Relíquias antigas nem sempre são o que parecem ser

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Meus dedos estavam vermelhos por conta da pipoca doce – groselha sempre me agradava desde pequena. O sol do meio dia ameaçava me deixar com uma dor de cabeça épica, dessas curadas com uma boa dose de sono. A praça estava cercada por pombos e eu descobri que o medo que eu sentia deles não havia melhorado. Quando pequena, ouvia minha mãe dizer que eles transmitiam doenças capazes de cegar uma pessoa e até amputar-lhe um braço. Talvez aquilo tudo não passasse de superstição, mas quem sou eu para arriscar? Encarava aqueles pequenos containers de tudo-o-que-há-de-ruim-no-mundo como um jogador de xadrez profissional encara o seu oponente. A qualquer sinal de perigo, largaria minha deliciosa pipoca e sairia correndo. Não havia ninguém além de mim, os pombos ameaçadores e um velho que varria o chão, ao longe, naquela praça. A fonte estava desligada, quebrando toda a magia de ver o pequeno cupido cuspindo água sem se cansar. O dia estava estranho, mas a culpa era daqueles pesadelos terríveis que eu tive durante a semana.

De repente, os pombos voaram para longe assustados: o velho os espantava com uma enorme vassoura, feita com enormes folhas secas.

– A senhorita não simpatiza muito com eles, não é mesmo? – ele disse, vindo em minha direção, apontando para mim um indicador calejado pelo peso dos anos.

– Acho que ninguém vai muito com a cara deles. Eles trazem doenças. – coloquei a mão sobre a testa, escondendo o sol e enxergando-o melhor. Ele vestia um jaleco bege desbotado e um par de galochas brancas, mais úteis em tempos chuvosos. Uma inscrição bordada com letra cursiva jazia sobre o lado direito de seu peito. “S&P – Varrendo sem parar desde o início dos tempos”.

– Besteira. Os humanos dizem isso só para os pobrezinhos viverem sem um lar. Você já viu um canário ou um rouxinol comendo migalhas em praças? – ele sentou no espaço vazio do banco ao meu lado e retirou o boné rasgado na aba. Apenas alguns fios de cabelo lhe restavam. – Acho isso uma injustiça das grandes.

– Mas está cientificamente comprovado que pombos transmitem doenças. Não sou eu quem está falando, é a ciência… – eu fitava o último deles, ainda mordiscando um pequeno pedaço de pão ou talvez o concreto.

– Mais uma besteira. Não se pode acreditar em cem por cento do que aqueles babacas afirmam. Docinho acredite em mim… Eu sei das coisas. Sei também que a senhorita anda sendo perturbada durante o sono, não é mesmo? – ele me olhava com aqueles olhos cobertos por uma película branca, escondendo o que outrora já foram azuis.

– Como é que você sabe? – por incrível que pareça não me assustei com a pergunta. Minha vida andava tão estranha ultimamente que o fato de um velho me perguntar algo tão particular não me afetava.

– Meu chefe. Ele me mandou aqui.

– Seu chefe? Ele me conhece?

– Ele conhece todos. Todo mundo mesmo. – ele apoiou o queixo no cabo da vassoura e olhou o céu. – Se não fosse ele, você não estaria aqui. Muito menos o céu, as estrelas e esse saco de pipoca que você está comendo.

– Eu o conheço?

– Indiretamente. Muitos o conhecem, mas poucos sabem da verdade.

– Você pode me dar uma pista sobre quem é ele?

– Areia. Areia em todo canto. Então você dorme, dorme, dorme um sono profundo.

– Isso é um tipo de cantiga? – indaguei lambendo a groselha dos dedos.

– Chame como quiser. Você pediu uma pista, eu te dei. Agora é sua vez. Não posso terminar meu trabalho sem que você descubra o que eu vim fazer por essas bandas. – ele apontou a praça estranhamente vazia.

– Poeira… Dorme um sono profundo… Mas que droga, a última charada que eu respondi foi aos onze anos durante uma aula de gramática… – eu disse observando a quietude daquela praça.

– Mais esforço, você consegue. A não ser que queira tirar um cochilo… – ele colocou a mão em concha e deitou a cabeça por cima. Sonhos. O chefe dele tinha relação com sonhos.

– Sonhos. Dorme, dorme, dorme. Areia em todo canto. Areia… Tem uma história que minha mãe contava antes de eu dormir. “João Pestana”. Ele colocava areia nos olhos das crianças e elas caiam no sono. Por isso a gente acorda com aquela “areinha” no canto dos olhos. Seu chefe é o João Pestana?

