Rabiscos

Ela era toda rabiscos. Marcada por noites sem dormir e choros que ficavam presos na garganta. Sufoco. Seus braços eram marcados por frases de Poe, Pessoa, Saramago, Espanca e por algumas que ela mesma criava quando o tédio tentava invadi-la. Não havia mais espaço para sentir saudade ou remorso, porque ela não permitia. As linhas precisas e bem marcadas com caneta preta ocupavam a maior parte de sua pele e de seu coração. Uma dor de cabeça imensa ameaçava aparecer toda vez que ela tentava apagar de si aquilo que sofreu, que ouviu ou que amou. Deveria conviver com elas pelo tempo que restasse. Ou até mesmo além disso. As palavras eram suas companheiras desde quando ela se entendia por gente. Uma espécie de gente diferente. Que não sai, que não sua, que não retira do próprio corpo aquilo que faz mal. Que prefere não ouvir músicas prontas e sim, a do vento. Que tem respostas para tudo e não se emudece diante de qualquer precipício.

Ela era rabiscada porque gostava. Os rabiscos se emaranhavam e formavam o que ela conseguiu ser até então: tudo e nada. O emaranhado de palavras jorrava nas diagonais e nas laterais de seu corpo, intrinsecamente. Ameaçavam saltar da pele branca e fina, mas permaneciam lá, gritantes, porém mudas.

Ela só se tornou uma confusão de palavras, moço, porque você nunca quis parar para lê-la.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s