Aporia

  1. Aporia: [Do gr. aporia, “caminho inexpugnável, sem saída”, “dificuldade”.]
  2.  (Na Psicologia, o termo aporia refere-se ao sentimento de grande vazio que as pessoas sentem ao saberem que o que elas acreditam não é realmente verdade. Para saber mais, clique aqui.

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Pedro havia dormido mal naquela noite. Os sonhos haviam sido manchados por fleches dos últimos meses, embaralhando-se aos lençóis e ao frio que fazia lá fora. Pedro não queria acordar. Queria pairar pela realidade de estar sozinho em seu quarto, às quatro e meia da manhã, vestido com o pijama azul marinho há muito puído, acreditando que Marina algum dia voltaria. Mas aquilo não passava de uma ilusão ainda sonolenta.

A madrugada arrastara-se como um bêbado e a cada andar dos ponteiros do relógio, Pedro sentia-se nauseado em pensar que a ex-namorada não demoraria a chegar e pegar de volta tudo o que a pertencia. Pedro e Marina haviam terminado o relacionamento um dia antes. Pedro, depois de muito desconfiar, conseguiu arrancar da tão sonhada “princesa dos contos de fada” que ela o traíra por mais de cinco meses. Foi o que bastou para o enorme castelo de areia enfeitado com conchas do mar que ele havia construído por três anos desmoronar em uma questão de segundos.

– Engraçado como nos ludibriamos com nossos próprios pensamentos. – ele disse para ninguém em especial, ainda de olhos fechados. – A gente inventa mil planos, mil situações felizes e, de uma hora para outra, a vida decide jogar uma generosa pá de terra sobre tudo isso. E sobre a nossa dignidade, para piorar.

Ele enchia-se de um sentimento nunca antes experimentado. Queria sair de si, voar para longe e nunca mais voltar. Queria nunca mais precisar ler a própria infelicidade no rosto de alguém, muito menos no de Marina, mas foi abrir os olhos pela primeira vez naquele dia que ele deu de cara com enormes cachos loiros que pendiam na altura dos ombros e o sorriso de menina que ele tanto amara. Um porta-retrato dormia tranquilo sobre o criado mudo, junto a um livro de poemas de Neruda que ele tanto gostava. E que não condizia com aquela cena.

– Veja bem, Marina, o que você fez comigo. – Pedro apontava o indicador para a moça emoldurada na fotografia. – Você não tem piedade de ninguém. Se não me amava, por que continuou me iludindo? Por que apenas não virou as costas e foi embora? Eu mereço isso? Ser chutado para lá e para cá como um cão abandonado, prestes a ser colocado para adoção? Marina, eu juro: fiz o que podia para te manter comigo. Agora só resta esse enorme vazio aqui dentro. E você nunca irá ouvir essa conversa de loucos, porque você nunca voltará para mim. E eu não te quero mais. Nunca mais.

Estilhaços de vidro se perdiam pelo assoalho de madeira recém-colocado e Pedro contorcia-se numa dor muda capaz de cegar-lhe e deixar-lhe apático pelo resto de seus dias. A sensação de ter sido enganado por tanto tempo açoitava-lhe o peito e, pela primeira vez desde que deitara a cabeça no travesseiro frio, permitiu-se chorar. Chorou até os olhos arderem e os inúmeros soluços cessarem.

– Toda nossa vida é uma farsa. Tudo em que acreditamos são apenas mentiras. Todas as músicas e filmes românticos, todas as propagandas e poemas, todos os livros e momentos felizes não passam de ilusão. Tudo o que eu vivi com você, Marina, foi em vão. E eu tenho medo de recomeçar.

Aos poucos ele se recompôs. Apesar da sessão de desabafo, Pedro sentia-se um pouco melhor. Sabia que lá no fundo aquilo era um ensinamento. Que coisas ruins e boas acontecem por algum motivo. E que talvez o Universo houvesse contribuído para que aquilo não se prolongasse. Todas as risadas e telefonemas de boa noite estavam indo ao encontro de um buraco negro no meio da galáxia, juntamente com todas as tardes jogadas ao vento nas quais planejaram o casamento tão esperado – por ele.

Pensou em levantar e tomar um banho frio, seguido de uma caneca de café forte. Conversariam como os adultos que eram e tentariam resolver com quem Summer, a filhote de chihuahua, ficaria. Talvez, no fim de tudo, um sorriso surgisse no canto dos lábios de Marina e ela pedisse perdão. Ele a abraçaria e ambos chorariam até a vida voltar a ser preenchida por um amor puro que outrora, bem remotamente, existiu. Mas Pedro preferiu virar-se para o outro lado da cama e dormir novamente. Afinal, ela sabia muito bem onde a chave reserva da casa estava escondida.

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