Seaside

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Em uma manhã de quarta-feira, do mês de maio, Dona Neuza aproveitou que o dia estava preguiçoso como domingo e decidiu fazer algumas mudanças. Começou mudando o sofá da sala de lugar, com certo esforço. No quarto, trocou a roupa de cama por uma novinha em folha da cor azul. Arrancou as cortinas cor de areia da sala e as colocou para lavar. Parou na estante e retirou os bibelôs de porcelana, deixando os porta-retratos com fotografias dos netos sorridentes e lambuzados de chocolate em evidência. Marcos e Isabella. Dona Neuza deu-se conta de que no auge de seus sessenta e sete anos não havia sido tão feliz quanto eles, de apenas cinco e oito. Queria enxergar o mundo como uma criança consegue: encontrar brilho e leveza na poeira que levanta quando abrimos a porta em uma manhã de sol, encontrar desenhos em nuvens, dormir com os pés para dentro do cobertor com medo do bicho-papão… Mas Dona Neuza sabia que esse tempo há muito se fora e que agora só restavam os problemas na coluna e o início da catarata.

O marido de Dona Neuza, Sr. João, morrera há pouco mais de cinco anos. Ela morava só, em uma casa simples comprada com o suor de ambos. Sentia uma falta imensa do Sr. João quando a Lua Cheia se punha esplendorosa no céu. Eram naquelas noites que os dois bailavam pela varanda ao som da Jovem Guarda e riam como dois adolescentes apaixonados. Mas agora o silêncio invadia cada cômodo da casa e transformava tudo em um eco dela mesma. O único filho, Matheus, morava no Rio de Janeiro e a visitava uma vez por ano. Ela também sentia falta dele, da nora e das risadas das crianças que levavam um pouco de alegria, mesmo que passageira, ao grande mausoléu que havia se tornado aquele lar.

Os pensamentos escaparam da mente dela quando ela viu uma foto do filho, ainda recém-casado, na praia de Ipanema. Viu o sol, a areia e as ondas arrebentando à beira mar, fazendo par com o sorriso encantador de Matheus e Mônica. Dona Neuza nunca fora agraciada com uma ida à praia. Sentiu seu coração dar um pequeno salto no peito, pois aquilo era uma das coisas que mais desejou durante anos. Sentir a leve brisa trazida do oceano, o cantar das gaivotas, ver os barcos navegando ao longe como os pequenos barquinhos de papel que Matheus jogava nas poças d’água quando chovia e, no fim do dia, observar o pôr do sol. “Talvez se João estivesse vivo”, ela pensou, “poderíamos ir em um fim de semana”. Mas com a idade e a saúde que tinha e ainda mais sozinha, Dona Neuza não queria arriscar.

Depois de terminar as mudanças no ambiente, Dona Neuza preparou o almoço. Enquanto comia e olhava fixamente para a gaiola do papagaio que ficava sobre a janela da cozinha, pensou em arriscar uma ida à Baixada Santista naquele mesmo dia.

– É loucura. – ela sorriu baixinho, enquanto equilibrava entre a faca e o garfo o último grão de arroz do prato. – Eu, velha desse jeito, querendo me aventurar…

Ela podia pensar que aquela ideia era bobagem, mas uma voz dentro da mente dela dizia “vai, tenta! Pelo menos mais uma vez você precisa ser feliz!”. Dona Neuza agarrou-se à voz como nos agarramos ao cachecol no frio, pedindo proteção e confiança. Arrumou uma pequena mala com algumas peças de roupa e os remédios que tomava. Colocou o vestido amarelo que mais gostava e saiu vida a fora em sentido à Baixada Santista.

Duzentos e trinta quilômetros e alguns cochilos no ônibus depois, lá estava ela em frente à grandiosa praia. Tratou de procurar uma pousada para ficar até o dia seguinte, pois não se arriscaria a voltar no mesmo dia. Atravessou a rua e tirou os chinelos, colocando os pés já cansados da grande caminhada da vida sobre a areia. Sentiu os pequenos grãos acariciar-lhe as pontas dos dedos, enquanto ela fechava os olhos e imaginava se aquilo tinha feito parte do universo algum dia. Caminhou silenciosamente enquanto escutava os sons que a praia a ofertava. Crianças construíam castelos de areia, os quais desmoronavam no mesmo instante. Casais passeavam de mãos dadas, velhinhos passavam com carrinhos de sorvete e o mar agitava-se inteiro esperando por ela. Foi então que seus pés encontram, primeiramente, a areia molhada. Sentiu seu espírito se renovar e jurou ter sentido uma lágrima escorrendo pelo canto esquerdo do rosto. O sol preparava-se para sair de cena, tudo acontecendo como ela havia sonhado. Sentiu algo em seu coração se desenrolar e ruflar como as asas de um beija-flor. O peito dela estava inflamado por uma alegria há muito reprimida e que agora transbordava e inundava a alma e os olhos. Dona Neuza sentiu-se perfeitamente viva e só parou de contemplar aquele lindo espetáculo, pelo qual tanto esperara, quando sentiu uma pequena mão agarrar e sua. Olhou para baixo, em meio às lágrimas de felicidade, e viu cachos dourados.

