Starbucks

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Os minutos que antecedem o pedido do meu frappuccino na Starbucks são os mais fantásticos. Apesar de ser monótono, ainda consigo me maravilhar ao prever o gosto doce de baunilha, leite e chocolate.

A mesma atendente de sempre, cujo nome nunca saberei (por excesso de memória fraca), me recebe com o mesmo sorriso e saudação. E, mesmo depois de aproximadamente cinquenta pedidos feitos por mim, ela insiste em perguntar meu nome (talvez também sofra da “Síndrome da Memória Curta”):

– Sophia. – digo com um pouco de receio, pois esse não é meu nome verdadeiro (tenho medo de encontrar algum conhecido que me desmascare na frente de todos).

Ter um pseudônimo na Starbucks é tão sagrado quanto o futebol de domingo na televisão. Me sinto uma super-heroína, quase um Clark Kent, utilizando uma identidade secreta e vencendo o trânsito caótico de São Paulo e a chuva, em busca de um copo gelado de frappuccino. A escolha do meu alter ego foi de certo modo bem fácil. Sempre quis ser Sophia.

– Qual é o seu pedido? – ela me pergunta com um sorriso maquinalmente ensaiado. Deve estar cansada de vender cafés e brownies todo santo dia.

– Um frappuccino-choco-chip-base-creme-pequeno, por favor. – digo em um só fôlego.

Alguns minutos se passam e, finalmente, meu pedido fica pronto. Minhas mãos vão ao encontro do copo de plástico mais hipster – e gelado – da face da Terra (minha amostra do paraíso). Meus dedos congelam como nos dias frios em que esqueço as luvas em casa, mas é por uma ótima causa.

Sento na mesma cadeira estofada marrom de sempre, observando o mesmo casal imerso em seus respectivos Iphones e a criança cutucando sem interesse um sanduíche natural de peito de peru e ricota.

Absorvo minha bebida sem pressa, saboreando cada minúsculo pedacinho gelado de chocolate que mais parecem milhares de estrelas (isso se estrelas forem geladas).

Esse é um lugar mágico, no qual todos podem ser quem bem entenderem. Marcelo, Ana, Carolina ou Pedro.

Aqui, por quinze minutos ou mais, sou Sophia: a Super-Heroína do Frappuccino Choco Chip.

Note to self

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Pegue um bloquinho de papel e abra-o na primeira página. É aí que sua vida começará a ser escrita.

Com o lápis que você costumava desenhar pássaros no céu quando criança, escreva o que você planeja ser daqui a dez anos. Professora, arquiteta, estátua viva ou contadora de estórias.

No verso da página, anote seus medos mais banais. Inclusive o de dormir no escuro (já está muito grandinha para temer o bicho papão, não acha?). Escreva sobre suas viagens de carro, sobre a música que tocou naquela tarde de verão no rádio da cozinha enquanto você e sua mãe preparavam biscoitos de polvilho.

Escreva sobre os amores e desamores que passaram e ainda virão. Coloque no papel o que você sente quando vê aquele par de olhos castanhos brilhantes sorridentes. Provavelmente falta de ar e tontura no coração. As lágrimas e quedas também deverão ser devidamente escritas. Ninguém aprende fórmulas de Física sem antes errar algumas contas (ou a andar de bicicleta sem cair).

Anote os nomes dos amigos de infância e tios favoritos. Não esqueça a cadelinha que foi correr nas ruas de ouro do céu quando você tinha dez anos. Ela foi e sempre será sua primeira melhor amiga.

Dezoito páginas já foram preenchidas, ainda faltam cem. As mais importantes.

Seus sonhos e desejos devem ser marcados com caneta preta, a fim de que nunca mais saiam do papel. Mantenha em mente que você é a única que pode persegui-los e realizá-los. Afinal, você leu em um de seus livros favoritos que o mundo não é uma fábrica de realização de desejos e, mesmo que você falhe na missão, persista.

O bloco de papel completo é sua vida, menina. Em alguns lugares borrado e rasgado, e em outros desenhado e escrito com letra de forma bem redondinha. As últimas páginas ainda não devem ser preenchidas, porque não podemos ter controle do nosso futuro. Podemos apenas idealizá-lo positivamente (e correr atrás dos bons frutos da árvore da vida).

