“Escrevedora”

Luna desde sempre teve uma certa “queda” por palavras. Sílabas, monossílabos, proparoxítonas, aliterações, sinestesias e neologismos. Luna era uma “escrevedora”, como todos que conheciam seu dom a chamavam. Vivia imersa em livros dos mais diversos gêneros e tamanhos, ao passo que retirava muitas de suas ideias deles. Sentia-se confortável ao juntar cada letra e formar uma frase, dessas que trazem algum efeito e fazem diferença na vida das pessoas. Dormia com seu bloco de notas ao lado da cabeceira da cama. Acordava de madrugada, imersa em devaneios e pensamentos relevantes acerca de seus textos pré-escritos.

Essa paixão começou cedo. Quando tinha seis anos, ganhou um exemplar de Peter Pan (desses bem gastos pelo tempo, provavelmente comprado em alguma livraria antiga), o qual devorou em menos de três dias. Foi amor à primeira vista. A partir de então, Luna conheceu um mundo mágico, habitado por seres fantásticos e misteriosos. Decidiu que poderia ser como um daqueles escritores que tanto admirava. E conseguiu.

Apesar de não ter nada publicado, Luna escrevia e guardava seus textos com muito zelo. Não deviam ser lidos por qualquer um: aquelas palavras eram minuciosamente elaboradas e o leitor deveria ter sensibilidade para lê-las.

Mergulhava em mundo só dela, onde tudo e todos se misturavam. A alegria de ter um texto concluído era impar e enchia a sua alma de alegria.

A admiração que sentia pela suavidade dos pensamentos escritos vinha também do fato de que Luna não tinha amigos. Sempre foi muito sozinha. Quando terminava suas tarefas na escola, corria para a pequena biblioteca e ficava por lá pelo tempo que necessitasse. Isso era incomum para uma garota de dez anos. E as pessoas achavam-na esquisita.

Foi então que muito tempo depois Luna se apaixonou perdidamente por um garoto do colégio. Os garotos nos livros sempre eram românticos, interessantes, inteligentes e com ele não haveria de ser diferente. Ela escrevia bilhetes anônimos e deixava no caderno de Davi, enquanto todos estavam no intervalo. O garoto os encontrava, lia e os jogava no lixo, ainda comentando com os colegas que aquela situação era muito constrangedora e infantil. Infantil? Uma garota apaixonada merece mais respeito, Davi! Principalmente uma garota especial como Luna… E foi assim que ela teve sua primeira experiência com os desamores da vida. Ao invés de se lamuriar, trancada no quarto como a maioria das garotas de quinze faziam, Luna ergueu a cabeça e escreveu uma de suas melhores estórias (ouviu alguém dizer por aí que os melhores textos eram escritos em momentos de tristeza). Aquele era o momento propício.

Mais decepções amorosas vieram ao longo dos anos, mais textos excelentes eram escritos e cada vez mais Luna adquiria forças para exercer seu talento. Hoje, aos vinte e dois, Luna tomou coragem de correr atrás de sua primeira publicação. O caminho não é fácil, ela sabe, mas apesar dos tropeços e rasteiras da vida ela nunca estará desamparada. As palavras são suas melhores amigas.

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