She’s lost control again

ImagemAcorda atrasada para o trabalho, percebe que o relatório não está pronto, ela perde o controle. No trânsito, para-choque amassado, motorista nervoso, ela perde o controle. Copos e mais copos de café, papeis impressos, emails enviados, hora do almoço demorando a chegar, ela perde o controle. Broncas do chefe, reclamações de clientes, emails recebidos, mais reclamações, ela perde o controle. Horário de saída, chuva pesada, granizo, trânsito, ela perde o controle. Rádios sem recepção, cd arranhado, falta de paciência, dedos tamborilando no volante, ela perde o controle. Buzinas, semáforo vermelho, pedestres apressados, acidente em frente, mais trânsito, ela perde o controle. Encosta o carro numa cafeteria, abre um livro, personagem favorito morre, ela perde o controle. A chuva passa, volta ao carro, dirige até o prédio em que mora, perde a chave do apartamento dentro da bolsa, ela perde o controle. Revira o carro, os papéis, mais uma vez a bolsa, encontra a chave, entra no apartamento, sofá rasgado, ela perde o controle. Briga com o Rex, anda de um lado para o outro, senta na cadeira, liga para a pizzaria, ninguém atende, ela perde o controle. Entra no quarto, liga o chuveiro, resistência queimada, água gelada, ela perde o controle. Desiste da pizza, do banho, do trabalho, do cachorro, cai na cama e dorme. Ela se controlou.

Renda Negra

“Eu caminho ao seu lado e as trevas abandonam a minha alma. Eu caminho com ela e ouço o som de poderosas asas.” (“Sandman”, Neil Gaiman)

ImagemPânico. Jimmy entrava em pânico e não sabia mais o que estava prestes a fazer com o seu futuro. Aquele era o quinto copo de conhaque que bebia e os sentidos dele já estavam completamente confusos. Lágrimas banhavam seu rosto e uma agonia profunda rondava seus últimos resquícios de esperança. O bar ficava longe da cidade, na beira de uma estrada pouco movimentada. Estava quase vazio, exceto pela presença de um velho que acariciava o dorso de um vira-lata magricelo e a garçonete loira, uma cópia cansada e desanimada da Barbie. Ela usava um crachá escrito “Susan”, o que deu a Jimmy uma certa intimidade para chamá-la pelo nome:

– Susan, minha boneca… – ele chamou, em meio a soluços. – Você pode encher meu copo? Juro que é a última vez. – a fala saía entrecortada. Ele logo perderia os sentidos.

– Você tem certeza, senhor? Acho que você está exagerando. Já é o quinto copo e logo mais fecharei o estabelecimento. – a moça tentou alertá-lo do possível coma alcoólico que aconteceria. – É melhor você ir para casa.

– Casa? Um vagabundo encrenqueiro como eu não merece uma casa. Aliás, você sabe me dizer o significado de casa, minha querida Susan? – Jimmy apontava o indicador para a moça atrás do balcão. Ela era paciente até demais, ao ponto de dar ouvidos àquela conversa.

Casa é o local onde moramos, senhor. Onde cozinhamos, dormimos, assistimos televisão… Casa é uma construção onde vivemos. Pelo menos foi isso o que me ensinaram. – ela deu de ombros.

– Nada disso. Casa é o lugar onde seus filhos e sua esposa vivem. Onde se faz almoços para o Dia de Ação de Graças. Onde se vive em paz, onde você faz planos para o futuro… Casa é onde você se sente feliz e seguro. Não o lugar em que você encontra sua esposa e seu melhor amigo na cama. Isso não pode ser chamado de lar. Inferno seria um termo mais apropriado.

– Eu sinto muito. Muito mesmo. – Susan sabia como ninguém o peso de uma traição. Seu ex namorado acabara de noivar com a amante e ela sentia-se a pessoa mais desiludida do mundo.