E por fim, em um cantinho minúsculo da última folha, escreva singelamente:

 NOTE TO SELF: SER FELIZ.

Sobre janelas e portões

Ismália | via TumblrEla estava deitada ouvindo um disco antigo, cujas músicas falavam de amor, quando ouviu um assobio longo no portão. Som tão confortável e apaziguador que a fazia esquecer o mundo e a letra da canção que acabara de tocar.

Sabia exatamente quem a chamara. Viu pela varanda os cabelos negros e curtos, lampejos de noite sem estrelas que faziam seu coração palpitar tão rápido quanto o de um beija-flor. As mãos dele agarraram as barras de ferro do portão com tamanha força que os nós dos dedos embranqueceram-se. Dois pares de olhos encontraram-se e flutuaram para o infinito lado a lado.

As pernas dela queriam correr o mais rápido possível ao encontro dele, mas ela limitou-se  a por um pé à frente do outro por medo de cair no chão. Porque, no fim das contas, ela era torta, desajustada e apaixonada, sinônimos de tombos certeiros.

Quando os pés e mãos finalmente chegaram ao quintal, a certeza de que ela o amava e que o sentimento era recíproco inflamou-se. Deixaram que o muro falasse por eles, como Capitu e Bentinho. Nada de “olá” ou “eu te amo”, apenas o silêncio tinha o poder de dizer aquilo que há muito sentiam.

De ombros dados, subiram as escadas. No quarto dela tocava Cash, Beatles, Elvis e dois corações apaixonados em sincronia. Ela fez questão de interromper a voz de seus ídolos e deixar que o silêncio permanecesse por mais algum tempo. Foram chegando cada vez mais perto, meio passo a cada instante e de súbito os dedos de uma mão delicada traçaram o contorno de um rosto firme, angelical e marcado pelo sol forte.

– Tem certeza de que… – ele manifestou-se sussurrando.

– Da mesma maneira como dois mais dois são cinco. – ela riu baixinho.

Ele, cuidadosamente, segurou-a pela cintura e a beijou de leve no alto da cabeça. Os cabelos ruivos cheiravam a lavanda e lembravam-no algum momento feliz da infância.

Sem pressa, deitaram-se lado a lado na cama forrada por uma colcha de renda branca. Olharam o teto no mesmo instante, observando as inúmeras falhas e rachaduras, lembrando as feridas que ambos adquiriram ao longo da vida e que cicatrizariam em uma questão de tempo. Pensaram em alguma maneira de congelar aquele momento pelo tempo que restasse. A mão dela encontrou a dele, quente e convidativa.

E por lá ficaram até adormecerem gradativamente, ouvindo o tamborilar da chuva no telhado e a respiração serena de cada um.

O dia em que os discos voadores foram embora (uma conversa com “O dia em que os discos voadores chegaram”, de Neil Gaiman)

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Naquele dia em que os grandes discos voadores dourados foram embora

Foi o mesmo dia em que os deuses nórdicos dançaram a Hula no Hawaii ao lado de Elvis e seu ukulele

E os noticiários disseram que o grande inverno estava chegando

E congelaria sem dó nem piedade os pandas do sul da China.

Aquele dia dos deuses-dançarinos-e-pandas-congelados

Foi o dia em que milhares de navios saíram das nuvens e os

Piratas roubaram todos os quadros do Louvre,

Mas você não notou porque

As cafeterias começaram a vender chá verde sem açúcar e faliram

Porque a maioria das pessoas queria limonada suíça

Ao invés de chá,

Pois o sol estava a 100 quilômetros da Terra

E todos tiveram queimaduras de terceiro grau,

Mas você nem percebeu isso

Porque os zumbis decidiram voltar aos túmulos

E a população da Rússia se desgrudou da Internet por 24 horas

E a Cinderela foi ao baile dançar sozinha

Com botas de couro que iam até os joelhos.

