Love me tender

Os dois estavam sentados próximos, assistindo à um filme desinteressante na tv. Foi então que ela quebrou o silêncio:

– Quer ver minha coleção de discos? – disse a garota, virando-se delicadamente para o rapaz.

– Claro. – ele respondeu envergonhado, afinal ela era seu amor platônico desde os dez anos.

Ana também o amava. A menos tempo que ele, é claro. No auge dos seus dezessete anos havia namorado apenas uma vez – com um garoto que não era tudo aquilo que ela esperava – e desde o término havia passado a pensar em Jorge com mais frequência. Sonhava com ele todos os dias, imaginando situações diversas nas quais eles seriam “felizes para sempre”.

Jorge madrugava todos os dias pensando em Ana. Nos cabelos negros e ondulados dela, nos olhos e no jeito como sorria ao vê-lo. Ela era perfeita. Nascida para acalentar aquele coração de dezoito em busca de sentimentos verdadeiros.

Os dois subiram as escadas. Entraram no quarto dela e sentaram no chão. Em um dos cantos da parede havia uma pilha de discos usados e uma vitrola antiga, empoeirada pelo peso dos anos.

– Bem, essa aqui é minha coleção. – Ana apontou para o amontoado de Hendrix, Queen e Bob Dylan. – O que você quer ouvir?

– O que você me sugere? – Jorge olhou-a bem no fundo dos olhos, uma tentativa de fazê-la perceber quão maravilhoso aquele momento estava sendo para ele.

– Tenho Led Zeppelin, Johnny Cash, Janis Joplin… Você escolhe.

– Isso é incomum. Garotas da sua idade convivem com Ipods e Iphones e você aqui com uma vitrola…- os dois riram.

– Eu não sou como as outras. – ela disse, deixando-o envergonhado. – Sabe, eu gosto de coisas antigas. Antigamente as pessoas davam mais valor ao que tinham. Hoje em dia quase todo mundo procura trocar os celulares ou computadores a cada semana. Eu não gosto disso: aprecio coisas simples e que possuam alguma história para contar.

Ele não acreditava naquilo que acabara de ouvir. Ela realmente havia nascido para ele.

– Eu gosto do som que a agulha faz ao tocar o disco. – ele disse. – Quando eu tinha cinco anos meu pai colocava alguns discos do Cash para tocar e eu ficava ouvindo o dia todo. Foi aí que eu comecei a me apaixonar por música. – Jorge riu ao se lembrar das suas aventuras musicais de quando era menor. Sempre quis encontrar uma garota com June Carter. Ele havia conseguido.

– Essa vitrola eu trouxe da casa da minha avó semana passada. Ela ia jogar fora porque não usa mais. Eu não podia deixá-la fazer isso, seria um pecado!  – disse Ana sorrindo. Virou-se e puxou um disco do Elvis que estava entre os discos. – Esse disco daqui é meu predileto.

A garota colocou o disco na vitrola e “Love me tender” começou a tocar. Um silêncio constrangedor tomou conta dos dois. Eles se queriam mais do qualquer coisa no mundo. Aquela era a hora certa para algo importante ser dito.

– Dança comigo? – Jorge finalmente tomou coragem para perguntar.

Eles se levantaram e, envergonhados, começaram a dança. As mãos dele na cintura de Ana. As mãos de Ana ao redor do pescoço dele. Os olhares intensos e sedentos de amor encontrando-se enquanto Elvis cantarolava melodiosa e apaixonadamente. Tudo parecia se encaixar perfeitamente. Eles podiam ser felizes juntos. Queriam ser felizes e deveriam sentir aquilo, naquele exato momento. Dois coações jovens em busca do mais sublime dos sentimentos: o amor. Uma das mãos dela passou devagarinho pelos cabelos castanhos dele. Ele sorriu e a puxou para mais perto, sentindo o cheiro que vinha de seus cabelos. Mel e flor de laranjeira. O perfume mais inebriante que ele poderia sentir algum dia. Foram chegando cada vez mais perto e quando não havia mais espaço para tanto amor, Jorge sussurrou:

– Eu te amo, Ana. Quer ser minha para sempre?

Um sorriso desconcertado surgiu nos lábios daquela que um dia seria a mãe dos filhos dele. Um “sim” apaixonado foi sussurrado pela garota incomum com gostos simples. Ela nunca mais sofreria por amor. Pelo menos, era o que esperava.

O primeiro beijo foi suave, lento, cuidadoso. Cada instante juntos merecia ser eterno e precioso. Elvis há muito havia parado de cantar, mas eles nem se deram conta. Ainda havia uma montanha de discos para serem ouvidos e, para cada um deles, um pedacinho daquele amor que acabara de desabrochar.

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