Lá fora e aqui dentro, a chuva

Tumblr_meo4jnnloz1qg6bf6o1_1280_large

Estaciono o carro e subo para o apartamento. Passo a chave na porta, destrancando-a e entro. A jaqueta de couro dele ainda está sobre a cadeira. Sento na escrivaninha, na tentativa de obter alguma inspiração para escrever, tamborilo os dedos impaciente e observo os porta-retratos que me mostram fragmentos de lembranças do nosso passado. Nossa primeira foto, nossos primeiros sorrisos cúmplices, nosso primeiro beijo. Lembro perfeitamente daquele dia, no qual quebrei todas as minhas barreiras idealizadas e segurei a mão dele pela primeira vez. Era março, uma tarde chuvosa e fria, mas aquecida por conta dos nossos corações. Tínhamos dezessete anos e experimentávamos o amor pela primeira vez.
– Posso encostar a cabeça no seu ombro? – eu disse timidamente, um pouco ruborizada.
– Claro que pode… – ele riu baixo, não acreditando na pergunta que eu acabara de fazer.
Fui chegando de mansinho, o coração acelerando ao mesmo tempo em que eu respirava aquele perfume. De repente tudo fazia sentido. Aquele lugar me pertencia.
– Seu ombro é confortável. – falei por impulso. – Quente e aconchegante.
– Ele pode ser seu para sempre. – ele sussurrou no meu cabelo, enquanto passava o braço pela minha cintura.
Se a minha coragem naquele momento não falasse mais alto, teria permanecido inerte, apenas saboreando aquelas palavras. Mas não: encarei como gente grande o fato de que ele também me amava e o olhei bem no fundo dos olhos. O tempo foi desacelerando, nossas mãos se entrelaçando e, finalmente, nossos lábios se encontraram, nos fazendo sentir um misto de alegria e saudade de algo vivido apenas no nosso imaginário.
Agora somos apenas eu, a saudade e a chuva fina lá fora. Me levanto e vou ao quarto, mas ele não está lá para me receber com beijos e palavras carinhosas. Na cozinha, procuro por uma taça de vinho, mas creio que a última garrafa tomamos mês passado. Sento e fico observando as pequenas gotas escorrerem pela janela. Não me permito chorar. Já encarei muitas perdas ao longo da vida e estou aqui, não estou? Depois de muito pensar em nós dois e tentar encontrar alguma explicação para o nosso término repentino, decido ir para o chuveiro. Ele não voltará, não viveremos nosso “pseudo conto de fadas” novamente e muito menos teremos um futuro juntos. Sou crescida o suficiente para admitir.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s