– Chame como quiser. Morfeu, Homem-Areia, Rei do Sono, João Pestana…

– E o que ele quer comigo?

– Uma trégua, digamos.

– Trégua? – ele voltou a me encarar, com um sorriso maluco nos lábios. Ele provavelmente não batia bem da cabeça.

– Deixe-o ir, Amélia. Para sempre.

– Deixar quem ir?

– Alex. Esse nome te lembra de algo?

Alex. Tudo o que eu mais tinha de precioso se fora. Nossos filhos, nossas viagens, nossas danças, nossos encontros, nossos momentos juntos… Tudo por conta daquele acidente inconveniente. Meu Alex havia morrido há uma semana e desde então não conseguia pregar o olho sem repassar a cena total daquele dia. Estávamos no carro, ele desviou a atenção para trocar a estação de rádio, tocava “Walking on Sunshine” e de repente tudo se transformara em um misto de gritos, vidro quebrado e sangue. Ele morreu e eu continuava viva. Aquilo era injusto.

– Alex. – foi tudo o que eu consegui dizer. Aquela praça era o nosso divertimento dos fins de semana. Comíamos pipoca doce até não sobrar espaço para mais nada. Ríamos como duas crianças, víamos os bebês em seus carrinhos olhando os pombos e planejávamos ter os nossos filhos algum dia. Mas, agora, a única coisa que me restava era a lembrança dele.

– Seus pesadelos andam abalando o nosso mundo.

– Qual mundo? – as lágrimas caiam pelo meu rosto, enquanto eu limpava as mãos sujas de groselha na minha calça jeans.

– O mundo dos sonhos, oras. Nada irá funcionar corretamente se você não melhorar. E ele está bravo com você. Tenho certeza de que não vai querer experimentar a ira do poderoso Morfeu.

– O que eu tenho que fazer? Tomar uma poção, fazer alguma magia? Isso tudo é uma idiotice… Eu vou embora agora. – me levantei prestes a pegar o carro e voltar ao apartamento. Mas onde eu havia deixado o carro?

– Você não vai. Não percebe que tudo isso é um sonho? Seu sonho? – ele apontou para a estranheza do vazio e do silêncio que se deitava sobre aquele lugar. – Não tem para onde correr, doçura. Aceite o fato sem resmungar.

Voltei ao meu posto anterior e encarei o velho.

– Tudo bem. Isso tudo é muito confuso, eu estou realmente assustada e só quero ir embora. O que eu devo fazer?

– Deixá-lo ir. Deixe o Alex ir embora. Você não teve culpa do que aconteceu, tome consciência disso… – ele colocou a mão livre sobre o meu ombro esquerdo. – Você é inocente, menina. Não deixe que sua vida acabe junto com a dele.

– Mas se não fosse pelo meu capricho ele estaria vivo. – as lágrimas começavam a cair. – Se eu não tivesse insistido em sair naquele dia ele ainda estaria aqui…

– O destino muitas vezes é cruel, Amélia. Todos nós perdemos alguém que amamos algum dia. Logo, nós também iremos e deixaremos um buraco no coração de outra pessoa… Foi, é e sempre será assim.

– E o que eu faço agora?

– Convença-se de uma vez por todas de que foi uma fatalidade. Deixe o resto comigo.

– E o que você fará?

– Eu varrerei seus pesadelos para longe. Essa é a minha função.

– E tudo ficará bem novamente?

– Sim. Eu prometo.

Dizendo isso, o velho tirou um relógio antigo do bolso, pendurado a uma corrente de ouro.

– Gostei do seu relógio. É uma herança de família?

– Não é um relógio qualquer. Ele conta os dias, as horas, os minutos, os segundos e os milésimos de segundos que cada pessoa ainda tem na Terra.

– E o que o meu marca?

– Ah, minha querida, você ainda tem muito que viver. – ele disse, enxugando uma de minhas lágrimas. – Você acordará em três, dois, um…

Dizendo isso, tudo o que estava a minha volta tornou-se um enorme redemoinho escuro. Todas as lembranças de Alex passaram diante dos meus olhos e eu tive que reprimir o choro. Ele estava em um lugar muito melhor. Preferia pensar assim.

Acordei no meu quarto, sem saber ao certo se estava feliz ou triste, apenas com uma vontade imensa de recomeçar.

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