Sobre sorvetes, bom gosto musical e pedidos de casamento inesperados

4 da tarde, sexta-feira, em uma sorveteria. Eu o encontrei.

Pedi um sunday de chocolate e ele um de morango. Estávamos sentados um ao lado do outro, imersos em pensamentos distintos, olhando atentamente e pouco interessados o pote de M&M’s que estava sobre a bancada. O dia estava quente e aquilo significava que iria chover mais tarde. Eu deveria correr antes de chegar encharcada em casa.

– Ei, moça, você pode me passar um guardanapo? – disse o rapaz ao lado, com enormes headphones sobre as orelhas. A música estava alta demais, fazendo com que ele praticamente gritasse o pedido. Escutei um “last night she said ‘oh, baby, I feel so down oh, see it turns me off’ “ vindo daquela fonte ensurdecedora de música. The Strokes. Ele tinha bom gosto.

– Fala baixo, cara! – eu disse dando uma risada e o deixando envergonhado.

– Opa, me desculpe. Mania de andar com essa porcaria o dia todo com som alto… Te deixei surda? – disse ele limpando o canto da boca com o guardanapo que eu havia entregado.

– Um pouco, vou ali buscar um aparelho auditivo e já volto. – nós dois rimos. Minha piada havia sido péssima, mas ele riu mesmo assim, talvez por educação.

– Também gosto de The Strokes. – eu disse tentando puxar assunto e fazê-lo esquecer o momento constrangedor.

– Fala sério. A gente tá parecendo Summer e Tom de “500 dias com ela”! – ele me lançou uma careta.

– Não. Você não é bonito como o Joseph. – sorri sem graça. Ele era lindo sim. Mesmo com aquele cabelo cheio e a cara de sono.

– Não vamos discutir beleza masculina, afinal não é minha praia. – rimos mais uma vez. Aquele estranho parecia um conhecido de longa data.

– Eu te conheço de algum lugar? – perguntei, me sentindo a atirada da vez.

– Talvez dos seus sonhos, gatinha. – ele piscou para mim e eu não reprimi um sorriso ainda mais envergonhado, apesar de a cantada ter sido clichê.

Discutimos Beatles, Elvis, The Kooks, The Killers e Rolling Stones e, para cada banda, um sorvete de sabores diferentes. Aquela conversa tornava-se doce a cada minuto e a companhia dele era mais do que agradável.

– Victor, o papo tá muito bom, mas eu preciso ir para casa ou vou chegar molhada por conta da chuva. – lá fora um dilúvio caia.

– Eu te deixo em casa se você quiser.

– Não é uma boa pegar carona com estranhos. – brinquei.

– Cara, eu te falei sobre todas as minhas bandas e músicas preferidas e você ainda me chama de estranho? Não vou te sequestrar e levar para uma casa no campo onde te tratarei apenas com água e pão. Eu prometo. – ele me olhou com olhar suplicante. Tive que ceder.

Saímos correndo naquele temporal, como crianças brincando na chuva. Victor parou de repente, se virou para mim e gritou:

– Eu te amo, Aline!

– Você. Ficou. Maluco? – eu disse perplexa e molhada.

– Casa comigo e seja mãe dos meus filhos, por favor? – ele se ajoelhou e pegou minha mão. Eu não estava acreditando naquilo. Como amar uma pessoa que ele havia conhecido há pouco mais de duas horas? Simples: o amor é inesperado e inexplicável. E eu também queria aquilo.

Eu fiquei olhando para ele pelo o que pareceu uma eternidade. Nós dois molhados dos pés à cabeça, sorrindo feito dois bobos. Ele me puxou para dentro de um abraço apertado e sussurrou ao meu ouvido “please, please, please, let me get what I want“, enquanto me embalava num tipo de dança romântica desajeitada. The Smiths era golpe baixo. Eu amava aquela música.

Nossos lábios se encontraram e só se separaram ao anoitecer. A chuva havia ido embora há muito tempo, deixando aquele cheiro bom de terra molhada no ar. Pela primeira vez em muitos anos minha vida pareceu completa (mesmo eu ficando resfriada, na certa).

Victor me prometeu uma xícara de chá bem quente e muito amor para curar meu resfriado. Para sempre.

Aquelas promessas eram irrecusáveis.

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