O que a gente perde quando os olhos piscam

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– Quer um copo d’água? – ela fez menção ao pequeno copo de vidro em sua mão esquerda, enquanto sentava no chão da sacada do apartamento.

– Não comi nada que me desse sede. – ele respondeu secamente, ainda olhando os carros que passavam lá em baixo, pequenos e apressados.

– Por que você é sempre assim, hein?

– Defina “assim”.

– Cheio de respostas prontas. Autossuficiente, dono de si. É quase impossível encontrar uma brecha e enxergar quem você realmente é…

– Isso te incomoda?

– Mas é claro que incomoda! E muito. Porque eu te amo, mas acho que não te conheço direito. É como acordar ao lado de um estranho todos os dias, mesmo eu sabendo todas as suas bandas e filmes favoritos.

– Como nunca me conheceu? A gente vive aqui há dois anos e você diz que não me conhece? Muito prazer, me chamo Roberto. – ele estendeu a mão no escuro da noite e esperou que ela a apertasse, tentando quebrar o enorme iceberg que se formava entre os dois. Viu quando os olhos verdes dela encontraram os dele, incrédula.

– Tá vendo? Você sempre procura uma maneira de se esquivar do assunto. É como olhar o mundo de longe. Eu nunca sei o que encontrar dentro de você, não sei qual será seu próximo passo. Você sempre arruma confusão por coisas à toa, sempre tenta ser arrogante com quem você não conhece e eu me pergunto “o que você ganha com isso?”, porque eu sei que lá no fundo você é de certa maneira vulnerável, mas não deixa isso transparecer. Não sente falta de ser você mesmo? – as palavras fluíam por ela como o leito calmo de um rio. Ela não permitiria que ele a tirasse do sério com seus jogos prontos e falsas promessas. Não mais.

– Sentir falta? Mas eu nunca perdi quem eu realmente sou.

– Mas eu sim.

– Você o quê?

– Te perdi.

– Quando? No último passeio que fizemos ou na festa em que a gente se conheceu. – ele riu um pouco desconfortável.

– Não. Te perdi no último instante em que pisquei os olhos.

Ela se levantou e entrou novamente no apartamento, bebendo em um gole só o copo d’água em temperatura ambiente, no mesmo instante em que ele colocou a cabeça entre os joelhos, fechando os olhos e tentando encontrar o Roberto de antigamente, perdido em algum lugar do espaço ou daquele apertado coração.

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