Je t’aime

Intercâmbio na França. Laços rompidos. Eu sentada em uma cafeteria, esperando-o para um novo começo. Ou uma triste conclusão.

O dia nublado afetava ainda mais a minha calma naquela manhã de sábado. Eu tamborilava os dedos, nervosa e ansiosa no mármore da mesinha, sobre a qual uma xícara tímida de porcelana e seu chá de erva doce descansavam. Ele chegaria em meia hora e eu ensaiava mentalmente o meu discurso. Havíamos dado um tempo por conta da viagem dele para o exterior. Todos os momentos, risadas e futuros planejados foram por água abaixo. Nos despedimos no aeroporto como meros conhecidos. Ele provavelmente nunca mais voltaria.

Três anos depois, lá estávamos nós, sentados um em frente ao outro, os olhares intensos de antigamente encontrando-se.

– Trouxe isso para você. – disse ele, me entregando um ramalhete de margaridas amarelas. – Você gostava de enfeitar o nosso quarto com elas, lembra?

– Compro toda terça-feira no supermercado e coloco no mesmo lugar sobre o criado-mudo. Velhos hábitos nunca morrem. – eu sorri, encabulada pelo fato de ele ainda dar importância às margaridas. – E aí, o que andou fazendo de tão bom pela “Cidade Luz” ?

– Além de estudar? – ele riu o meu riso favorito, aquele que ainda conseguia fazer meu coração quase parar de bater depois de tanto tempo. – Ah, fiz algumas amizades, trabalhei com pessoas maravilhosas… O que geralmente a gente faz em um intercâmbio. E você? O que conta de novidade?

– Comecei a trabalhar na redação do jornal da faculdade, fiz alguns amigos… O que geralmente a gente faz quando começa a trabalhar em um lugar novo. – eu sorri novamente, agora me sentindo à vontade.

– Conheceu alguém nesse meio tempo?

– Não. Me concentrei mais nos meus objetivos como jornalista. Sem tempo para homens. E você? – eu perguntei esperando ouvir um “conheci várias francesas muito belas com as quais passei noites maravilhosas”.

– Também não. Os estudos e o trabalho tomavam meu tempo por completo. Sem tempo para mulheres. – ele não havia mentido, por incrível que pareça. Me olhou no fundo dos olhos e eu pude entender que ele realmente havia voltado para mim. Sem lacunas ou mudanças. Somente o meu velho amor de sempre. – Acho melhor a gente ir direto ao ponto. A viagem que eu fiz foi realmente necessária, você sabe. Aprendi muito e me tornei uma pessoa melhor. Eu nunca iria te deixar aqui se não fosse preciso…

– Eu sei. – foi tudo o que eu consegui dizer. O nó na garganta começou a se formar e as lágrimas acumuladas ameaçavam escorrer pelo meu rosto. Desviei o olhar na tentativa de não parecer tão vulnerável.

– Meu amor, eu nunca quis me separar de você. Eu juro. – ele segurou minha mão e foi como da primeira vez. Sempre era e sempre seria. Todas as lembranças de uma vida feliz juntos voltou à tona e minhas palavras guardadas por três anos saíram atropeladas pela minha boca.

– Esses três anos foram os mais difíceis da minha vida. Acordar sem você ao meu lado, sem sentir seu cheiro, sem seu beijo de bom dia, sem sua calma, seus sorrisos, seu olhar… Era como se eu estivesse morrendo aos poucos sem notícias suas, sem saber se ao menos você estava vivo. – parei para recuperar o fôlego e enxugar as lágrimas no guardanapo cor-de-rosa da cafeteria. – Não foi fácil para mim. Ficava na incerteza se você ao menos lembrava do que aconteceu entre a gente e se tinha um outro alguém. Passei esse tempo todo em conflito emocional “será que ele pensa em mim como eu penso nele?”. – finalmente parei.

Ele me olhava com os olhos marejados. Nunca foi muito de chorar. Ele não disse, mas bem lá no fundo sentia-se culpado por ter ido embora. Levantou da cadeira e me abraçou forte, fazendo toda a dor sumir repentinamente.

– Você me perdoa?

– É claro que sim…

– Sei que é um pedido hipócrita, mas vamos esquecer tudo isso que passou e recomeçar? Eu, você, nosso apartamento e aquelas xícaras de café feitas nas madrugadas mais felizes das nossas vidas? Eu te amo demais. Foi insuportável ficar sem você.

Não havia mais nada a ser dito. Nos beijamos apaixonadamente ali mesmo, pouco ligando para os pigarros e risadinhas constrangidas dos outros clientes. Ele enfim havia voltado. Com minhas flores preferidas, seu sorriso estonteante e fluente em francês.

Nosso apartamento nos esperava de braços abertos. Ele voltaria a preencher minha vida por completo pelo tempo que restasse.

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