– Dizem que se você fizer um pedido para o mar, ele se realiza. – disse a garotinha sorridente, aparentando ter pouco mais de cinco anos, segurando um balde de areia recém-colhida.

Dona Neuza retribui o sorriso da criança e encarou novamente o mar. Primeiramente desejou que João estivesse de alguma maneira com ela, mesmo que em espírito, partilhando a enchente de alegria que a carregava para um estado de plenitude. E, em segundo, desejou ter o controle remoto da própria vida para pausar aquele momento para sempre.

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X da questão

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 O problema é que eu estou aqui, mas meus pensamentos estão voando em algum lugar do cosmos, procurando alguma lembrança do futuro. Lembranças tão sutis quanto uma pena levada pelo vento. São suas mãos esbarrando nas minhas pela contramão e o calor do sol invadindo o quarto na manhã de domingo. É o seu riso faceiro querendo me convencer de que eu não sou o ser humano mais desajeitado do mundo e sim, o correto para você. É o cheiro de chá de erva cidreira fervendo no fogão.

Imagino se esses seus olhos castanhos me seguirão pela estrada da vida e me ampararão quando eu cair. Imagino seu cabelo bagunçado no travesseiro e sua voz rouca recitando poemas improvisados, arrancando-me sorrisos infantis sem esforço.  Imagino o caos no trânsito e a chuva pesada açoitando as janelas do carro enquanto espero uma ligação sua dizendo que me quer por perto o mais rápido possível, para fugir do frio.

As risadas das nossas crianças, os filmes do sábado à noite, a pizza requentada do fim de semana e os bilhetes carinhosos deixados na porta da geladeira ficam à mercê da minha vontade de pegar o controle remoto do presente e acelerar minha vida, só para constar que você estará lá no fim de tudo. Segurando minhas mãos enrugadas pelo peso dos anos e com o mesmo olhar doce de menino.

Mas, para ser sincera, o meu real problema é não ter coragem de te procurar e derrubar em você toda essa angústia e dor que me faz sempre procurar ar puro. O problema é que eu sou imatura e nunca tenho certeza de qual roupa usar, de qual livro ler, de qual filme alugar e de qual restaurante escolher. Sou um poço de confusão porque fui moldada assim, desse meu jeito menina que sonha mais do que pode e perde tanto tempo desejando o inalcançável, sempre incerta de tudo o que eu posso escolher. E o grande X da questão, meu amor, foi que eu escolhi você.

Rabiscos

Ela era toda rabiscos. Marcada por noites sem dormir e choros que ficavam presos na garganta. Sufoco. Seus braços eram marcados por frases de Poe, Pessoa, Saramago, Espanca e por algumas que ela mesma criava quando o tédio tentava invadi-la. Não havia mais espaço para sentir saudade ou remorso, porque ela não permitia. As linhas precisas e bem marcadas com caneta preta ocupavam a maior parte de sua pele e de seu coração. Uma dor de cabeça imensa ameaçava aparecer toda vez que ela tentava apagar de si aquilo que sofreu, que ouviu ou que amou. Deveria conviver com elas pelo tempo que restasse. Ou até mesmo além disso. As palavras eram suas companheiras desde quando ela se entendia por gente. Uma espécie de gente diferente. Que não sai, que não sua, que não retira do próprio corpo aquilo que faz mal. Que prefere não ouvir músicas prontas e sim, a do vento. Que tem respostas para tudo e não se emudece diante de qualquer precipício.

Ela era rabiscada porque gostava. Os rabiscos se emaranhavam e formavam o que ela conseguiu ser até então: tudo e nada. O emaranhado de palavras jorrava nas diagonais e nas laterais de seu corpo, intrinsecamente. Ameaçavam saltar da pele branca e fina, mas permaneciam lá, gritantes, porém mudas.

Ela só se tornou uma confusão de palavras, moço, porque você nunca quis parar para lê-la.

O que a gente perde quando os olhos piscam

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– Quer um copo d’água? – ela fez menção ao pequeno copo de vidro em sua mão esquerda, enquanto sentava no chão da sacada do apartamento.

– Não comi nada que me desse sede. – ele respondeu secamente, ainda olhando os carros que passavam lá em baixo, pequenos e apressados.

