Talvez, mês que vem

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 Quando digo que meu coração tá uma bagunça, não é exagero, entende? São nervos, veias, artérias e pulsações que não se encaixam e se limitam a quererem você por perto. Ah, se você pudesse ver o emaranhado de sentimentos, angústias e desencantos que palpitam aqui dentro, garoto… Porque são duas e meia da manhã e a noite tá linda e eu só queria você aqui comigo, junto, até mesmo calado. Dividir uma xícara quente de café, meu cobertor azul rasgado nas bordas e o sofá de couro vermelho da sala. Ligar a tevê, ver um filme qualquer só pra te ouvir suspirar dizendo que Coppola não faz teu gênero.

Mas eu me limito a olhar o letreiro de neon que pisca do outro lado da cidade, lembrando do vermelho da tua camisa de algodão – aquela em que eu derramei vinho sem querer. A mancha deve ter sido difícil de tirar, né? Pelo menos você tinha alguma lembrança minha perto do teu corpo. Vermelho. A cor que eu fiquei quando caí estatelada no chão branco feito leite, na sua frente. Você me estendeu a mão pela primeira vez e eu vi que seus olhos combinavam com o mesmo tom dos meus cabelos. Castanhos. Como a tempestade naquela música do Renato. Seus dedos se entrelaçaram aos meus e eu senti uma necessidade imensa de ser abraçada e sumir. Sumir dali com você pelo tempo que restasse, até a ferida no meu joelho cicatrizar e você sorrir dizendo pra mim que tudo ia ficar bem. Até mesmo o fato de que meu trabalho da faculdade ainda não tava pronto, porque eu não sei escrever uma conclusão. Fiquei em pé, com a cara mais infantil do mundo, dessas que a gente faz quando cai de bicicleta quando criança, sem saber se chora ou se ri. Você largou a minha mão da tua e eu senti frio e um vazio aqui dentro, tão estranho que chega a ser familiar. Vi tua silhueta levando o sol embora, enquanto eu ficava parada encarando o nada, o ar, o vácuo e criava mentalmente um poema niilista sem sentido no qual nós dois éramos protagonistas.

Você chegou chovendo na minha vida, inundou tudo, me deixou sem teto e foi embora de vez. Nunca foi meu de fato, ainda passa e sorri de lado pra mim, mas não pra mim, sabe? Deve ser apenas uma questão de educação.

Fico rabiscando guardanapos, blocos de nota, correio elegante e folhas de jornal, escrevendo textos – como esse – que, muito provavelmente, não serão lidos por você. Só queria que essa minha máscara de “menina de vinte feliz e realizada” caísse e você percebesse que tá faltando tudo. Tá faltando paz, tá faltando paciência, tá faltando amor no mundo, tá faltando você. A vida passa tão depressa e só o que a gente têm são o presente e as lembranças que voaram com os ponteiros do relógio. Só o que me restou daquele último dia foram o modelo dos seus óculos de armação preta, sua camiseta azul sem estampas e a breve conversa de cinco minutos. Última e única.

Lá fora um carro acabou de passar tocando a nossa música. Na verdade, a música que eu escolhi pra nós dois. To die by your side is such a heavenly way to die.

Vou parando por aqui porque meus olhos pesam e o cheiro do café que vem do apartamento ao lado não está ajudando em nada. Café é escuro, assim como os seus benditos olhos que voltam e voltam e voltam e voltam toda vez que eu tento dormir.

Talvez o mundo volte ao eixo certo quando você se der conta de que eu existo. Ou talvez eu deva te deixar escorrer por entre os meus dedos e cair devagarinho no abismo que é esse amor que eu sinto. Mas não agora.

Talvez, mês que vem.

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