Retalhos

Os restos frios de pizza ainda estavam sobre pratos e o os dvd’s de “Two and a Half Man” jogados no tapete da sala. Nossas fotos coladas num mural improvisado com barbantes penduradas na parede do meu quarto. Seu perfume no meu travesseiro e nos lençóis. Sua jaqueta sobre a cadeira da escrivaninha. Nossos sapatos embolados numa desordem digna de dois adolescentes se misturavam embaixo da cama. Retalhos de uma meia vida juntos. Três anos. Pouco tempo, mas o melhor de nossas vidas.

– Se algum dia a gente se desentender e eu for embora, o que você faria? – ele me disse mês passado enquanto estávamos sentados na escada do prédio, desfrutando um copo gelado de Coca Cola para acalentar o calor daquele dia de verão.

– Provavelmente choraria como um bebê ouvindo Joy Division. – eu sorri e o beijei na bochecha. – Isso nunca vai acontecer, nós nunca brigamos. E nunca iremos. Eu prometo.

Ele passou o braço ao redor da minha cintura e ficamos ali, estáticos, ouvindo a buzina dos carros apressados que passavam pela rua.

Eu nunca fui temperamental. Nem mesmo nas piores situações da minha vida eu perdi o controle. Sempre tentei levar tudo na pura calmaria, afinal estresse não resolve coisa alguma. Ele também nunca foi de perder a cabeça por coisas irrelevantes. Pelo menos não comigo. Até agora não consigo compreender o motivo da nossa primeira e única briga. Sério.

Passamos de casal apaixonado à meros conhecidos em apenas três dias. Ele evitava meu olhar durante o café da manhã, almoço e jantar. Nossos beijos não eram mais os mesmos e as atitudes rudes dele me machucaram profundamente. Posso não ser perfeita, mas era o amor da vida dele. Era o que ele dizia.

Ontem, enquanto comíamos pizza ele veio com essa:

– Acho que a gente deve dar um tempo. – calmamente ele se virou para me encarar, dando uma última mordida na pizza de peperone.

– Você ficou maluco, né? Pode parar com a brincadeira, não tem graça. – comecei a rir histericamente. Eu sempre reagia dessa maneira em situações constrangedoras. – Para amor, eu não gosto disso…

– Não é brincadeira. Eu sei que pode parecer estranho agora, mas eu preciso dar um rumo novo à minha vida. Viajar, conhecer gente nova… – ele parou e ficou encarando Charlie Sheen na tela da tv. Ele não estava brincando.

– Amor, se você quiser viajar eu vou com você. Sem problemas. Minhas férias servem para isso e eu adoraria explorar o mundo com você… – as lágrimas começavam a se acumular no canto dos meus olhos e meu coração acelerou. Aquilo não tinha, nem ao longe, um fundo de brincadeira.

– Será que você não entende: eu quero fazer isso sozinho. Eu, minha mochila e mais ninguém. – ele alterou o tom de voz. As lágrimas jorraram como sangue em um corte profundo.

– Tem outra na jogada, né? – eu jogava aquelas palavras em cima dele, mas esperava ouvir um não. Traição não foi feita para corações fracos. – Seja sincero comigo, por favor.

– Não é da sua conta se eu tenho outra ou não. O que importa é que eu vou embora agora e não adianta me seguir. Vou sozinho.

Fiquei parada no sofá. As últimas palavras dele ainda ecoavam na minha mente. Como ele pôde ter se transformado em uma pessoa desprezível em pouco tempo? Ele que deixava bilhetes de bom dia junto ao travesseiro quando precisava sair para trabalhar mais cedo. Ele que me fazia sorrir e suspirar todos os dias como se fosse a primeira vez.

Ele escancarou a porta, carregando uma mochila com algumas roupas e os documentos. Não tentei segurá-lo. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. Saiu da minha vida sem ao menos olhar para trás, para a figura da mulher a quem ele dedicara as mais belas juras de amor eterno.

Fiquei o resto da noite vagando pelos cômodos do apartamento como um fantasma. A presença dele ainda me deixava inquieta, como se aquilo tudo não tivesse passado de um pesadelo. Eu tentava de todas as formas acordar, mas para o meu pesar aquela era minha realidade. Uma letra de música ecoava pela minha cabeça e só depois de muito tentar lembrei de qual banda se tratava. “Love, love will tear us apart, again”. Ian Curtis estava certo. O amor acabou nos separando.

Anúncios

2 thoughts on “Retalhos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s