Entre linhas

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Escancaro o livro empoeirado em busca de companhia. Passo os olhos por palavras, lugares, pessoas e tinta escura no papel. É tão mais fácil fingir que está tudo bem quando se está só. Mas, para falar a verdade, desejaria que a distância entre nós, que essa barreira fantasiosa desaparecesse de uma vez por todas. Mas ela insiste em ficar aqui comigo.

São tantas histórias, tantos rostos, tantos vilões e mocinhas que eu me perco. Perco a vontade, a coragem e meus pensamentos voltam para um único ponto inalcançável no universo. Os dedos que apoiam o livro tremem de frio. O edredom e a caneca de chá quente já não fazem mais efeito. Lá fora a chuva chicoteia violentamente a janela. Aqui dentro, o frio arrebata-me completamente.

A trama desenrola-se, o bem vence o mal e, por fim, os protagonistas ficam juntos, num baile, num barco, num casamento… Pelo resto da vida. Ao contrário de nós, passados de apaixonados a meros conhecidos.

No fundo devo admitir que leio desde sempre para encontrar-te. Encontrar-te em um sorriso sem graça, em uma valsa formal, em uma jura de amor ou no grito de gol do futebol. Leio para ser a donzela que tem a vida revirada quando o príncipe aparece e que faz planos e mais planos para o futuro, que fica nervosa antes do casamento e faz com que toda a insegurança acabe ao chegar ao altar – o noivo a espera, afinal.

Leio porque tenho ânsia em ter-te por perto, porque meu personagem favorito tem o mesmo gosto musical que o seu e o mesmo tom castanho dos seus olhos. Leio porque quando me vejo desamparada é para o meu livro que corro. Leio porque as palavras são preciosas e importam-se, mesmo que indiretamente, com o que eu sinto. Mostram exatamente o que eu preciso ler. Ao contrário de você, não é?

No fim das contas, leio por você. Para que talvez o nosso amor entre linhas, subentendido, escasso, fadado ao fracasso torne-se um best seller digno do The New York Times.

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Ode ao meu amor

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Eras o sopro frio da manhã

Eras a calmaria do fim

Eras o sol que invade o quarto

A flor mais linda do jardim

 

Cantavas acima do barulho

Zumbia pelas flores sem temer

Cantavas porque era necessário

Alimentar-me  do teu ser

 

A ausência veio então

Levar-lhe para longe de mim

Fiquei assim: sem razão

Sem a flor mais linda do jardim

 

Flor, se tu me ouves

Canta teu canto de volta

Canta porque ainda te espero

Aqui, parada na porta. 

Intrínseco (como fumaça, fogo e mãos entrelaçadas)

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Os arrepios incertos condizem com cada toque, olhar e sorriso escondido no canto dos lábios.

As palavras faltam e o silêncio invade a minha, a sua, a nossa vida. Um silêncio que diz tudo e nada. Que esvazia e preenche o coração. Que abdica de tudo e todos. Basta estar ali, sereno e inaudível. Apenas.

Tão certo quanto chuva em janeiro. Tão calmo como a brisa das seis da manhã. Tão forte quanto o cheiro quente do café no fogo – que aquece o peito e alma. Tão simples como o bater de asas de um beija-flor. Não sei se era para ser tão completo assim, mas é.

Seus dedos têm o mapa exato da minha nuca, e traça por ela caminhos inabitados e inalcançáveis. Seus cílios sombreiam os olhos castanhos – tempestuosos e afetuosos – e os transformam em dois abismos profundos. E eu me jogo. Sem medo. Sem culpa. Sem fôlego.

Mãos, pés, lábios, sonhos, vontades, risos, gestos, tristezas e aventuras mesclam-se como um só. Indefinido e particular. Fazemos parte, meu amor, de um universo aonde tudo se liga, se ajeita, se combina e se ama por inteiro. Como a fumaça que não existe sem fogo. Como novela das nove sem clichê. Como nossas mãos entrelaçadas pelo caminhar da rua. Como meus textos cheios de metáforas, hipérboles e sinestesias. Como o meu eu sem você. Como nosso ser, enfim. Intrínseco.

Serena

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Acordei com uma vontade imensa de algo que eu não sabia o que era. A luz do sol entrava numa fresta pela janela, riscando o chão de madeira e aquecendo meu cobertor. Olhei-me no espelho. “Mas que velha eu me tornei”, pensei. Uma alma velha presa num corpo de vinte. Deixei a água quente do chuveiro levar minhas lástimas, meus pêsames, meus choros, minha solidão. Derrubei no chão branco do box minhas máscaras e anseios. Minhas dúvidas e incompreensões. Minhas piores danças e tentativas de piadas – muitas delas, fracassadas.

Enxuguei-me em algodão e nuvens. Enrolei meus cachos molhados em um coque desalinhado. Não passei batom, blush, rímel ou delineador – as marcas do tempo e as olheiras profundas compreenderiam. Nenhuma tristeza precisa ser maquiada.

Ornamentei-me de vestidos e flores. As taças das outras noites ainda estavam espalhadas pelo quarto. Uma bobagem digna de uma inconsequente como eu – não repetiria os mesmos erros bêbados de antes.

Saí para a rua ouvindo a música do vento. O sol queimava a pele nua dos meus ombros e eu sentia-me bem. Nem muito feliz. Nem totalmente triste. Apenas satisfeita.

Decidi esquecer-te, amor, porque mereço. Mereço uma vida longe das suas mentiras, trapaças e inconsequências casuais. Decidi jogar as borboletas do estômago e as noites em claro no meio dos carros. Elas não mais me atropelariam. Decidi viver, enfim.

Agora sei o que queria ao acordar: desprender-me desse fantasma sem escrúpulos e sem piedade que você se tornou. Acordei com vontade de desprender-me de você.