Quando Kansas e Smiths se encontraram

A chuva caía pesada lá fora. Os carros confundiam-se com os pedestres apressados e seus guarda chuvas coloridos. Pareciam M&M’s correndo em meio à grandes pingos d’água. A loja de discos antigos estava semi deserta, exceto pela minha presença e a de um loiro alto que olhava atentamente um disco do Kansas. O silêncio foi interrompido pelos alto falantes da loja. “More than Words” do Extreme começou a tocar e eu imaginei se aquilo havia sido algo casual ou predestinado. Foi uma deixa para o loiro falar comigo.

Ele se chamava Guilherme. Trabalhava como gerente de um restaurante, era esportista e gostava de rock ‘n roll.

– Então foi assim que eu vim parar aqui. – disse ele, relembrando o fato de o pneu do carro ter furado bem no meio daquele dilúvio. – Geralmente quando não tenho muito trabalho para cumprir venho aqui e passo pelo menos duas horas olhando os discos, colocando alguns para ouvir… É minha terapia. – ele sorriu, mostrando uma fileira branca e perfeita de dentes que me convidaram a sorrir também. – Aliás, nunca vi você por aqui. É nova na cidade?

– Moro aqui há dois anos. Também venho aqui de vez em quando, provavelmente em horários diferentes do seu. Por incrível que pareça esse lugar também me acalma. Minha terapia. – sorri sem jeito. – Vim parar aqui por conta da chuva. Meu expediente acabou bem na hora desse temporal, vê se pode? – nós dois rimos.

Estávamos sentados num sofá vermelho desbotado que ficava ao lado do corredor de discos dos Beatles. Aquele cheiro de coisas antigas misturava-se com o perfume marcante de Guilherme. Eu me sentia em casa.

– Me conta um pouco mais sobre você, Carla? – ele se virou e me lançou um olhar azul quase cristalino.

Contei sobre meu emprego na lanchonete do outro quarteirão, em como sonhava todos os dias em me tornar jornalista, a casa no campo em que um dia pretendia morar, o disco dos Smiths que eu paquerava toda vez que ia àquela loja…

Tínhamos bandas favoritas em comum. Nossa música preferida do Led Zeppelin era “The Song Remains the Same” e ele também acreditava que Elvis estava escondido no Hawaii cantando suas músicas por todos esses anos. Perdemos a noção do tempo. A loja encerraria o expediente em meia hora e a chuva lá fora estava passando. Do outro lado da rua uma cafeteria nos esperava com uma enorme jukebox e seus clássicos do rock. Passamos pela porta e encontramos um mundo totalmente novo. Uma das minhas mãos segurando o disco dos Smiths e, a outra, o braço de Guilherme. Afinal, ouvi por aí que gosto musical compatível é pré-requisito para amor verdadeiro.

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