O amor vem com as ondas

Lembro perfeitamente a primeira vez em que o vi. Às vezes coisas ruins acontecem por um motivo maior. Agora eu acredito.

Aquele dia estava sendo o pior da minha vida. Pneu do carro furado, demissão, conta no banco zerada. Sabe quando uma maré de azar vem e com ela carrega tudo o que você tem de mais precioso na vida? Pois é. Isso aconteceu comigo. Imagine uma mulher andando desesperada pela rua, com um celular sem bateria e o peito prestes a entrar em colapso cardíaco profundo. Não estou exagerando. Esse era meu estado naquele exato momento.

– Deus, por que tudo de uma vez? – eu gritava encarando o céu azul na tentativa de obter uma resposta divina. – Não podia ser apenas o pneu furado? Conta zerada e demissão já é sacanagem demais!

Andei por mais dois quarteirões e avistei o mar. Meu único companheiro. O único que me entendia nesses momentos de absurda confusão e solidão. Caminhei quase sem forças e consegui chegar até ele. Com o choro preso na garganta tirei meus sapatos de salto e afundei os pés na areia. Fiquei parada em pé por mais ou menos uma hora, ainda tentando entender o que havia acontecido comigo. Foi então que eu o avistei. Cabelo castanho, abdômen definido,desses que vivem na academia. Mochila nas costas, câmera fotográfica pendurada no pescoço, olhar distraído…Encarava-o sem perceber o quão patética estava parecendo. E foi então que ele olhou de volta para mim. Desviei o olhar e senti meu rosto se aquecer. “Estúpida! Estúpida! Estúpida! Por favor dê meia volta e caia no mar, não venha falar comigo. Por favor”, pensei enquanto o dono dos músculos definidos se aproximava.

– Oi, moça. Eu me chamo Carlos. – Ele se aproximou e lançou-me um sorriso estonteante. Por um segundo esqueci todos os meus problemas.

– Oi. Eu sou Patrícia. – disse meio sem jeito, as maçãs do rosto começando a corar.

– Se importa se eu te fotografar?

– Não vai dar. Eu estou num péssimo dia para fotos. Também não sou fotogênica…

– Me desculpe. Eu trabalho com fotografia e de vez em quando venho aqui fotografar as pessoas na praia. Só por diversão mesmo, sabe? – ele pegou a câmera profissional pendurada no pescoço e fez algumas fotos do mar. – Eu achei que você seria a minha modelo perfeita. Você é linda…

– Ah, muito obrigada. Por que você não tira algumas fotos mais pra lá, hein? – apontei para um grupo de crianças que fazia castelinhos na areia. As lágrimas que há muito se acumulavam estavam prestes a vir à tona.

– Ei, tá tudo bem com você? Sério, se quiser pode conversar comigo. Eu não sou nenhum serial killer…

– Não, está tudo bem – menti.

De repente eu me vi desmoronando. Toda calma e paciência ministrada ao longo dos meus vinte e cinco anos estavam indo embora. Comecei a gritar, chutar a areia e quando me vi estava com a cabeça encostada no peito de Carlos. Ele me aninhava como um pássaro ferido, todo o meu sofrimento indo embora naquele instante. Carlos me olhou ternamente secando as últimas lágrimas da enxurrada e me disse baixinho.

– Tem certeza de que não quer conversar sobre isso?

Fomos até o quiosque. Ele pediu um copo de suco de laranja para mim.

– Hoje eu acordei sem a mínima vontade de sair da cama. Parecia algum pressentimento de que uma série de coisas ruins estavam prestes a acontecer. – eu disse, ainda rouca por conta do choro. Minha garganta queimava. – Eu era redatora do jornal local e quando cheguei no trabalho dei de cara com uma carta de demissão. Só porque fiz uma crítica em uma das minhas crônicas e os leitores não gostaram. Como se isso não bastasse, ligaram do banco e avisaram que meu saldo estava no vermelho. Fiquei ainda mais desesperada e, para acabar com o meu dia, o pneu do meu carro furou e eu não sabia o que fazer. Ele está parado no meio de uma avenida e eu estou pensando seriamente em não chamar um guincho. Vai que no meio do caminho um piano cai na minha cabeça…Do jeito que eu estou sem sorte. – não consegui reprimir um sorriso. Carlos sorria para mim e aquilo me confortava.

– Parece enredo de filme. – disse Carlos tomando um gole do meu suco de laranja. – Se você aceitar minha ajuda, tudo dará certo.

– Acho que não tenho nada a perder.

Ele me puxou pela mão e nós deixamos o quiosque para trás. Estávamos cara a cara com o mar:

– Deixa eu te fotografar, vai? Algum dia você vai olhar essa foto, se lembrar de tudo o que aconteceu no dia de hoje e irá rir. Tudo vai dar certo. Confia em mim?

– Pode parecer precoce, mas confio.

Ele segurou a câmera e a cada clique eu me sentia mais viva. Meus cabelos castanhos e longos balançavam com o vento e eu desfrutava o momento. Carlos talvez fosse meu anjo da guarda. Ou talvez o amor da minha vida.

E de súbito ele parou de me fotografar. Colocou a mochila e a câmera na areia. Me olhou bem no fundo dos olhos e eu entendi que minha vida começava naquele instante. Carlos me pegou pela cintura e encostou os lábios nos meus com calma e suavidade. Eu me rendi. Cada movimento de nossos corpos, cada toque e cada suspiro curavam a minha alma de todas as feridas mais profundas e secretas. Eu sentia o cheiro e o calor da pele dele e queria mais. Muito mais. O sol ardia sobre nós e aquele momento se tornava intenso e infinito a cada instante. E, então, os beijos foram parar dentro do mar. Nos divertíamos como crianças. Nós éramos crianças. E acabávamos de nos apaixonar.

Uma semana depois éramos um só.

Acordei com o sol entrando pela janela. Ao meu lado, meu amor dormia. Fiquei tentada a acordá-lo com um beijo. Preferi observar o semblante tranquilo e suave do meu anjo. Fiquei admirando-o pelo o que pareceu uma eternidade e então ele acordou. Meu “menino-homem” abriu os olhos ainda sonolentos e me lançou um sorriso meigo seguido de um “bom dia” rouco. Me pegou nos braços e as lembranças da noite passada voltaram a nos encontrar.

Não demorou muito para que tudo o que era nosso se misturar. Ramones e The Clash. Shakespeare e Tolkien. Coppola e Hitchcock. Meus pensamentos e os dele. Minha vida e a dele.

Íamos à fazenda dos pais dele quase todo fim de semana. Corríamos pelos campos em busca de flores silvestres. Voltávamos para casa com flores dos pés à cabeça e um amor que só aumentava.

E foi então que algo inesperado aconteceu. Eu estava na cozinha preparando o nosso almoço quando de repente ouvi barulhos de pedrinhas batendo no vidro da sala. Quando saí para o jardim me deparei com narcisos amarelos. Centenas deles (ou talvez milhares).

– Você adora aquela cena de “Peixe Grande” do Tim Burton em que o protagonista pede sua amada em casamento em meio a milhares e milhares de narcisos, não é? – disse uma voz atrás de mim, colocando as mãos suaves sobre o meu rosto. – Então… – Carlos ajoelhou-se na minha frente com um caixinha de veludo nas mãos. – Casa comigo, morena?

É por isso que eventos ruins sempre são seguidos de episódios maravilhosos, como aquela estória de “arco-íris depois da chuva”. Agora eu acredito.

Anúncios

2 thoughts on “O amor vem com as ondas

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s