No dia em que os extraterrestres deram uma conferência de imprensa na Casa Branca

E disseram que apenas queriam fazer amizade com povos diferentes e usar o Wi-Fi do Starbucks para

Atualizarem suas redes sociais

O Cthulhu acordou e deu uma entrevista à BBC de Londres

Alegando estar faminto por donuts após milênios tirando um pequeno cochilo em R’lyeh,

Mas nesse mesmo dia

Em que os humanos-fadas-fachineiros-ventos-do-oeste-vampiros-e-auroras-boreais pararam por dez minutos

Para acenarem aos discos voadores dourados que iam embora,

Você estava no quintal da sua casa

Deitado na grama e olhando as nuvens

Pensando em me ligar e pedir desculpas.

E eu aqui, preocupada com o sabor da pizza do jantar, não dando a mínima para você.

 ***

O texto original do Neil você encontra aqui.

Sdds futuro

ImagemExiste um bichinho que fica martelando meu coração e mente toda vez que escuto The Killers. É só ouvir o Brandon Flowers cantando sobre manhãs de verão, Las Vegas, cabelos longos voando ao vento e passeios de carro à luz do sol que me bate uma saudade tremenda do futuro e de tudo o que eu poderei viver… Saudade do futuro? Isso mesmo o que você acabou de ler. Eu tenho tanta vontade de saber o que acontecerá lá na frente que é só dar play em “Runaway” e meu mundo se enche de uma certeza infinita de que o amanhã será mais lindo.

Sempre fui muito organizada e preocupada com as tarefas que eu devo cumprir em determinado momento. Penso sempre que o próximo passo a ser dado é decisivo nas futuras conquistas. Afinal, nossos destinos são inconstantes e qualquer deslize pode nos levar a uma série de reações em cadeia (que podem ser do nosso proveito ou não, isso fica à mercê do tempo).

Em certos momentos eu queria ser o Adam Sandler naquele filme “O Click”. Ter o controle (literalmente) da minha vida e poder pausar os momentos felizes, acelerar os problemas até conseguir encontrar uma solução, dar replay nas memórias significativas e enxergar o que eu serei daqui a dez, vinte ou trinta anos, com a vantagem de poder remediar os atos falhos do presente (e de quebra ter uma playlist sensacional para cada ocasião).

A sensação de querer coisas boas para o futuro é tão revigorante que eu vivo fazendo listas, como aquelas promessas de fim de ano que sempre fazemos, só que para valer. Nelas eu planejo zilhões de situações nas quais poderei realizar boa parte dos meus sonhos (e, na pior das hipóteses, pelo menos tentar concretizá-los).

Só que a vontade de atropelar tudo o que eu ainda tenho para viver e enxergar meu futuro não consegue sobrepor a de viver o “aqui e agora”. Porque são os momentos atuais (a chuva, o frio e o carro buzinando estridentemente ao passar na rua nessa manhã de julho) que prevalecerão, de uma maneira ou de outra, para sempre.

E, se algum dia eu conseguir encontrar algum oráculo, máquina do tempo, cartomante ou o próprio Donnie Darko para me proporcionarem um panorama geral da minha situação financeira daqui a quarenta anos, quantos filhos terei ou o modelo da minha futura casa, saibam que a culpa é do Brandon. Inteiramente do Brandon.

Sophie

Sophie era miúda
Dessas crianças frágeis, porcelanáticas
Tinha rinite, sinusite, bronquite
E tendências asmáticas.

Sophie queria ser gente grande
Livrar-se do inalador e das brincadeiras de criança
Mal sabia Sophie que quem é adulto
Deve bailar conforme a dança.

A brancura de seus ossos e o dourado dos cabelos
Refletiam o sol e as nuvens do céu como espelhos.

O cachorro, fofinho, a fazia companhia
De noite e de dia.
Mas Sophie não queria compaixão
Queria curar-se logo
Dos problemas de coração

Sophie deitou na chuva
Esperando a misericórdia de Deus amado
Mas acabou pegando
Uma baita resfriado.

Sophie, tenha paciência: Deus irá te curar
Mas antes você tem que fazer sua parte
E de pés descalços parar de andar.