Sobre janelas e portões

Ismália | via TumblrEla estava deitada ouvindo um disco antigo, cujas músicas falavam de amor, quando ouviu um assobio longo no portão. Som tão confortável e apaziguador que a fazia esquecer o mundo e a letra da canção que acabara de tocar.

Sabia exatamente quem a chamara. Viu pela varanda os cabelos negros e curtos, lampejos de noite sem estrelas que faziam seu coração palpitar tão rápido quanto o de um beija-flor. As mãos dele agarraram as barras de ferro do portão com tamanha força que os nós dos dedos embranqueceram-se. Dois pares de olhos encontraram-se e flutuaram para o infinito lado a lado.

As pernas dela queriam correr o mais rápido possível ao encontro dele, mas ela limitou-se  a por um pé à frente do outro por medo de cair no chão. Porque, no fim das contas, ela era torta, desajustada e apaixonada, sinônimos de tombos certeiros.

Quando os pés e mãos finalmente chegaram ao quintal, a certeza de que ela o amava e que o sentimento era recíproco inflamou-se. Deixaram que o muro falasse por eles, como Capitu e Bentinho. Nada de “olá” ou “eu te amo”, apenas o silêncio tinha o poder de dizer aquilo que há muito sentiam.

De ombros dados, subiram as escadas. No quarto dela tocava Cash, Beatles, Elvis e dois corações apaixonados em sincronia. Ela fez questão de interromper a voz de seus ídolos e deixar que o silêncio permanecesse por mais algum tempo. Foram chegando cada vez mais perto, meio passo a cada instante e de súbito os dedos de uma mão delicada traçaram o contorno de um rosto firme, angelical e marcado pelo sol forte.

– Tem certeza de que… – ele manifestou-se sussurrando.

– Da mesma maneira como dois mais dois são cinco. – ela riu baixinho.

Ele, cuidadosamente, segurou-a pela cintura e a beijou de leve no alto da cabeça. Os cabelos ruivos cheiravam a lavanda e lembravam-no algum momento feliz da infância.

Sem pressa, deitaram-se lado a lado na cama forrada por uma colcha de renda branca. Olharam o teto no mesmo instante, observando as inúmeras falhas e rachaduras, lembrando as feridas que ambos adquiriram ao longo da vida e que cicatrizariam em uma questão de tempo. Pensaram em alguma maneira de congelar aquele momento pelo tempo que restasse. A mão dela encontrou a dele, quente e convidativa.

E por lá ficaram até adormecerem gradativamente, ouvindo o tamborilar da chuva no telhado e a respiração serena de cada um.

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