Emma

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 Não havia absolutamente ninguém naquele vagão e isso me assustava. Lá fora, a chuva açoitava as janelas e o mundo tornava-se um borrão cinza e triste. Encostei a cabeça no encosto do acento tentei tirar um cochilo, sem sucesso. Apenas fleches apareciam sob minhas pupilas: minha esposa Emma vestida de branco. Era nosso casamento, mas ela não era a mesma Emma de antes. Eu a reconheci pelos enormes cabelos ondulados e negros, dos quais ela se orgulhava como nenhuma outra mulher. Sua pele agora era de um branco deprimente. No fleche seguinte, estávamos sentados em um gazebo enfeitado por flores brancas.

– Não olhe para mim, amor. – ela disse com uma voz suave que eu não reconhecia. – Você não se acostumará fácil com o que eu sou agora…

– Emma, eu sinto a sua falta. – minha voz falhou.

– Eu também sinto, Eddie. Mas somos de mundos diferentes. Queria tanto ir para casa e sentir o calor da lareira…

Ao dizer isso, toquei de leve sua mão. Ela estava gelada como se houvesse passado a vida inteira em um frigorífico.

– Por Deus, você está congelando… – eu disse, colocando meu casaco pesado sobre seus ombros. – Vamos para casa, Emma.

– Não adianta. Eu nunca vou conseguir me esquentar. Nunca… – ela disse com a mesma voz suave, porém distante.

Emma virou-se para me olhar no fundo dos olhos. O último fleche foi o pior de todos: seu rosto não era o da menina que aceitou ser minha namorada no colegial. As covinhas meigas que descansavam sobre suas bochechas davam lugar a enormes vincos. Seus olhos injetados de sangue me fitavam calmamente. Ela abriu um sorriso, mostrando enormes dentes monstruosos e me atacou com garras afiadas. Havia sangue por toda parte e, mesmo decapitado, pude vê-la pela última vez através de meus olhos mortos. Ela saboreava meu próprio sangue em uma taça de vinho.

Acordei em um sobressalto, derrubando minha pasta do escritório e o copo de café, já frio. Era idiotice sonhar coisas daquele tipo. Desde o afogamento de Emma, nunca sonhei nada parecido. Aliás, nunca mais tinha conseguido sonhar com ela. Os bombeiros não encontraram seu corpo levado pela enxurrada e eu preferia assim. Apesar de terem desistido das buscas, lá no fundo do meu coração havia alguma ponta de esperança de que ela voltaria a me receber sorrindo depois do trabalho, o cheiro de alho refolgado na panela, ela sorrindo em seu vestido amarelo florido… Lembranças distantes que cada vez mais tornavam-se estranhas.

Me abaixei para pegar a pasta e, quando levantei a cabeça convicto de que iria encarar novamente aquele espaço vazio, havia alguém no acento da frente. Uma mulher. Ela traçava círculos no vidro embaçado. Seus cabelos escuros e pesados caíam pelas costas. Não consegui me mover. Minha circulação sanguínea congelou, tentei chamá-la pelo nome, em vão. Emma levantou-se, ainda vestindo o mesmo jeans e a camiseta branca com a qual estava quando desapareceu. Ela estava encharcada dos pés à cabeça.

– Vai ficar me olhando assim sem dizer nada? – ela veio em minha direção, com passos curtos e ritmados.

– O-o que vo-você quer comigo? – gaguejei.

– Vim te ver, amor! Passamos tanto tempo longe um do outro, não é? – dois anos, para ser mais exato. Ela sorriu para mim e, para o meu alívio, os dentes dela eram os mesmos de sempre.

– Como você pode sumir assim, sem explicação? Passei noites e mais noites procurando você! Por que não me deu notícias, Emma? –  eu a olhava incrédulo.

– As coisas não são tão simples agora… – ela pareceu triste. Seus olhos vermelhos olhavam a chuva lá fora. Ela suspirou. – Eu não tive alternativa, Eddie.

– Eu te esperei todo esse tempo, pelo amor de Deus! – agora eu gritava com ela. – Nem um telefonema você me deu! Acha justo? Eu sofrer por tanto tempo e você aí viva?

Viva é uma palavra que não se encaixa mais no meu vocabulário. Olha pra mim! Eu pareço uma pessoa viva? – ela apontou para o próprio corpo. Sua pele, antes branca, assumia o mesmo tom que eu tinha visto no sonho. Ela parecia mais forte, ágil, porém a doçura de antes ainda a envolvia.

– O que aconteceu com você?

– Fui encontrada por um grupo bem esquisito. Esquisito no começo, é claro. Agora eles são minha família.

– Grupo? E por que eles não me procuraram?

– Digamos que eles não convivem amigavelmente com humanos.

– Mas agora você vai voltar pra casa, não vai? – quebrei todas as barreiras do medo e segurei a sua mão. Afaguei de leve e ela fechou os olhos.

– Sinto saudade do calor. Sinto saudade da sua pele, do seu cheiro…

– Então volte comigo. Pra sempre.

– Não posso. – ela soltou a mão da minha e fitou mais uma vez meu rosto. – Eles logo virão atrás de mim e acabarão matando você. Você ficará seguro em casa.

– O que você é agora? – eu não queria saber, mas me obriguei a perguntar.

– Você não vai querer saber. Tenha certeza disso. – ela colocou uma mecha de cabelo solta atrás da orelha. – Eu estou bem. Apenas sinto saudade de tudo…

– Eu também sinto sua falta. – baixei a cabeça e reprimi o choro. Ela não precisava ver aquilo.

– Tenho que ir agora. Foi bom te ver de novo, Eddie.

– Promete que vai aparecer mais vezes? Nossa casa ainda te espera.

– Vou fazer o possível. – ela se aproximou de mim até ficarmos cara a cara. Delicadamente colocou os lábios pálidos e frios sobre o meu pescoço e fincou delicadamente os dentes. Ela arfou baixo. Não consegui afastá-la. Eu a amava e aquilo era o que ela havia se tornado. Ela não me machucaria.

– Me transforma? – eu supliquei. – Me leva junto com você?

– Não é tão simples assim. Isso dói e você tem que abrir mão de muitas coisas. Eu daria qualquer coisa para voltar ao passado. – Emma disse, enxugando uma gota de sangue no canto da boca. Em um piscar de olhos ela já estava de pé. – Tudo vai ficar bem. Algum dia. Isso sim eu posso prometer.

Eu a olhei pela última vez.

– Toda vez que chover eu estarei mais perto de você. Lembre-se disso.

– Onde eu posso de encontrar?

– Dentro do seu coração, aonde sempre vou estar.

Emma lançou um beijo no ar, dizendo “adeus”. No mesmo instante, voltei a raciocinar. Parecia que tinha acabado de sair de uma sessão de hipnose. Mas, no fim das contas, era apenas o cansaço do final do dia. “Sonho esquisito”, pensei. De alguma maneira, eu sabia que Emma não voltaria e que ela estava de certo modo viva. Jurei ver cabelos ondulados esvoaçando pelo ar quando desci na estação e peguei um táxi. No meu pescoço havia dois pequenos furos e deles uma tímida gota de sangue escorreu.

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