– Por que você é sempre assim, hein?

– Defina “assim”.

– Cheio de respostas prontas. Autossuficiente, dono de si. É quase impossível encontrar uma brecha e enxergar quem você realmente é…

– Isso te incomoda?

– Mas é claro que incomoda! E muito. Porque eu te amo, mas acho que não te conheço direito. É como acordar ao lado de um estranho todos os dias, mesmo eu sabendo todas as suas bandas e filmes favoritos.

– Como nunca me conheceu? A gente vive aqui há dois anos e você diz que não me conhece? Muito prazer, me chamo Roberto. – ele estendeu a mão no escuro da noite e esperou que ela a apertasse, tentando quebrar o enorme iceberg que se formava entre os dois. Viu quando os olhos verdes dela encontraram os dele, incrédula.

– Tá vendo? Você sempre procura uma maneira de se esquivar do assunto. É como olhar o mundo de longe. Eu nunca sei o que encontrar dentro de você, não sei qual será seu próximo passo. Você sempre arruma confusão por coisas à toa, sempre tenta ser arrogante com quem você não conhece e eu me pergunto “o que você ganha com isso?”, porque eu sei que lá no fundo você é de certa maneira vulnerável, mas não deixa isso transparecer. Não sente falta de ser você mesmo? – as palavras fluíam por ela como o leito calmo de um rio. Ela não permitiria que ele a tirasse do sério com seus jogos prontos e falsas promessas. Não mais.

– Sentir falta? Mas eu nunca perdi quem eu realmente sou.

– Mas eu sim.

– Você o quê?

– Te perdi.

– Quando? No último passeio que fizemos ou na festa em que a gente se conheceu. – ele riu um pouco desconfortável.

– Não. Te perdi no último instante em que pisquei os olhos.

Ela se levantou e entrou novamente no apartamento, bebendo em um gole só o copo d’água em temperatura ambiente, no mesmo instante em que ele colocou a cabeça entre os joelhos, fechando os olhos e tentando encontrar o Roberto de antigamente, perdido em algum lugar do espaço ou daquele apertado coração.

Sendo Nuvem

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 Duas vezes ao mês, pelo menos, ela chovia. Deixava que a água escorresse de seus olhos até o queixo, ensopando a camiseta branca de algodão. De vez em quando, quando tinha coragem o bastante, pegava uma ou outra gota de chuva que caía e punha entre os lábios. Sentia o gosto agridoce daquelas que produzia.

Ela era nuvem escura. Melancólica, chateada e fria. A chuva de todo-santo-mês a acalmava quando fazia sol. O frio que a chuva trazia a confortava, lembrando-a da infância há muito perdida. Os cabelos cor de mel caiam por sobre os ombros enquanto ela olhava pensativa o horizonte.  Queria ser quente e aconchegante. Queria ser nuvem de dia ensolarado, porém não conseguia.

Seus dedos enrugados de tanto aparar a chuva torrencial doíam e ela sentia-se velha. Queria colocá-los o mais perto possível de um raio de sol, mas a sua natureza não permitia. Menina que tem a cabeça nas nuvens nunca deve sonhar além do que alcança.

Quando a lua saía e a chuva finalmente cessava, ela mergulhava os cachos loiros no travesseiro e dormia. Sonhava com o dia em que poderia sair e admirar as flores e sentir o vento bagunçar-lhe os cabelos, sem precisar derramar uma gota sequer por isso.

Em um dia aleatório do mês de abril ela acordou e colocou o melhor vestido rendado que tinha. Escovou os cabelos e os prendeu em uma fita vermelho-sangue. Escancarou a porta e saiu para o sol, brincando com as minúsculas partículas de poeira da porta. Deixou que o calor emanasse primeiramente pelas palmas das mãos e pelo pescoço.  Trancou a porta atrás de si e sentiu uma alegria imensa percorrer todo o seu corpo. Ela estava completamente seca, enfim.

Quem observou Nuvem de longe, jura que ela brilhou pelo menos uma vez na vida.

Photo’s credits: http://www.flickr.com/photos/icallbiebs/8729356534/in/photostream

A saudade e um copo d’água

ImagemMinha vida se resumia a dois copos: um pela metade, cheio d´água e o outro transbordando de saudade. Cada vez que tentava fugir de você, mais me encontrava à beira de um penhasco íngreme cheio de cascalhos. Se pulasse, morreria. Se escorregasse, me cortaria profunda e gradativamente. Foi então que de súbito joguei todas as fotos e cartas, todos os CD’s e bilhetes de cinema, junto com aquele disco dos Beatles que eu tanto gostava (e que tocava “All We Need Is Love” sempre que eu tentava te esquecer). Observei enquanto tudo se desintegrava sendo levado pelas ondas do mar e me senti um pouco mais aliviada. Por hora. Foi chegar em casa e ver a marca intacta, preguiçosa e presunçosa do teu beijo na minha testa que tudo piorou. Senti o frio da noite entrar pelos meus ossos e congelar meu coração, junto com a temível sensação de estar só. Só com a solidão.