– Minha vontade era de matar aqueles dois safados. Mas sabe porque eu não fiz isso? Porque eu sou um burro. Um idiota que alimentava a relação dos dois sem saber. E sabe de outra coisa? Meu filho dormia enquanto os dois se encontravam escondidos. Meu pequeno Tom, tão inocente… – Jimmy parou a as lágrimas começaram a cair, em uma torrente cheia de ódio. A pobre garçonete, compadecida pelo sofrimento do homem, encheu ainda mais o copo com conhaque, pois sabia que aquele era o único remédio capaz de reprimir toda a dor que ele sentia.

– Mas você pode dar o troco nela, acredite. Arrume outra mulher. Você é bem apessoado, com todo respeito. Mulheres não faltarão… – Susan tentava confortá-lo. Ela não suportava ver pessoas chorando. Tinha um grande coração. – Você não pode viver o resto dos seus dias preso à essa espelunca. Você é jovem e tem muito o que viver ainda. Eu sei que dói, mas fazer o quê? A vida sempre encontra um modo de nos dar uma rasteira.

– Eu já gastei tudo o que eu tinha essa semana, garota. Apostei até as últimas moedas e perdi. O que me resta agora? Não tenho esposa, não tenho um lar, não tenho coragem de ver o Tom… Que vergonha para ele ter um pai como eu. Um desequilibrado prestes a acabar com toda essa dor. Ele vai entender. Ele vai me perdoar algum dia. Eu espero. – dizendo isso, Jimmy tirou um revólver do bolso de seu casaco escuro e pesado. Susan imediatamente afastou-se do balcão, implorando para que ele não fizesse uma bobagem.

– Apenas pegue suas coisas e saia daqui. – a visão de Jimmy era turva, a Barbie agora era apenas um borrão assustado, se apressando para pegar seus pertences. – Eu não vou te machucar, coração. Apenas vá embora.

– Não faça uma besteira, pelo amor de Deus. Pense no seu filho.

– Ele ficará bem sem mim.

Susan puxou o velho pelo braço e saiu do bar apressadamente. Discou no celular o número da polícia de Seattle, relatando a emergência.

– Mundo cruel… Aquela vagabunda acabou com minha dignidade, acabou comigo. Deus, ou sei lá quem aí de cima, porque eu? Sempre fui à Igreja aos domingos, sempre tive . Homens de fé passam por isso? – Jimmy balbuciava enquanto colocava uma bala no revólver. Roleta russa. Acabaria com tudo naquele momento.

– O pior é que passam, Jimmy. – uma voz surgiu abrindo a porta.

– Susan, eu já mandei você ir embora! – ele gritou, perdendo a calma.

– Eu não sou a Susan. Ela está correndo como uma louca pela estrada, junto ao velho e àquele lindo cachorrinho. Foi uma indelicadeza da sua parte tê-la assustado. – a figura branca e de cabelos longos e muito negros sentou-se ao lado de Jimmy. Usava um vestido rendado preto e botas até o joelho da mesma cor. A maquiagem era igualmente carregada. Tinha estatura mediana e sorria como a pessoa mais feliz do mundo. Jimmy realmente não sabia decifrar a idade dela.

– Quem é você e o que você quer de mim? – Jimmy se afastou, assustando – se com a aproximação repentina da moça. – Você deveria procurar um cemitério, não um bar no meio do nada. Vocês góticos têm cada mania…

– Eu não sou gótica, bobinho. Apenas tenho uma queda por assuntos do outro mundo. – ela fez uma carinha infantil, como se dissesse “gostar de coisas funestas e me vestir assim é totalmente normal”. – Eu só quero conversar, Jimmy.

– Como você sabe meu nome?

– Digamos que eu sei das coisas. Próxima pergunta.

– Quantos anos você tem? Acho que você não tem idade para beber isso aí não… – Jimmy apontou para o copo de conhaque que a moça esquisita tomou em apenas um gole, sem ficar tonta.

– Digamos que eu sou muito velha. Velha o bastante para beber com você, amigão. – ela disse, fazendo sinal de positivo com o polegar. Jimmy começou a cogitar se aquilo tudo não passava de um delírio, algum efeito macabro causado pelo álcool.

– Eu não estou bem. Você não está aqui, isso tudo é uma viagem das grandes. Uma tremenda viagem.

