Dezessete anos de puro desprezo. Sem amigos, sem músicas alegres. Apenas solidão. Clara trancava-se em seu quarto e deixava a vida monótona e fatídica lá fora. Entrava em um mundo habitado apenas por um ser, com muita personalidade, porém indefinível: ela. Passava horas e horas em meio a livros e discos. Filmes do Almodóvar e Hitchcock. Bandas britânicas e escritores russos. Aquela fortaleza era impenetrável. Clara descia apenas para o jantar, único momento em que estabelecia contato com sua madrasta e as duas irmãs – o pai biológico sumiu de casa quando a garota tinha treze anos, deixando-a à mercê de três espíritos ruins.

Não pense que Clara é uma espécie de Cinderela do século XXI, longe disso. Clara nunca foi fã de contos de fadas. Para ela, essas histórias servem apenas para alienar criancinhas e adolescentes apaixonadas, fazendo com que enxerguem um mundo açucarado inexistente. Preferia os personagens macabros de Stephen King à príncipes encantados.

Tirava notas razoáveis na escola e nunca havia se metido em confusões (sabe-se lá Deus porque). Passava pelos corredores sem ser notada, como um espectro. Aguentava calada as ofensas das garotas populares da escola. Aguentava até não conseguir mais e corria para o banheiro. Chorava até o rímel misturar-se com o lápis, uma sombra crescente ao redor de seus olhos. Dor alguma necessitava de platéia e Clara ficava por lá, pensando em sua vida, pelo tempo que precisasse. Nesse meio tempo, imaginava uma vida cheia de amor, na qual seus pais verdadeiros conviveriam harmoniosamente e ela não precisasse praticamente se esconder dentro de sua própria casa. Imaginou ter amigos verdadeiros, desses que nos pegam pela mão e nos ajudam a seguir a vida. Um amor, suave e sublime, capaz de nos tiram do chão. Mas tudo isso estava fora do alcance dela. Nada mudaria.

As decepções e a falta de amor a moldaram ao longo dos anos. Ela apenas esperava alguém que tivesse coragem de conhecê-la e quebrar o gelo de seu coração. Afinal, não era aquele monstro terrível que todos pensavam ser. Quando Clara finalmente terminava a sessão de “terapia do choro no banheiro”, saía, enxugava as lágrimas negras que escorriam pelo seu rosto e voltava a enfrentar a vida com bravura, como sempre fazia. Clara não vivia. Apenas sobrevivia todos os dias.

Voltava para casa, almoçava uma comida fria e pegajosa feita com o maior desprezo pela madrasta, subia para seu “paraíso perdido na Terra”, deitava a cabeça no travesseiro e fechava os olhos na esperança de aquilo tudo ser apenas um longo e terrível pesadelo. Ela seria feliz algum dia. Era apenas uma questão de tempo.

Anúncios

2 thoughts on “

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s