Uma dose de desapego, por favor

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– Diga “trinta e três” – o simpático doutor disse enquanto examinava a paciente jovem com semblante cansado.

– Trinta e três – ela repetiu desanimada, se esquivando do estetoscópio frio sobre suas costas.

– Aparentemente você não tem nada, minha querida. Tem certeza de que sentiu uma profunda dor no peito pela manhã?

– Estou absolutamente certa, doutor. Nunca senti nada parecido anteriormente… – ela suspirou ao terminar a frase. Seu namorado há muito havia partido e a deixado desolada no chão frio do apartamento. Ela nunca se permitiu chorar por ele, reprimindo o sentimento até a manhã daquele dia ensolarado. – Sabe o que é? Ultimamente tenho sentido um enorme vazio aqui dentro, desses que arrebentam a gente por completo…

– Você sente saudade de algo?

– Sim. – ela não conseguiu evitar pensar no amor do passado. Tudo o que viveram fazia muita falta, porém ele já havia encontrado outra pessoa. Eles nunca voltariam. – Sinto falta do meu ex-namorado. Sabe quando sua vida está perfeita e você crê que tudo vai dar certo e de repente um caminhão de entulho cai sobre os seus sonhos, desmoronando completamente a sua esperança?

–  Claro, claro. Amores passageiros são uma constante na vida de vocês jovens. Uma hora ou outra você encontrará alguém que a transborde de alegria. Alguém que realmente valha a pena. – o médico a olhava ternamente por cima dos pequenos óculos. – Existem dois remédios infalíveis para essa sua doença.

– Não sabia que mal de amor tem cura, doutor. – o rosto dela iluminou-se como se houvesse encontrado o pote de ouro no fim do arco-íris.

O médico rabiscou algo com sua letra precisa e confusa no papel e entregou à moça. Os olhos dela correram pela receita e entenderam que aquilo que sentia finalmente teria um fim.

– “Uma taça de vinho tinto uma vez ao dia e várias doses de desapego. Este pode ser usado sem moderação”. – ela leu. – Tem certeza que isso funciona?

– Eu mesmo já experimentei e garanto que funciona. Use o desapego toda vez que essa dor no peito tornar a aparecer. É tiro e queda.

Ela sorriu para o médico e sussurrou um “obrigada” repleto de sinceridade. Saiu do consultório determinada a esquecer o ex de uma vez por todas e aproveitar aquele lindo dia de sol. Desapego. O remédio viria bem a calhar.

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