{Ser} poeta

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Ser poeta vai muito mais do que apenas escrever palavras bonitas. Ser poeta é sentir. Sentir a essência do vento, da chuva, das batidas de um coração apaixonado, do sol, das flores… Sentir a essência da vida. Ser poeta é quebrar barreiras inimagináveis a procura do mais sublime dos sentimentos: o amor.

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Muso

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O lápis martela as linhas, mas nada é lapidado

Sinto falta de quando conseguia fluir por elas sem o mínimo de esforço.

O traço do desenho não é mais o mesmo.

Palavras faltam

Palavras fogem

Palavras correm

Para você.

Queria ser Neruda, Shakespeare, Pessoa…

Mas sou apenas uma obra inacabada

Que acabou de te perder.

Os versos perderam o brilho,

o poema perdeu o trilho,

o céu perdeu a cor.

Ah, se eu voltasse a te encontrar

Talvez a inspiração voltasse

Talvez a lágrima parasse

E tentasse não mais cair.

Talvez um dia você perceba

Que tudo o que escrevi foi para ti

(Até mesmo esse poema-prosa frouxo sem nexo, emoção e calor.)

Tudo isso é para você, amor.

Fantasma

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 Durante a noite, você ronda o meu quarto. Ao fechar os olhos, vejo teu rosto e escuto tua voz sendo trazida pelo vento. Encolho-me ainda mais em minha cama. Por que você não vai embora de vez? Talvez não saiba o estrago que está fazendo aqui dentro.

Tudo começa com um olhar, um sorriso, um gesto. Eu, boba como sempre fui, deixo-me encantar facilmente pela cor dos seus olhos, pelo seu perfume e pela brancura de sua pele.

O barulho das correntes e o tilintar do som de sua risada permanecem ecoando pelas paredes. Juro que vi um vulto na janela. Mas não era você.

Estou apaixonada por lembranças suas. Por pequenos momentos vividos e muitos outros que ainda virão – ou não.

Acontece que não quero me apaixonar por um fantasma. Pelo seu fantasma. Não mais.

Casas amaldiçoadas não existem. O que existem são corações ameaçados por assombrações de quem já não se importa mais ou que nunca se importou.

Não quero ser a garota vestida de branco, gritando assustada na janela, pedindo abrigo e escancarando os pulmões a gritar teu nome. Quero você aqui comigo. Carne, osso e coração pulsando.

Emma

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 Não havia absolutamente ninguém naquele vagão e isso me assustava. Lá fora, a chuva açoitava as janelas e o mundo tornava-se um borrão cinza e triste. Encostei a cabeça no encosto do acento tentei tirar um cochilo, sem sucesso. Apenas fleches apareciam sob minhas pupilas: minha esposa Emma vestida de branco. Era nosso casamento, mas ela não era a mesma Emma de antes. Eu a reconheci pelos enormes cabelos ondulados e negros, dos quais ela se orgulhava como nenhuma outra mulher. Sua pele agora era de um branco deprimente. No fleche seguinte, estávamos sentados em um gazebo enfeitado por flores brancas.

– Não olhe para mim, amor. – ela disse com uma voz suave que eu não reconhecia. – Você não se acostumará fácil com o que eu sou agora…

– Emma, eu sinto a sua falta. – minha voz falhou.

– Eu também sinto, Eddie. Mas somos de mundos diferentes. Queria tanto ir para casa e sentir o calor da lareira…

Ao dizer isso, toquei de leve sua mão. Ela estava gelada como se houvesse passado a vida inteira em um frigorífico.

– Por Deus, você está congelando… – eu disse, colocando meu casaco pesado sobre seus ombros. – Vamos para casa, Emma.

– Não adianta. Eu nunca vou conseguir me esquentar. Nunca… – ela disse com a mesma voz suave, porém distante.

Emma virou-se para me olhar no fundo dos olhos. O último fleche foi o pior de todos: seu rosto não era o da menina que aceitou ser minha namorada no colegial. As covinhas meigas que descansavam sobre suas bochechas davam lugar a enormes vincos. Seus olhos injetados de sangue me fitavam calmamente. Ela abriu um sorriso, mostrando enormes dentes monstruosos e me atacou com garras afiadas. Havia sangue por toda parte e, mesmo decapitado, pude vê-la pela última vez através de meus olhos mortos. Ela saboreava meu próprio sangue em uma taça de vinho.