– Deixa de ser bobo. Eu tô aqui. Do seu lado. Juro. – ela beliscou o braço de Jimmy e riu com a cara dele de espanto. – Qual é, eu não vou beber o litro todo. Apenas algumas doses, se você permitir, é claro.

– Fique à vontade. Nunca vi uma jovem virar um copo de conhaque e não ficar zonza, no mínimo. Você é um ser do além? Um vampiro? Um fantasma?

– Vamos deixar isso para depois, vai? Sério, apresentações formais são tão démodé… – ela sorria sem parar, mostrando uma bela fileira de dentes brancos.

– Você é esquisita, mas até que é legalzinha… – por um minuto, Jimmy esqueceu seu grande problema e se permitiu sorrir mais uma vez. Ou talvez pela última vez.

– Vou aceitar o “esquisita” como um elogio. Essa sociedade deveria parar de julgar a aparência dos outros. Qual é o problema de usar preto vinte e quatro horas por dia e ouvir Bauhaus? Fala sério… – ela parou com a mão no queixo e girou o corpo sobre o banco para encarar Jimmy pela primeira vez. – Esquece. Vim aqui para conversar com você. – ela mudou o tom de voz. Pela primeira vez, desde que entrara naquele lugar, falou seriamente. – O que aconteceu com você, campeão? – ela deu um pequeno soco no antebraço de Jimmy.

– Quer mesmo falar sobre isso? Acho que não é uma ótima história para crianças… – ele disse, observando o Olho de Hórus desenhado perfeitamente no canto do olho esquerdo da garota. “O olho que tudo vê”, ele pensou, lembrando da aula sobre Egito Antigo que teve na escola.

– Acho que já passei da idade de dormir enrolada no cobertor com medo do bicho-papão. Pode começar.

– Quando eu tinha oito anos fui violentado pelo patrão do meu pai. No começo, não conseguia conversar sobre isso com ninguém da minha família. Tinha medo de que ele fizesse algo mais sério comigo. Ou com o meu velho. – Jimmy colocou o revólver sobre o balcão, sentindo-se um pouco mais aliviado em poder desabafar em alto e bom som. Aquela estranha o deixava confortável e parecia interessada na triste vida que ele tinha. As palavras jorravam como água em uma fonte. – Os abusos seguiram por mais dois anos e eu continuei calado. No dia em que completei dez anos, meu pai me levou a um jogo de beisebol e eu contei tudo o que tinha acontecido. Ele foi atrás do patrão, eles discutiram e meu velho voltou para casa com a cara quase desfigurada. Eu me senti culpado e prometi para mim mesmo que nunca mais contaria para alguém nada do que acontecesse comigo. Não queria que ninguém mais se machucasse. O patrão dele fugiu, com medo de ser preso. Foi encontrado morto três semanas depois dentro do apartamento luxuoso que ele tinha em Nova Yorque. Uma prostituta o esfaqueou.

A garota ouvia tudo com muito cuidado, como se tomasse nota mentalmente. Jimmy era um homem bom.

