Trazido pelo vento

Andava pela rua distraída com o trânsito e seus motoristas apressados. Com os fones no volume máximo, me despedia da realidade e mergulhava em um mundo particular, no qual as guitarras e os solos de bateria são mais importantes do que buzinas e palavras de baixo calão. As pessoas passavam, se esbarravam, se evitavam e seguiam suas vidas. Engraçado pensar que estabelecemos certo contato com elas, mesmo que breve. E nem ao menos sabemos seus nomes. Nesse dia, o céu era de um azul limpo, sem nenhum resquício de nuvens. Estava quente e meu único desejo era estar em casa o mais rápido possível. Crianças deliciavam-se com potes de sorvete e latas de refrigerante. Aquilo era convidativo, mas meu desejo de estar no conforto do meu quarto falava mais alto. Velhinhos jogavam xadrez na praça. Mulheres reclamavam de seus maridos na porta do mercado. Adolescentes compravam ingressos para a próxima sessão de um filme de ação. E, naquele momento, o vento trouxe algo para mim: um perfume. Não um perfume qualquer. Mel, margarida, rosa, Chanel n° 5. Nada. Nenhum desses aromas poderia ser comparado àquele que veio com a brisa daquele dia de verão. Era o perfume dele. Eu tinha certeza.

Nos abraçávamos e beijávamos, saímos por aí, ríamos, cantávamos. Éramos felizes. E, no fim do dia, quando voltava para casa, o perfume dele estava impregnado na minha roupa. Era como uma marca. Feita para durar eternamente e perseguir meus sonhos. Nos meus cd’s, livros, travesseiro, quarto e até mesmo naquele urso de pelúcia que ele havia me presenteado no nosso último aniversário de namoro. O perfume dele estava lá, me dizendo todos os dias, estampando na minha cara com letras vermelhas feitas em neon: você deveria estar com ele agora.

Deveria. Mas não podia. Infelizmente o amor tem idas e vindas. O nosso não tinha mais volta.

Ele sorria para mim enquanto estávamos deitados no sofá. Me chamava de maluca por eu ter medo de perdê-lo para sempre algum dia.

– Boba, você sabe que eu te amo. – ele afagava meus cabelos enquanto eu desenhava círculos sobre sua camiseta, deitada em seu colo. – Pra sempre…

Eu o abraçava forte e respirava aquele cheiro que me acompanhava em todos os lugares, na tentativa de memorizá-lo para quando ele fosse embora. E funcionou.

Me virei na calçada, esperando encontrá-lo ali em pé, sorrindo como sempre fazia ao me encontrar. Ele correria até mim e me beijaria como todas as vezes em que ficávamos juntos. Me abraçaria e eu saberia que nada nessa vida é em vão. E que ele havia voltado. Para mim. Para sempre. Mas não havia nada além de um enorme buraco deixado por um passado de sorrisos e perfumes marcantes, onde não havia espaço para dor e sofrimento. As pessoas passavam e me encaravam. Eu atrapalhava o trânsito. Voltei minha atenção para os meus sagrados fones de ouvido e recomecei minha caminhada. Ele nunca mais voltaria para mim. Minha convicção gritava isso.

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