Acordei em um sobressalto, derrubando minha pasta do escritório e o copo de café, já frio. Era idiotice sonhar coisas daquele tipo. Desde o afogamento de Emma, nunca sonhei nada parecido. Aliás, nunca mais tinha conseguido sonhar com ela. Os bombeiros não encontraram seu corpo levado pela enxurrada e eu preferia assim. Apesar de terem desistido das buscas, lá no fundo do meu coração havia alguma ponta de esperança de que ela voltaria a me receber sorrindo depois do trabalho, o cheiro de alho refolgado na panela, ela sorrindo em seu vestido amarelo florido… Lembranças distantes que cada vez mais tornavam-se estranhas.

Me abaixei para pegar a pasta e, quando levantei a cabeça convicto de que iria encarar novamente aquele espaço vazio, havia alguém no acento da frente. Uma mulher. Ela traçava círculos no vidro embaçado. Seus cabelos escuros e pesados caíam pelas costas. Não consegui me mover. Minha circulação sanguínea congelou, tentei chamá-la pelo nome, em vão. Emma levantou-se, ainda vestindo o mesmo jeans e a camiseta branca com a qual estava quando desapareceu. Ela estava encharcada dos pés à cabeça.

– Vai ficar me olhando assim sem dizer nada? – ela veio em minha direção, com passos curtos e ritmados.

– O-o que vo-você quer comigo? – gaguejei.

– Vim te ver, amor! Passamos tanto tempo longe um do outro, não é? – dois anos, para ser mais exato. Ela sorriu para mim e, para o meu alívio, os dentes dela eram os mesmos de sempre.

– Como você pode sumir assim, sem explicação? Passei noites e mais noites procurando você! Por que não me deu notícias, Emma? –  eu a olhava incrédulo.

– As coisas não são tão simples agora… – ela pareceu triste. Seus olhos vermelhos olhavam a chuva lá fora. Ela suspirou. – Eu não tive alternativa, Eddie.

– Eu te esperei todo esse tempo, pelo amor de Deus! – agora eu gritava com ela. – Nem um telefonema você me deu! Acha justo? Eu sofrer por tanto tempo e você aí viva?

Viva é uma palavra que não se encaixa mais no meu vocabulário. Olha pra mim! Eu pareço uma pessoa viva? – ela apontou para o próprio corpo. Sua pele, antes branca, assumia o mesmo tom que eu tinha visto no sonho. Ela parecia mais forte, ágil, porém a doçura de antes ainda a envolvia.

– O que aconteceu com você?

– Fui encontrada por um grupo bem esquisito. Esquisito no começo, é claro. Agora eles são minha família.

– Grupo? E por que eles não me procuraram?

– Digamos que eles não convivem amigavelmente com humanos.

– Mas agora você vai voltar pra casa, não vai? – quebrei todas as barreiras do medo e segurei a sua mão. Afaguei de leve e ela fechou os olhos.

– Sinto saudade do calor. Sinto saudade da sua pele, do seu cheiro…

– Então volte comigo. Pra sempre.

– Não posso. – ela soltou a mão da minha e fitou mais uma vez meu rosto. – Eles logo virão atrás de mim e acabarão matando você. Você ficará seguro em casa.

– O que você é agora? – eu não queria saber, mas me obriguei a perguntar.

– Você não vai querer saber. Tenha certeza disso. – ela colocou uma mecha de cabelo solta atrás da orelha. – Eu estou bem. Apenas sinto saudade de tudo…

– Eu também sinto sua falta. – baixei a cabeça e reprimi o choro. Ela não precisava ver aquilo.

– Tenho que ir agora. Foi bom te ver de novo, Eddie.

– Promete que vai aparecer mais vezes? Nossa casa ainda te espera.

– Vou fazer o possível. – ela se aproximou de mim até ficarmos cara a cara. Delicadamente colocou os lábios pálidos e frios sobre o meu pescoço e fincou delicadamente os dentes. Ela arfou baixo. Não consegui afastá-la. Eu a amava e aquilo era o que ela havia se tornado. Ela não me machucaria.

