Trinta minutos para a meia noite

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“When we hold each other, in the darkness, it doesn’t make the darkness go away. The bad things are still out there. The nightmares still walking. When we hold each other we feel not safe, but better. ‘It’s all right’ we whisper, ‘I’m here, I love you.’ and we lie: ‘I’ll never leave you’. For just a moment or two the darkness doesn’t seem so bad.”

(Neil Gaiman, Neil Gaiman’s Midnight Days)

As luzes do quarto estavam apagadas. Os dois estavam deitados na cama, um ao lado do outro. Esse era um bom começo para uma conversa. Mas não naquele momento.

Elliot respirava baixo. Os olhos fechados e os lábios semicerrados. Lembrava de sua terra natal e das cantigas de seu povo. Sentia saudades. Um dos braços apoiava a cabeça e seus inúmeros cachos acobreados. Ele tentava ao máximo não se mexer.

Ao lado dele, Melanie dormia. Um sono leve, discreto, puro como o de um recém nascido. Ela vira de um povoado próximo ao de Elliot. Conheceram-se por acaso, em uma dessas fogueiras que os antigos anciãos faziam e contavam inúmeras histórias sobre bruxas, duendes e espíritos das trevas. Ele se encantara pelo sorriso resplandecente da garota. Ela, pela força e bravura dele. Ambos se amavam e estavam ali, perdidos em meio ao escuro dos móveis antigos e o tic-tac ensurdecedor do relógio.

Trinta minutos para a meia noite.

Foi então que ambos abriram os olhos. Centelhas de vidro os rodeavam. Um porta retrato feito com a madeira do Carvalho Branco acomodava a única foto do casal. O braço direito de Elliot envolvia a cintura de Melanie. A cabeça dela estava ornamentada por rosas brancas e seu vestido branco acompanhava o vento e seus inúmeros cânticos.

– Você acha que há… – ela disse, aflita, o mais baixo possível.

– Não fale nada. – Elliot tentou acalmá-la. – Talvez tudo isso acabe logo. Sem dor.

Lá fora uma tempestade caía junto aos seus raios e trovões majestosos. Uma lágrima de sangue escorreu no canto do olho de Melanie, fazendo-a desviar o olhar dos cacos de vidro flutuantes.

Não disseram nada além de “eu te amo” e “sinto muito”. Um guerreiro não deveria se apaixonar por uma mera humana e a culpa do Grande Fim era dos dois. Logo mais a Tropa os alcançaria e nada mais restaria, além de uma escuridão fúnebre e dolorosa. O relógio soou as doze badaladas e o som de uma trombeta ecoou pelos céus. Odin e toda sua fúria haviam chegado.

– Não olhe, Melanie. – Elliot virou-se pela primeira vez e ela pode ver seus olhos. Eles brilhavam como a estrela mais bonita da noite. Ele chorava.

Mais lágrimas de sangue brotaram dos olhos dela, que algum dia haviam sido verdes como a mais bela esmeralda lapidada. Eles pagariam o preço por terem desobedecido o Pai.

A mão dele se moldou à dela, como um abraço demorado e confortável. Ele quebrou o silêncio mortal, dizendo:

– Tudo ficará bem. Eu prometo.

Aquilo não era verdade. Não haveria um final feliz para nenhum dos dois. Mas, de certo modo, ela acreditava em milagres e o pior: acreditava que poderiam ser salvos. Ele acariciou o pequeno volume na barriga de Melanie. A criança, infelizmente, não veria as luzes coloridas e dançantes da Aurora. Fecharam os olhos e pensaram nas músicas que dançaram juntos, há milhares de anos, quando se encontraram pela primeira vez.

O terror escancarou a porta, levando as trevas aonde um dia houve vida e luz.

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