Desconstruindo Amélia

Trinta anos. Recepcionista de um consultório odontológico. Mãe de três filhos. Nem feliz, nem triste.

Amélia levava uma vida pacata cuidando de Ana, Joana e Marcos. Seus bens mais preciosos. Morava em uma casa financiada bem simples, porém aconchegante. Seu namorado Miguel a convidou para passar uma temporada com as crianças em sua casa na praia, mas Amélia não aceitou. Tinha trabalhos a cumprir. Há pouco iniciara a faculdade de Direito e com muito sacrifício conseguiria terminá-la. Um sonho de infância.

Ela quase não respirava. Os meninos, o trabalho e os estudos a tomavam por completo e Amélia sentia-se completamente sufocada de vez em quando. Era metódica, perfeccionista além da conta. Isso era ruim. Muito ruim, pois nem tudo saia como o planejado. Queria sempre terminar tudo antes do prazo, ser eficiente. Amélia dormia todos os dias com a mente tranquila por saber que o seu trabalho estava feito. Era uma mulher muito melhor do que as outras, mas não se engrandecia por tal fato.

Miguel a pedira em casamento. Amélia não aceitou. Não queria um compromisso sério, não mais. Traumatizou-se com o divórcio e não queria que o mesmo acontecesse com seu atual namorado. Preferia ficar assim, ele de um lado e ela do outro. Amando-se à distância. Afinal, uma mulher de trinta, divorciada e com três crianças para cuidar não ficaria bem de véu e grinalda novamente.

O tempo ia passando, alguns fios brancos iam aparecendo, o peso dos anos ia caindo sobre seus ombros. Amélia precisava de uma mudança. Necessitava de um novo “eu”, mas não sabia por onde começar. Corte de cabelo? Roupas novas? Mudar o gosto musical? Nada disso estava em seus planos. Ela precisava de algo drástico, nunca experimentado antes. Festas. Amélia odiava festas, mas passaria a adorá-las nas sextas à noite.

Amélia desconstruiu-se. Tirou as roupas sérias de todo-santo-dia, as sapatilhas confortáveis e o esmalte renda. Colocou um vestido preto, salto Anabela e um vermelho vibrante nas unhas, acompanhado de uma maquiagem de fazer inveja a qualquer menina de dezoito. Amélia sentiu-se desconfortável no começo, mas era apenas falta de hábito. O som, as cores, as risadas, as pessoas novas, as bebidas e a dança a faziam enxergar um mundo novo. E ela gostava daquilo. Afinal, não estava cometendo pecado algum.

Permissão. Ela precisava se permitir mais, viver mais, cantar mais. A vida exigia novos rumos para aquela que um dia apenas seguiu regras e agora passaria a ditá-las. Deixou o metodismo de lado junto com as roupas e o espírito velho. Vestiu a vontade de viver com gosto e sentiu-se melhor do que quando adolescente. Andara pensando em dar mais uma chance para o seu amor. Não deveria ser tão ruim assim usar um vestido branco outra vez.

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