maresia. Era bom.

Encostaram-se num meio-abraço-desengonçado e ela primeiramente o beijou de leve nos lábios. Depois passou a murmurar palavras apressadas no ouvido dele. Eram histórias de uma civilização antiga. Várias guerras, muito sangue, mortes e um povo sofrido. Deuses abandonados, fogueiras acesas e um céu púrpura que despedaçava-se pela partida dos guerreiros mais bravos do reino. Mas apesar da tragédia premeditada, havia música envolvendo todas as cenas. Não como as que ele era acostumado a ouvir com os amigos nas tardes de sábado, muito menos alguma das bandas punk que ele tanto idolatrava. Era poesia. A mais bela poesia já escutada por meros ouvidos humanos.

Em algum ponto da conversa anterior a garota confessara que não era uma menina normal. Havia sido programada para guardar toda a história de uma civilização já extinta. Era o ser mais importante de um mundo outrora engolido pelo oceano. E, além disso, era uma poesia decodificada, o que para ele não passava de uma metáfora citada por uma garota de quinze anos. Mas, naquele instante, ele compreendia tudo.

A sensação que ficou de toda aquela loucura de palavras era melhor do que a de um beijo demorado. Ele não queria abrir os olhos e deixar que tudo o que vivenciara se esvaísse para sempre. Ela queria dizer-lhe cada letra do que era e vivera, mas já estava muito encrencada por ter revelado algo tão precioso. Foi então que tudo tornou-se um borrão de olhos verdes, cabelos e copos com bebidas ainda não terminadas. Vic puxava Enn para fora da festa enquanto ele tentava ver Triolé pela última vez.

– Eu adorei te conhecer! – Enn gritou em meio à multidão de garotas diferentes que se juntava na sala principal da casa, na esperança de que ela o ouvisse e o perdoasse pelo mau jeito.

– Espero te encontrar novamente algum dia… – ela sussurrou e sentiu o rosto aquecer-se e pequenos pingos d’água salgada molhar-lhe o rosto.

Seu coração, antes apaixonado, quebrou-se em questão de segundos. Aquilo era certo? Triolé buscou em algum canto da memória algo que explicasse tal fato, mas não obteve sucesso. Sentou em uma cadeira de madeira desconfortável e ingeriu o resto do conteúdo do copo de plástico que ele abandonara. Fitou o vazio da cozinha e voltou a chorar sem controle. Uma típica menina de quinze anos ela seria dali para frente.

– Esses humanos são indiscutivelmente estranhos. Mesmo.

Baseado no conto “Como Conversar com Garotas em Festas”, de Neil Gaiman. Quer entender um pouco mais sobre esse texto confuso e pouco fiel ao original? Clique aqui.