– Me transforma? – eu supliquei. – Me leva junto com você?

– Não é tão simples assim. Isso dói e você tem que abrir mão de muitas coisas. Eu daria qualquer coisa para voltar ao passado. – Emma disse, enxugando uma gota de sangue no canto da boca. Em um piscar de olhos ela já estava de pé. – Tudo vai ficar bem. Algum dia. Isso sim eu posso prometer.

Eu a olhei pela última vez.

– Toda vez que chover eu estarei mais perto de você. Lembre-se disso.

– Onde eu posso de encontrar?

– Dentro do seu coração, aonde sempre vou estar.

Emma lançou um beijo no ar, dizendo “adeus”. No mesmo instante, voltei a raciocinar. Parecia que tinha acabado de sair de uma sessão de hipnose. Mas, no fim das contas, era apenas o cansaço do final do dia. “Sonho esquisito”, pensei. De alguma maneira, eu sabia que Emma não voltaria e que ela estava de certo modo viva. Jurei ver cabelos ondulados esvoaçando pelo ar quando desci na estação e peguei um táxi. No meu pescoço havia dois pequenos furos e deles uma tímida gota de sangue escorreu.

“Era uma vez um…

“Era uma vez uma garota que amava, sonhava, chorava, se preocupava e esperava intensamente por alguém que a quisesse como ela realmente era. Os anos se passaram, nada aconteceu e ela se cansou. Se cansou de amar, sonhar, chorar, se preocupar e esperar intensamente por alguém que a quisesse como ela realmente era. Seu coração hoje em dia é cercado por espinhos e erva daninhas. Não há quem tenha coragem de encarar sua melancolia.”

Clichê

ImagemMuito prazer em conhecê-lo, me chamo Clichê. Adoro me apaixonar por pessoas erradas e que nunca me darão atenção. Ler romances é um dos meus hobbies prediletos: adoro me colocar no lugar das mocinhas indefesas e receber juras de amor que nunca receberei na vida real. Filmes deprimentes são uma boa pedida para o sábado à noite. De preferência desacompanhada e no total escuro do meu apartamento. Sempre.

Tenho a mania de fantasiar tudo o que desejo ou vejo. Invento inúmeras situações felizes e tento a qualquer custo vivê-las com alguém que me ame também. Essa última parte é um pouco complicada, mas para tudo há solução. Cumprimento todos na rua com um enorme sorriso e comigo não há tempo ruim – apenas quando choro a noite toda no travesseiro, ouvindo “All By Myself”, lembrando que meu ex-namorado encontrou outra garota. Isso dói.

Muitos não gostam de mim. Outros adoram me envolver em músicas, novelas, relacionamentos, falas e textos perdidos por aí.

Não sou uma má pessoa, apenas repetitiva demais. Você se incomoda? Se não, puxe uma cadeira e escute uma das minhas histórias já conhecidas. Caso contrário, a porta da rua é serventia da casa. Argumentar com ditados populares é tão eu.

Sobre lembranças

ImagemVocê estacionava o carro e subia as escadas assobiando alguma música que só fazia sentido na sua mente. Pegava a chave embaixo do tapete de boas vindas e destrancava a porta. Muitas vezes eu te esperava assistindo tv e comendo pipoca. Em outras ocasiões, dormia sozinha e, quando acordava, via seus braços ao meu redor.

Lembra aquela vez em que você tentou me ensinar a nadar? Quase morri afogada, mas só de ver seu sorriso triunfante valeu a pena.

Nós riamos como se não houvesse amanhã. Víamos o sol nascer, víamos o sol se pôr e admirávamos a lua como os poetas do Romantismo faziam.

Só que agora tudo isso está envolvido por uma enorme cortina branca no fundo de algum lugar inabitado. Não lembro mais do seu rosto e não consigo fazer outra coisa além de tentar encaixar o que sou agora com o que era antes. Com o que fomos em algum lugar do passado.

As fotos estão espalhadas pelo chão do quarto e as memórias voltam em pequenos fleches. Sei que irei conseguir dar um rumo a toda essa confusão. Afinal, a única certeza que eu tenho é que te amo com o máximo que posso – e lembro.