– Depois disso, achei que nada de ruim poderia me acontecer. Até o Dean aparecer na minha vida e quase acabar com tudo. Eu estava na sexta série e me apaixonei pela primeira vez. Sarah era o nome dela. A garota mais linda da classe. Ela era namorada do Dean. Um dia, tomei coragem e escrevi um poema para ela. Coloquei dentro de seu caderno, junto com uma rosa vermelha e fiquei esperando que ela me notasse. O Dean encontrou o bilhete primeiro do que ela e arrebentou minha cara na hora da saída. Voltei para casa sem a garota e com o nariz em pedacinhos. – ele sorriu, lembrando o fato. – Paro ou continuo? – ele perguntou para a mocinha observadora. Ela fez um gesto com a mão para que ele continuasse. Estava realmente interessada. – Pensei que nunca mais encontraria alguém para amar. Foi então que eu conheci a Mary no colegial. Eu era o típico nerd tímido. Ela tinha muitas dificuldades na escola e eu me propus a ajudá-la. Marquei de estudarmos na minha casa e, num ato de coragem, logo após o término da leitura de um soneto de Shakespeare, me declarei. Ela me deu um tapa na cara e ainda espalhou para a escola toda que eu havia tentado agarrá-la a força. Nunca mais tentei me relacionar com alguém durante minha vida escolar. Terminei a escola, não quis entrar em uma universidade, conheci a Madison e pensei que finalmente seria feliz. Meu pai morreu de ataque cardíaco quando completei dezenove anos e ela estava lá ao meu lado, segurando minha mão e dizendo que ficaria tudo bem. Minha mãe arrumou um cara alcoólatra e o colocou dentro de casa. Ele batia nela e eu pedia para que ela o expulsasse. Ela o amava de verdade. Trabalhei dia e noite, pedi a Madison em casamento e fomos morar em uma casa simples, comprada com muito suor. Não falo com a minha mãe há dez anos. Ela vive com o outro marido até hoje. – Jimmy parou e tomou um gole do conhaque que já estava quente. Respirou fundo e recomeçou. – O Tom nasceu sete anos depois do nosso casamento. Ele tem oito anos e é a coisa mais preciosa que aconteceu na minha vida. Ama jogar basquete comigo. Vai ser um jogador profissional quando crescer.

– Ele é um grande garoto, Jimmy, tenha certeza disso. O futuro dele já está traçado.

– Eu sei, eu sei. Totalmente diferente do meu, não é? – as lágrimas se acumulavam novamente no canto dos olhos dele.

– Ei, você ainda tem uma boa parte da história para me contar. Não chora não… – ela o olhava com piedade. Ele não sabia o porquê de tanta paciência e misericórdia nos olhos daquele pequeno ser.

– Há duas semanas, cheguei em casa cansado. Tinha trabalhado o dia todo e só queria deitar minha cabeça no travesseiro e dormir ao lado da minha esposa. Subi para o quarto do Tom. Ele dormia. Chamei a Madison, mas ela não respondeu. Fui até o nosso quarto, talvez ela estivesse dormindo e qual não foi a minha surpresa ao encontrá-la na minha cama com o Rob, o cara que eu considerava meu irmão…

– Há quanto tempo?

– Nove anos. Debaixo do meu nariz e eu não percebi. Acolhi aquele canalha sob o meu teto e ele me apunhalou. A Madison tentou se explicar, mas quem precisa de explicações diante de uma cena daquelas? E, como se não bastasse, a cereja do bolo foi saber que o Tom é filho dos dois. –  a voz dele falhou nessa hora. Toda a angústia que sentia voltava quadruplicada e era jogada para a fora em um surto de fúria. A garota apenas observava tudo calada. Ele tinha que desabafar com alguém. – Saí pela porta e jurei que nunca mais voltaria. Deixei os dois cobertos de vergonha na minha casa. A família que eu tanto desejei… Sempre fui um bom marido, nunca deixei faltar nada para ela e o Tom. O que leva uma pessoa que se diz fiel “até que a morte os separe” fazer isso, hein?

– Imbecilidade. Falta de noção. Ingratidão… Eu poderia escalar inúmeras palavras para descrever a situação e a índole da sua linda esposa, mas a que mais resume a Madison é: vadia.

– Isso. Uma vadia. É isso o que ela é.

– Não terminou por aí, né?

– Não. Depois daquela cena trágica e cômica que eu presenciei, larguei tudo e saí vagando por aí. Até agora estou tentando entender o que realmente aconteceu. Vivi essas duas últimas malditas semanas pulando de bar em bar como um idiota, apostando até o que eu não tinha, sem saber porque. Talvez uma maneira de esquecer toda essa bagunça que a minha vida virou. Me meti em confusão, estou sendo procurado por uns caras nada legais e estou bêbado. Eu que nunca coloquei um gole a mais de álcool para dentro da garganta. Olha a minha situação. – ele apontou para o olho com um enorme hematoma roxo. – Isso vai acabar logo. – ele pegou novamente o revólver e o olhou como se olha uma pessoa querida. – Vai ficar tudo bem… – dizendo isso, Jimmy encostou a arma na cabeça e apertou o gatilho. Nada. – Até nessa hora eu sou azarado? Mas que droga! Se você tem estômago fraco é melhor ir embora, mocinha.

