Primeiro andar

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– Quer subir? – ela disse, ainda ofegante por conta do beijo. O olhar intenso dos dois, como ímãs de pólos diferente que não querem se desgrudar, as mãos dela ainda sobre a nuca dele, as mãos dele ainda ao redor da cintura dela. Um misto de vontade arrebatadora e calmaria de praia. Ele sorriu. Aquilo era um sim.

Duas horas antes eles estavam brigando. Uma taça de vinho derrubada no vestido cor de areia dela. Ele havia pedido desculpas. Ela não aceitou. E começaram.

– Olha por onde anda, cara! Mancha de vinho não sai de tecido – ela gritou e todos em volta olharam.

– Desculpa, moça. Foi sem querer, eu já disse… Eu pago outro vestido para você, não tem problema.

– Eu não quero nada seu. Vou embora, essa festa já não estava tão agradável, agora isso… – e saiu, os saltos batendo com força no chão branco e bem encerado. A festa, realmente, não era nem um pouco animada. E aquela tinha sido a gota d’água.

Ele foi atrás dela. Uma coragem animal fluindo por suas veias. Ele não a deixaria escapar. Apenas não sabia o porquê.

– Ei moça, volta aqui! – ele corria pelos corredores daquele grande salão de festas. Um casamento de gente rica. Cheio de fricotes e não-me-toques. – Deixa eu pelo menos saber seu nome, sei lá… Me desculpa mesmo… – os dois pararam o “pega-pega” e encararam-se novamente, dessa vez como adultos sérios. Ela e seu gênio forte. Ele e sua aura de anjo.

– Fala. – ela passou a mão pelos cabelos loiros na altura do ombro e colocou a mão na cintura, encarando-o.

– Posso pagar o vestido para você? Sem problemas ou ressentimentos?

– Vai parar de me olhar com essa cara de filhote de panda?

– Filhote de p… Tá, pode ser. Eu pago seu vestido, cada um vai para o seu canto e isso acaba aqui. Eu só preciso passar em um caixa para sacar o dinheiro. Me acompanha? É aqui perto.

– Eu andando com um estranho? Meus pais nunca permitiriam uma coisa dessas…  – ela parou e riu. Ele havia conseguido arrancar um sorriso daquele ser mal-humorado. Sentia-se um vencedor. – Vamos. Faço qualquer coisa para sair dessa festa de idosos. Nem um sonzinho dançante rolou…

Encararam a rua e lá se foram em busca de um caixa vinte e quatro horas. E, por incrível que pareça, não havia nenhum naquela região.

– Juro que tinha algum caixa por aqui… Talvez seja do outro lado do quarteirão e eu me confundi. – ele olhava para todos os lados, na esperança de que algum gênio da lâmpada aparecesse e com ele trouxesse notas de cem reais para reembolsar-lhe o vestido.

– A gente já passou por lá. Nada. Esquece, já é tarde e amanhã eu tenho que acordar cedo para o trabalho. Você estragou meu vestido, mas eu te perdoo. Vou indo, viu?

– Deixa eu pelo menos te pagar um café? Tem uma cafeteria ali na outra esquina. – o cartão de crédito viria a calhar.

– Tem certeza, né? Meus pés não aguentam mais andar.

A cafeteria era aconchegante. Aconchegante até demais, para ela que gostava de som alto e globos de discoteca brilhantes. Mas aquilo era melhor do que nada. Pediram um café e conversaram até o dono ter de interrompê-los. O expediente acabara.

Eles se entenderam, apesar de serem totalmente diferentes. Ela rock e ele música clássica. Ela preto e ele branco. Yin e Yang. Ele tinha um belo par de olhos negros que a fazia ficar perdida e perder o foco da conversa. Os lábios dela tinham um movimento que também o deixava desnorteado. Seria amor verdadeiro ou apenas atração física? Não se sabe…

Quando finalmente chegaram no prédio em que ela era morava, sabiam por completo sobre a vida um do outro, como conhecidos de infância.

– Então, você fica aqui, né? Prometo que amanhã passo e te entrego o dinheiro do vestido.

– Não precisa, sério. O café e a conversa foram suficientes. Muito obrigada por tudo mesmo. – foram se aproximando e um abraço desajeitado surgiu. Olharam-se e ficaram ali parados, no meio da calçada. Ela tomou a iniciativa. Aquela noite de vestidos manchados e conversas informais acompanhadas de boas risadas não terminaria fria como o vento. Puxou-o para dentro de um beijo ardente e,  logo depois, o convite para subir ao primeiro andar foi sussurrado com todas as letras.

Beijaram-se no elevador, no corredor, na porta do apartamento, na sala, na cozinha e, finalmente, no quarto. Roupas e risadas misturando-se com discos de bandas antigas e luminárias chinesas. Promessas de amor eterno proferidas na calmaria da noite.

– Bom dia, amor. – ele sussurrou no ouvido dela.

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