Alguém

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Enquanto a última folha seca do outono caía vagarosa no jardim, ela olhava pensativa a grama recém-regada. A brisa fria passava pelos seus cabelos e levava o perfume de lavanda para paraísos perdidos que ela mesma não conhecia. Dentro de casa, a chaleira apitou. Encontraria um pedaço quente naquele mundo frio, dentro de uma xícara de chá de erva doce. Mas não naquele momento. Preferiu ficar estática e muda, enquanto esperava a chuva cair e levar consigo toda a angústia que sentia. Mas não caiu.

Marina era uma mulher de meia idade e não muito bem resolvida. Trabalho e faculdade andavam muito bem, mas ela nunca poderia dizer o mesmo de seu coração. Marina queria se casar, ter filhos e um labrador chamado Trovão, mas esses eram sonhos muito distantes, porque Marina tinha medo de se expressar. Na escola, ela era aquela menina miúda que sentava na primeira fileira, tranças negras e grossas caindo-lhe por sobre os ombros, óculos de grau e um olhar que ia além das constelações. O único namoro relâmpago que teve foi na quarta série, num jogo de “verdade ou desafio”. Aquele beijo estalado que durou menos de cinco segundos em Marcelo ainda perdurava em seus lábios, como uma marca de nascença que nos acompanha até o final da vida.

Depois de Marcelo, o mundo cor-de-rosa de Marina se fechou. Tinha vergonha de olhar para os garotos, pois se achava pequena e sem sal. As outras meninas, maquiadas e bem vestidas, conseguiam um paquera ou outro no baile da cidade, enquanto Marina usava seu tempo para ouvir os Beatles cantando na vitrola da sala.

“Você precisa falar mais, viver mais”, dizia a voz que ecoava em sua mente. Se ela não conseguia apresentar um seminário sem tremer ou gaguejar, quem dirá conversar com um homem? Era por essas e outras que o silêncio de Marina a perturbava a cada instante, transformando sua vida num oceano de monotonia e cabelos brancos que estavam por vir.

Uma lágrima escorreu pelo canto direito de seu rosto e ela deixou que caísse em sua blusa cor de violeta. Os próprios soluços agudos eram o único barulho que ela conseguia ouvir em meio à calmaria. Marina olhou para o céu negro e majestoso que se estendia sobre ela e focou o olhar na estrela mais brilhante que avistou.

– Eu só queria ter o amor de alguém… – dizendo isso, Marina levantou-se enxugando o resto das lágrimas na manga da blusa e entrou. Ao tomar um copo de chá, ainda um pouco quente, acalmou a alma e o coração. Decidiu mudar seu jeito de ser e não deixar que o silêncio fizesse eco nos quatro cantos de sua vida.

Sossegue esse coração, Marina. Um dia aparece alguém, meu bem.

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