– Você realmente quer acabar com tudo? Assim, simplesmente?

– É o que eu planejo.

– Eu já vi o seu futuro. Destino muitas vezes é um cara piedoso. Você terá uma nova chance. Permita-se isso, pelo menos mais uma vez… – ela tentava fazê-lo desistir dos pensamentos absurdos que lhe passavam pela mente. – Não precisa terminar assim.

– Você está dizendo que eu devo matar aqueles dois filhos da mãe?

– Nada disso: você desiste dessa bobagem, todo mundo vive, cada um segue um rumo diferente. Fim de papo.

– Não é uma boa ideia. Eu estou cansado. Cansado de ser chutado como um cachorro sarnento por todo mundo. Eu quero descanso…

– Aproveita que hoje eu estou boazinha. Não costumo abrir exceções para a vida…

– Quer dizer que você dita as regras do jogo? Escolhe quem morre ou quem vive?

– Digamos que sim. – ela sorriu deliciosamente mais uma vez, o rosto se iluminando. – Muito prazer em conhecê-lo, eu me chamo Morte. – ela estendeu a mão direita, cumprimentando-o.

– Eu te imaginava diferente. Nada de foices ou capuz escuro?

– Claro que não, querido! Tenho que seguir a tendência da moda gótica. – ela disse, apontando para o lindo vestido preto e seus inúmeros babados. – Vou te perguntar mais uma vez: você realmente quer isso?

– Eu quero morrer. Não existe mais espaço nesse mundo para mim. – Jimmy entregava-se como um réu confesso. Seu último fio de esperança se esvaia. Era hora de partir.

– Não precisa ser dolorido. Confie em mim. Tudo isso passará.

– Para onde nós vamos?

– Para um lugar onde não existe dor e sofrimento. Onde o sol brilha o tempo todo. Onde toca Led Zeppelin em todas as ocasiões. Eu sei que você gosta do bom e velho rock ‘n roll. Temos muito em comum.

– Agora você falou a minha língua.– ele ria e sentia-se confortável com a proposta. Largou a arma no chão. – E agora, o que eu faço? Já sei que você não vai arrancar minha cabeça com uma foice… – brincou.

Ela abriu os braços. Um convite. Jimmy aceitou aquele abraço como uma criança aceita uma caneca de chocolate quente no inverno. Ela era quente, apesar da palidez. Seus cabelos tinham o perfume de violetas. Uma cruz estranha pendia de seu pescoço. Ele não havia notado.

– O que significa isso? – ele perguntou, segurando o pequeno adorno prateado.

– “Vida após a morte”. É egípcio.

– Existe vida após… Você?

– Acho melhor conferir pessoalmente, que tal?

– É uma ótima proposta. Posso te pedir mais uma coisa?

– O que quiser.

– Mande um beijo para o Tom. Ele sempre será meu filho. Diga que eu o amo e sinto muito por isso. Ele irá entender.

– Pedido anotado, senhor. Vamos?

– Já passamos da hora, eu diria.

Morte abraçou Jimmy o mais forte que pode. Antes de fechar os olhos, jurou ter visto algo extraordinário. Asas. Um lindo par de asas negras se desenrolava das costas daquela simpática (e um tanto estranha) criatura. De repente não havia mais nada além da escuridão eterna. Ele se fora.

Os policiais chegaram ao local quinze minutos depois. Encontraram o corpo de Jimmy caído sobre o balcão, como se estivesse apenas tirando um longo cochilo. Um sorriso tímido jazia sobre seus lábios.

(A personagem Morte foi retirada da HQ “Sandman”, de Neil Gaiman. Qualquer semelhança envolvendo criaturas vivas ou mortas é mera coincidência. Juro.)

