André

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Eu fitava maravilhada o alto daquela estante. Três anos. Três demorados anos paquerando uma HQ do meu escritor favorito. Nunca esperei tanto para algo acontecer e ali eu estava, observando o atendente da livraria no último degrau da escada, enquanto pegava meu pequeno-pedaço-de-maravilha-em-quadrinhos, finalmente descendo e me entregando. Sentia-me uma mãe ao pegar seu bebê no colo pela primeira vez.

– Mais alguma coisa, moça? – o rapaz alto de olhos castanhos me perguntou. Ele até que era bonitinho, mas quem liga para beleza masculina no momento em que tem Sandman – Edição Definitiva, do Neil Gaiman em mãos?

– É só isso mesmo. Muito obrigada. – eu disse sorrindo, ainda com os olhos iluminados por conta da minha linda aquisição.

Era véspera de Natal. Como todos nós sabemos, a maioria dos brasileiros deixa tudo para última hora – inclusive os presentes de fim de ano. A livraria estava abarrotada de clientes. Uns com 50 Tons de Cinza discretamente carregados até o caixa. Outros com livros sobre culinária, bandas de rock progressivo dos anos 70, alguns ainda insistindo em presentear a amada (ou o amado) com os livros da Saga Crepúsculo… Corriam para todos os lados, deixando os próprios clientes – e os atendentes – à beira de um ataque de nervos.

Em meio ao meu devaneio nerd, me deparei com algo me trazendo de volta ao eixo da Terra: alguém puxava suavemente a barra da minha camiseta. Ao me virar, dei de cara com um garotinho muito simpático, usando óculos de grau, jeans e uma camiseta do Darth Veder, a qual invejo até hoje.

– Moça, você pode me ajudar? – disse ele acima do barulho e do caos que se estabeleciam no ambiente.

– Claro. O que você deseja? – perguntei, imaginando se a ajuda seria para encontrar o corredor dos jogos de videogame.

– Eu fico meio sem graça em falar isso, mas… – ele parou e encarou o par de All Star escuro.

– Ei, não precisa ficar sem graça. Eu sou sua amiga, pode dizer o que você quer sem medo. – me abaixei para ficar na altura dele. Os psicólogos dizem que isso funciona com as crianças.

– Eu quero comprar um livro. Não um livro qualquer… É um livro sobre…

– Games? RPG? “O Guia do Mochileiro das Galáxias?” – arrisquei.

– Não moça: um livro sobre o amor.

Aquela criaturinha me assustou ao dizer o “gênero” do livro desejado. Ele não passava dos nove anos, eu supus, mas falava com a convicção de um adolescente.

– Eu gosto de uma menina da minha classe. O nome dela é Sophia. Ela é linda, inteligente e dividiu o lanche comigo no último dia de aula! Acho que ela me ama, mas… Eu queria ter certeza disso, porque eu também gosto dela, então… Me ajuda a encontrar um livro pra ela?

– Claro que ajudo pequeno Shakespeare. – meu coração se encheu de uma alegria fora do comum: eu ajudaria um sonho de criança, talvez apenas algo passageiro, a se concretizar. – Posso saber seu nome primeiro?

– Me chamo André. E você?

– Eu sou Mariana. Muito prazer em conhecer você. – sorri e nos cumprimentamos formalmente. – Vem cá. Tem uma prateleira ali naquele canto só com livros sobre o amor. Vamos lá? – apontei para o enorme corredor onde estava escrito “Poetas Estrangeiros”.

Ele saiu correndo na minha frente. Um “pingo de gente”, como diria a minha mãe, se aventurando em busca do sentimento que todos nós algum dia experimentaremos: o verdadeiro amor. Corremos os olhos por Neruda, Shakespeare, Pessoa e, finalmente, encontrei o que ele talvez procurasse.

– “O Livro de Poemas para Garotas Apaixonadas”, Amélia Strauss? É esse mesmo que você quer levar?

– Sim, Mariana, é esse! É perfeito! – ele sorria como se houvesse ganhado a partida de futebol do século.

– Agora você precisa escrever uma dedicatória para ela. Mulheres amam essas coisas.

– Mas eu não sou bom com as palavras…

– Você deu sorte, campeão. Eu entendo sobre isso.

Fomos até uma daquelas poltronas que as livrarias oferecem para os leitores mais ávidos degustarem um pouco de seu livro antes de o levarem para casa. Sentei e tirei uma folha de papel e uma caneta da mochila. André observava tudo atentamente.

– O que você gostaria de dizer para a Sophia, André?

– Ah, você sabe, essas coisas românticas da vida… Tipo “eu te amo” e “quero ser seu namorado”… Acha que funciona?

– Funciona, mas você tem que pensar em algo mais poético. Mulheres gostam de discursos bem elaborados.

– “Você é a luz que ilumina meus dias cinzentos”? Serve?

– Sim! Continue.

– “Penso em você como um marujo anseia terra firme, como o sol anseia a noite, como o coração anseia amar…”.

As palavras saiam daquele pequeno coração apaixonado tão facilmente que eu comecei a imaginar o quão sortuda essa Sophia era.

– “Sempre seu, André”. Ficou bom?

– Ficou ótimo, André! Tenho certeza de que vocês serão muito felizes juntos. – entreguei o papel a ele. – Quando você chegar em casa, passe esse texto à limpo no início do livro, com uma letra bem redondinha. Faça um embrulho bem feito e entregue a ela. É só torcer para que dê certo.

– E se ela não gostar de mim?

– Tenho certeza que vai, André. E se isso não acontecer, continue tentando. Uma hora ou outra aparecerá uma garotinha que goste de você assim, do seu jeito.

– Muito obrigado pela ajuda, tá? Torce por mim, viu?

– Sempre vou torcer…

André me deu um beijo estalado na bochecha e se enfiou no meio da multidão em busca de um caixa aberto. Fiquei paralisada, encarando aquele amontoado de cachos saltitantes, na esperança de que tudo desse certo para ele, do fundo do meu coração. O mais incrível é pensar que, em um mundo de amores instantâneos e passageiros, existam pessoas que ainda se preocupam em cortejar e revelar os verdadeiros sentimentos para quem se ama. É por isso que eu não desanimo ao pensar em um dia encontrar o amor da minha vida: deve existir algum André, da minha idade, perdido por aí esperando que eu o encontre. Eu tenho esperança. Enquanto existirem pessoas como o pequeno André, o futuro dos românticos por excelência estará salvo. Tenho certeza disso.

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