Errada

LargeEla estava sentada no meio fio enquanto fumava um cigarro. Os carros aglomeravam-se pela rua, deixando aquele cheiro característico de poluição no ar. Em meio ao caos das buzinas, palavras de baixo calão e motoristas apressados ela vagava para uma atmosfera paralela, pensando na noite anterior. A noite em que vendeu a alma por um beijo e algumas latas de cerveja.

Ele tinha olhos claros e não usava perfume, ela notou. Tocava guitarra em uma banda de garagem que provavelmente nunca faria sucesso. Seu nome, pouco importava. Ela queria apenas se desligar do mundo naquele instante. Queria esquecer o número do celular, o CPF e o endereço do apartamento alugado. Queria ser quem ela era: ninguém. Uma pessoa sem marcas adquiridas com o tempo, sem saudades, sem mentiras ou particularidades. E conseguiu. Por uma hora ela foi uma estranha nos braços daquele homem cujo olhar distante a incomodava. Ele seria o típico pai de família que leva as crianças ao parque todos os domingos, beija a testa da esposa ao levantar-se pela manhã e arrisca-se ao tentar cozinhar. Era bom demais para ela que, no fim das contas, gostava de ser uma loba solitária até então.

No fim da festa, o batom vermelho já estava completamente borrado e sua paciência, completamente grogue. Não queria despedir-se formalmente ou deixar o número do telefone com ele. Queria desaparecer dali mais rápido do que quando chegou, sem deixar vestígios. Ainda teve tempo de vê-lo procurando-a no meio da multidão que pulava ao som de alguma banda de rock que ela talvez conhecesse nos momentos sóbrios, quando atravessou a porta e encarou o vento frio da madrugada. Ao deitar a cabeça no travesseiro, pensou nele mais do que deveria.

Naquele momento sentia-se culpada. Culpada por não saber nadar, por não ter pintado o cabelo de azul aos dezesseis, por ter abandonado a faculdade e por trabalhar em um restaurante sujo que cheirava a gordura. Culpava-se pela morte do peixe de estimação quando tinha pouco mais de seis anos, pelo machucado no joelho aos dez e por não ligar para os pais há dois anos. Era culpada pela vida miserável que levava, por ser insana, por falar palavrões como um homem, por não ser delicada e querer estender o dedo do meio para o mundo. E agora, culpava-se ainda mais por ter deixado o cara, que talvez fosse o certo, escapar para sempre.

Passou a mão pelo calcanhar ainda inchado da queda que levara ao sair de casa naquela manhã. A meia calça estava rasgada até a metade da perna e ela sentia-se imunda, tanto por fora quanto por dentro. Pela primeira vez em anos teve vontade de ser amada e abraçada por qualquer pessoa que passasse por ali. Os olhos arderam ameaçando jorrar lágrimas de frustração.

– Droga! O que eu estou fazendo com a minha vida? – ela gritou encarando o céu nublado, assustando uma senhora de cabelos brancos que passava.

Estava mais do que na hora de mudar, ela pensou. Largar a vida regada a bebedeiras e ressacas que não a levariam a lugar algum, tentar ser um pouco mais correta já que estava desgastando-se aos poucos. Começou jogando o cigarro pela metade no meio do asfalto, observando-o ser levado pelo vento. Levantou-se, limpou a poeira das roupas e mancou de volta para casa, prestes a recomeçar de alguma maneira.

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Tão certa

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Às vezes eu não queria ser assim, tão certa. Às vezes, queria não importar-me com os horários a cumprir ou com a posição do livro na cabeceira da minha cama (Dona Regina sempre o muda de lugar quando vem aqui em casa fazer faxina, e essa falta de métrica consome-me por inteiro). Queria não importar-me com verbos conjugados, com próclises, mesóclises e ênclises. Queria não importar-me com o futuro do pretérito. Muito menos com o meu.

Adoraria deixar de ser esse vulcão confuso e questionador, capaz de interrogar o último ser do planeta em busca do que eu preciso. Queria ser brisa fria de inverno disposta a nunca mais sair da cama quando bem entendesse, jogar os pés sobre uma almofada e observar a vida passar devagar.

Queria ser de festas, danças despojadas e saltos plataforma. Mas quem disse que consigo? Queria ter coragem de abandonar as verdades absolutas que cercam-me da mesma maneira que largo o cinema do sábado à noite. Não queria ter a mesma paciência dos monges do Tibete enquanto enfrento um trânsito infernal. Queria ter o poder de xingar em alto e bom som o motoqueiro que ultrapassa-me pela esquerda.

Escrever parágrafos com apenas uma linha, não preocupar-me com as rimas do poema, elaborar títulos clichês está totalmente fora de cogitação. Mas, para falar a verdade, não desejo ser toda e completamente desleixada. Quero ser um meio-termo regado a algumas roupas esquecidas no varal em dias de chuva, em copos sobre a mesa esperando horas para serem lavados, em filmes de ação assistidos com a companhia do meu próprio ser e palavras jogadas ao vento. Gostaria de não preocupar-me com os erros de ontem ou com a conta que esqueci de pagar ano passado. Gostaria de desmarcar os compromissos sérios do fim de semana e ir ao parque correr até o mundo girar ao meu redor.

Sabe-se lá Deus o por quê de eu ter herdado o cromossomo perfeccionista da minha mãe. Fazer o quê se isso faz parte do meu jeito todo politicamente correto de ser?