Sozinha, entre paredes

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Foi então que eu encarei o vazio que era a minha vida.

Olhei para o espelho e vi a cama desforrada, o jarro d’água pela metade sobre o criado mudo e um livro da Jane Austen aberto na página 72. A cortina balançava com a brisa que atravessava a janela. Lá fora, uma ambulância passava ao longe e, aqui dentro, meu rosto se mostrava borrado no espelho. Fora de foco, surrado pelo choro e pelos sorrisos forçados que dei. Minha mania de conversar sozinha começou aos sete, quando ganhei meu primeiro cachorro de estimação: Tobias. Ele era pequeno e branquinho, como um floco de neve (queria chamá-lo de Floquinho, mas minha mãe não deixou). Corri com Tobias no meu calcanhar pelo o que pareceu mil léguas, até ele se cansar e morrer com pouco mais de oito anos de idade – no dia dos meus quinze anos. Contava a ele as inúmeras estórias mirabolantes que crianças adoram inventar. A que eu mais gostava era a do Pirata-Ladrão-de-Corações. Após tanto roubar os corações das donzelas indefesas, teve o seu capturado por uma bruxa. Sim, estória complexa para uma menina com pouco mais de nove anos, mas era assim que eu me esbanjava em falar sozinha, pensando que Tobias dava a mínima para o que eu contava (ou talvez escutasse eu não soubesse). Pensar nele me deu um nó de marinheiro na garganta.

Naquele momento o silêncio açoitava as paredes cor de areia do meu quarto. Tomei coragem de quebrá-lo e, num fôlego só, disse:

– Engraçado como as pessoas se tornam ridículas quando se apaixonam. – peguei um dos vários porta-retratos que estavam sobre a penteadeira de madeira fosca e encarei uma garota jovem dando um beijo estalado no rosto de um rapaz com barba por fazer. – O que a gente ganha quando uma pessoa aparece em nossa vida, rouba todo o nosso tempo, faz o nosso coração bater mais forte e vai embora como se nada de mais tivesse acontecido?  Memórias? Pra quê eu as quero mais? Será que isso é a única coisa que me conforta, que me faz bem? Ficar pensando em você, Augusto, como se meu mundo pudesse melhorar, como se houvesse alguma chance de você voltar? Eu sei que eu sou incoerente, inconsequente, falo mais do que eu devo e sempre é a coisa errada. Mas eu precisava passar por isso? Precisava ficar a noite inteira olhando o céu sem estrelas e tateando o espaço na cama que até mês passado era seu, no intuito de você voltar algum dia? – eu gritava como se o garoto de dezesseis anos na fotografia pudesse me ouvir de alguma forma. – Por que você não liga, não dá sinal de vida? Por que esqueceu tudo o que era nosso e simplesmente foi embora? Por quê… – as palavras saiam sem precisão, como se fossem jogadas de uma ponte.

Possuída pela extrema fúria infantil que me arrebatava ali, às oito da noite, em pleno sábado, joguei a última lembrança que tinha de Augusto no chão, observando enquanto o vidro se partia em outras centenas de pedaços.

– Sei que você sempre achou uma insanidade da minha parte conversar sozinha, mas acho que isso é única coisa boa que me resta.

No auge dos meus vinte e cinco anos, nunca havia perdido as estribeiras com uma fotografia. Seria cômico, se não fosse trágico o fato de que eu estava sozinha (completamente sozinha) e isso era o que eu mais temera em toda a minha vida.

Sentei no chão frio, afastando os cacos de vidro, retirei a foto de alguns anos (um pouco roída nas laterais), rasguei-a e joguei em um canto escuro da parede, observando mais uma vez a bagunça que estava ali. Um pilha de sapatos jogados debaixo da cama, roupas sujas sobre a poltrona que eu costumava ler e uma montanha de folhas espalhadas pelo chão, um romance inacabado – como o meu, ironicamente – começado há pouco mais de seis meses.

Aquilo tudo era uma paródia da minha vida. Toda a bagunça, sujeira e tristeza não condiziam com o que eu havia planejado viver. “Amores vêm e vão”, não é isso o que eu sempre leio por aí?

Revirei meu quarto arrumando cada centímetro fora do lugar. Coloquei mais água no jarro, fechei o livro da Jane Austen, forrei a cama e resgatei as folhas do chão. Sentei em frente à minha máquina de escrever e adicionei a ela algumas páginas em branco. Não havia mais ninguém ali além de mim, o barulho do datilografar preciso dos meus dedos na máquina e minha vida que voltava aos poucos a ser preenchida.

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