Acabou

Z217448845_large

Enquanto você arruma as malas, pensamentos me ocorrem. Te observo dobrar aquela camisa preta – tão linda – ganhada no seu último aniversário. Um presente daquela sua amiga ciumenta do trabalho. Sim, devo admitir que ela tem bom gosto. Mas não é somente isso que chama a minha atenção: seus movimentos. Movimentos de um homem decidido, forte, ágil e vivido. Por mais que tenha apenas vinte e cinco, te considero um velho. Ou pelo menos uma “alma velha”. Velho na maneira de se comportar, na maneira de se divertir, na maneira de me olhar e dizer que me amava com todas as letras do alfabeto. Acho que foi isso que me fez desistir de nós dois, muito antes de saber de todo o ocorrido. Essa insistência constante em ouvir um “eu te amo” arrebatador. Você sempre soube que eu não gosto disso. Sou muito mais atitudes do que apenas palavras.
Nossa, quanto tempo passamos juntos, não é? Tantas viagens mal sucedidas, tantas brigas insignificantes, tantas horas desperdiçadas ao telefone se lamuriando e pedindo desculpas. Digno de um dramalhão mexicano. Eu aqui parada, encostada na minha escrivaninha, com minha caneca de porcelana predileta e um chá de erva doce quentinho, olhando as lágrimas banharem seu rosto enquanto você desvia seu olhar do meu. Eu poderia sair pela porta e simplesmente deixá-lo só, mas eu prefiro me deliciar com essa cena linda, melodramática e com uma fotografia sensacional. Merecíamos um Oscar, amor. Eu de “Melhor Namorada-Traída-e-Injustiçada” e você de “Cafajeste do Ano”.
Seu último par de meias cai sobre todas as outras roupas e você fecha o zíper, um ultimato. Espero que você também tranque no fundo das suas malas todas as noites em que passei acordada esperando você chegar da “reunião de trabalho” (acho que Open Bar mudou de nome), todos os jantares improvisados e feitos com carinho, todas as horas desperdiçadas tentando te fazer feliz com o máximo que pude.
Agora, pegue toda essa sua falta de vergonha na cara, suas coisas e saia pela porta. Com a cabeça baixa, você se despede de um mundo fantástico, o qual nunca encontrará em outros braços, senão os meus. Saia e leve com você todos os momentos e seu arrependimento de agora. Espero, do fundo do meu coração, que ela te faça a pessoa mais infeliz do mundo. Enquanto isso, estarei muito bem acompanhada por alguém que me ama, me entende, me faz feliz, tem um ótimo gosto musical e uma inteligência incomparável: eu.

Lá fora e aqui dentro, a chuva

Tumblr_meo4jnnloz1qg6bf6o1_1280_large

Estaciono o carro e subo para o apartamento. Passo a chave na porta, destrancando-a e entro. A jaqueta de couro dele ainda está sobre a cadeira. Sento na escrivaninha, na tentativa de obter alguma inspiração para escrever, tamborilo os dedos impaciente e observo os porta-retratos que me mostram fragmentos de lembranças do nosso passado. Nossa primeira foto, nossos primeiros sorrisos cúmplices, nosso primeiro beijo. Lembro perfeitamente daquele dia, no qual quebrei todas as minhas barreiras idealizadas e segurei a mão dele pela primeira vez. Era março, uma tarde chuvosa e fria, mas aquecida por conta dos nossos corações. Tínhamos dezessete anos e experimentávamos o amor pela primeira vez.
– Posso encostar a cabeça no seu ombro? – eu disse timidamente, um pouco ruborizada.
– Claro que pode… – ele riu baixo, não acreditando na pergunta que eu acabara de fazer.
Fui chegando de mansinho, o coração acelerando ao mesmo tempo em que eu respirava aquele perfume. De repente tudo fazia sentido. Aquele lugar me pertencia.
– Seu ombro é confortável. – falei por impulso. – Quente e aconchegante.
– Ele pode ser seu para sempre. – ele sussurrou no meu cabelo, enquanto passava o braço pela minha cintura.
Se a minha coragem naquele momento não falasse mais alto, teria permanecido inerte, apenas saboreando aquelas palavras. Mas não: encarei como gente grande o fato de que ele também me amava e o olhei bem no fundo dos olhos. O tempo foi desacelerando, nossas mãos se entrelaçando e, finalmente, nossos lábios se encontraram, nos fazendo sentir um misto de alegria e saudade de algo vivido apenas no nosso imaginário.
Agora somos apenas eu, a saudade e a chuva fina lá fora. Me levanto e vou ao quarto, mas ele não está lá para me receber com beijos e palavras carinhosas. Na cozinha, procuro por uma taça de vinho, mas creio que a última garrafa tomamos mês passado. Sento e fico observando as pequenas gotas escorrerem pela janela. Não me permito chorar. Já encarei muitas perdas ao longo da vida e estou aqui, não estou? Depois de muito pensar em nós dois e tentar encontrar alguma explicação para o nosso término repentino, decido ir para o chuveiro. Ele não voltará, não viveremos nosso “pseudo conto de fadas” novamente e muito menos teremos um futuro juntos. Sou crescida o suficiente para admitir.