Os jornais se acumulavam na porta e os ponteiros do relógio giravam e giravam sem parar, só por pirraça. As horas corriam como um maratonista e as crianças cresciam sem parar. Meus fios brancos apareciam como o branco nos olhos de um velho e eu não me importava.

O tempo foi passando e a dor sempre aumentava. A Lua Cheia me olhava triste, como se soubesse o que se passava aqui dentro. Prisão. Estava presa dentro de mim e não conseguia me destrancar.

Foi então que escancarei o cadeado que envolvia meu coração e o joguei longe. Tomei o copo d’água gelado que era metade da minha vida num gole só, enquanto derramava toda a saudade na pia.

Talvez, mês que vem

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 Quando digo que meu coração tá uma bagunça, não é exagero, entende? São nervos, veias, artérias e pulsações que não se encaixam e se limitam a quererem você por perto. Ah, se você pudesse ver o emaranhado de sentimentos, angústias e desencantos que palpitam aqui dentro, garoto… Porque são duas e meia da manhã e a noite tá linda e eu só queria você aqui comigo, junto, até mesmo calado. Dividir uma xícara quente de café, meu cobertor azul rasgado nas bordas e o sofá de couro vermelho da sala. Ligar a tevê, ver um filme qualquer só pra te ouvir suspirar dizendo que Coppola não faz teu gênero.

Mas eu me limito a olhar o letreiro de neon que pisca do outro lado da cidade, lembrando do vermelho da tua camisa de algodão – aquela em que eu derramei vinho sem querer. A mancha deve ter sido difícil de tirar, né? Pelo menos você tinha alguma lembrança minha perto do teu corpo. Vermelho. A cor que eu fiquei quando caí estatelada no chão branco feito leite, na sua frente. Você me estendeu a mão pela primeira vez e eu vi que seus olhos combinavam com o mesmo tom dos meus cabelos. Castanhos. Como a tempestade naquela música do Renato. Seus dedos se entrelaçaram aos meus e eu senti uma necessidade imensa de ser abraçada e sumir. Sumir dali com você pelo tempo que restasse, até a ferida no meu joelho cicatrizar e você sorrir dizendo pra mim que tudo ia ficar bem. Até mesmo o fato de que meu trabalho da faculdade ainda não tava pronto, porque eu não sei escrever uma conclusão. Fiquei em pé, com a cara mais infantil do mundo, dessas que a gente faz quando cai de bicicleta quando criança, sem saber se chora ou se ri. Você largou a minha mão da tua e eu senti frio e um vazio aqui dentro, tão estranho que chega a ser familiar. Vi tua silhueta levando o sol embora, enquanto eu ficava parada encarando o nada, o ar, o vácuo e criava mentalmente um poema niilista sem sentido no qual nós dois éramos protagonistas.

Você chegou chovendo na minha vida, inundou tudo, me deixou sem teto e foi embora de vez. Nunca foi meu de fato, ainda passa e sorri de lado pra mim, mas não pra mim, sabe? Deve ser apenas uma questão de educação.

Fico rabiscando guardanapos, blocos de nota, correio elegante e folhas de jornal, escrevendo textos – como esse – que, muito provavelmente, não serão lidos por você. Só queria que essa minha máscara de “menina de vinte feliz e realizada” caísse e você percebesse que tá faltando tudo. Tá faltando paz, tá faltando paciência, tá faltando amor no mundo, tá faltando você. A vida passa tão depressa e só o que a gente têm são o presente e as lembranças que voaram com os ponteiros do relógio. Só o que me restou daquele último dia foram o modelo dos seus óculos de armação preta, sua camiseta azul sem estampas e a breve conversa de cinco minutos. Última e única.

Lá fora um carro acabou de passar tocando a nossa música. Na verdade, a música que eu escolhi pra nós dois. To die by your side is such a heavenly way to die.

Vou parando por aqui porque meus olhos pesam e o cheiro do café que vem do apartamento ao lado não está ajudando em nada. Café é escuro, assim como os seus benditos olhos que voltam e voltam e voltam e voltam toda vez que eu tento dormir.

Talvez o mundo volte ao eixo certo quando você se der conta de que eu existo. Ou talvez eu deva te deixar escorrer por entre os meus dedos e cair devagarinho no abismo que é esse amor que eu sinto. Mas não agora.

Talvez, mês que vem.