Dança no ar

Tumblr_mevqgsq39u1s0ocmko1_500_large

Dançar até o sapato descalçar
Até a alegria se esvair
Até o compasso parar
Até o riso surgir.
Dançar até a mente esquecer
Que a alegria de viver
Vai muito mais que o sentir.
Dançar até os pássaros voarem
E a calmaria de ontem
Se esvair em emoção.
Sonhar para que o outro passe
E com você corra
Dentro da escuridão.
Amar, sem fins nem promessas
Amar por amar.
Talvez depois de muito bailar
Você pare e não sinta mais nada.
Quem garante que quem ama
deve ser amada?

Sobre príncipes encantados, fadas e divergências amorosas

302820_382090111875838_219467267_n_largePríncipes encantados, fadas madrinhas e finais felizes não existem. Colocaram isso na minha cabeça quando pequena e desde então passei a acreditar que, para um relacionamento entre homem e mulher funcionar corretamente, a perfeição e as juras de amor eterno deveriam reinar entre eles. Qual não foi minha surpresa ao perceber que essa história de “homem e mulher perfeitos” não passa de ficção. Pois é. Fui enganada.
O que seria de um relacionamento se eu e o amor da minha vida gostássemos exatamente das mesmas coisas e tivéssemos opiniões completamente iguais?
– Amor, eu amo feijão branco.
– Eu também amo, amor.
– Amor, Edgar Allan Poe foi o maior escritor de todos os tempos!
– Concordo plenamente com você, meu ursinho…
Cá para nós, isso seria muito irritante.
E daí que eu goste de comer sorvete com batata frita e ele ache isso a coisa mais bizarra do mundo? E daí que ele torça para o Corinthians e goste de Matemática, mesmo eu achando que nada supera o Tricolor Paulista e as aulas de Literatura que tive na Ensino Médio? É assim que um relacionamento se constrói: divergências. Mesmo tendo gostos em comum (como aquela banda de rock progressivo dos anos 70) sempre discordaremos em algum ponto e isso fará uma baita diferença, pois não seremos completamente monótonos: aprenderemos sempre um com o outro e cresceremos juntos.
Eu não me importo se ele deixa a toalha molhada sobre a cama ou o copo de achocolatado sobre a pia, sem ao menos se dar ao trabalho de enchê-lo d’água. Ele não se importa se eu passo horas e mais horas tentando alisar os meus lindos cachos com meu secador de cabelo barulhento, enquanto ele tenta assistir o futebol santo de todo domingo. Uma hora ou outra aprendemos a conviver com essas pequenas diferenças e descobrimos que o que sentimos um pelo outro é mais importante do que a briga para escolher qual série de tv assistir na quarta-feira à noite.
No fim das contas, a única coisa que me importa é ele. Ele e o cabelo desarrumado e sem gel. Ele e os pacotes de Doritos e as latas de Coca Cola que nos servem de jantar. Ele e meu sorriso preferido. E, quem sabe assim, viveremos algum dia “felizes para sempre”. Ou talvez um pouco menos do que o “para sempre”.