Ponto final

tumblr_mdzrjxdBjN1rdpjdho1_500_largeSou péssima com despedidas. Sério. Talvez seja pelo fato de ter enfrentado muitas delas ao longo da minha vida.

Lágrimas, gritos, sorrisos, desavenças, obstáculos, superações. É difícil dizer adeus a quem se ama. Um buraco parece habitar o lugar em que antes morava o nosso coração e a saudade torna-se insuportável. Convivemos por um breve ou longo tempo com algumas pessoas e as lembranças (boas ou ruins) ficam cravadas na nossa mente para sempre.

Despedidas não acontecem por acaso. Estamos acostumados a ouvir que “a vida é repleta de ciclos”, os quais temos que encerrar constantemente, por bem ou por mal. Uma vez fechados, esses ciclos nunca mais voltam ao princípio, daí a importância de se aproveitar o tempo que nos resta. O tempo de estudar, amar, bagunçar (com moderação, é claro). O tempo de viver.

O caminho pode ser tortuoso, mas o importante é nunca desistirmos daquilo que sonhamos. Nossa longa estrada apenas começou a ser trilhada e, como diria Bob Dylan, “a felicidade não está na estrada que leva a algum lugar, a felicidade é a própria estrada”. Aproveitaremos nossa breve passagem pelo mundo do modo mais intenso que pudermos. Quando chegarmos lá na frente e finalmente deitarmos a cabeça no travesseiro para descansarmos, pensaremos: tudo o que eu fiz valeu muito a pena.

Devemos pensar duas ou até três vezes antes de tomarmos alguma decisão, qualquer que seja. O reflexo delas afetarão por completo o nosso futuro.

Esse é o nosso momento de sonhar e batalhar para que os nossos desejos se realizem.

Engenheiros, médicos, arquitetos, professores, bailarinas, músicos, psicólogos, jornalistas… As profissões são diversas, mas o importante é sempre, independente das dificuldades, dar o máximo de si.

Se por um motivo ou outro nossos sonhos não se realizarem de imediato, não desanimemos: verdadeiros guerreiros nunca curvam a cabeça perante desafios. Todos nascemos com um propósito a ser cumprido.

Um dia, nos esbarraremos pela vida e eu terei certeza de que contribui, mesmo que indiretamente, para que o sucesso de todos pudesse acontecer. Me orgulharei em saber que vocês chegaram ao lugar com o qual sonharam inúmeras vezes.

Esse pode até ser o fim para muitos. Mas quem sabe, algum dia, esse ponto final vire reticências…

“Escrevedora”

Luna desde sempre teve uma certa “queda” por palavras. Sílabas, monossílabos, proparoxítonas, aliterações, sinestesias e neologismos. Luna era uma “escrevedora”, como todos que conheciam seu dom a chamavam. Vivia imersa em livros dos mais diversos gêneros e tamanhos, ao passo que retirava muitas de suas ideias deles. Sentia-se confortável ao juntar cada letra e formar uma frase, dessas que trazem algum efeito e fazem diferença na vida das pessoas. Dormia com seu bloco de notas ao lado da cabeceira da cama. Acordava de madrugada, imersa em devaneios e pensamentos relevantes acerca de seus textos pré-escritos.

Essa paixão começou cedo. Quando tinha seis anos, ganhou um exemplar de Peter Pan (desses bem gastos pelo tempo, provavelmente comprado em alguma livraria antiga), o qual devorou em menos de três dias. Foi amor à primeira vista. A partir de então, Luna conheceu um mundo mágico, habitado por seres fantásticos e misteriosos. Decidiu que poderia ser como um daqueles escritores que tanto admirava. E conseguiu.

Apesar de não ter nada publicado, Luna escrevia e guardava seus textos com muito zelo. Não deviam ser lidos por qualquer um: aquelas palavras eram minuciosamente elaboradas e o leitor deveria ter sensibilidade para lê-las.

Mergulhava em mundo só dela, onde tudo e todos se misturavam. A alegria de ter um texto concluído era impar e enchia a sua alma de alegria.

A admiração que sentia pela suavidade dos pensamentos escritos vinha também do fato de que Luna não tinha amigos. Sempre foi muito sozinha. Quando terminava suas tarefas na escola, corria para a pequena biblioteca e ficava por lá pelo tempo que necessitasse. Isso era incomum para uma garota de dez anos. E as pessoas achavam-na esquisita.

Foi então que muito tempo depois Luna se apaixonou perdidamente por um garoto do colégio. Os garotos nos livros sempre eram românticos, interessantes, inteligentes e com ele não haveria de ser diferente. Ela escrevia bilhetes anônimos e deixava no caderno de Davi, enquanto todos estavam no intervalo. O garoto os encontrava, lia e os jogava no lixo, ainda comentando com os colegas que aquela situação era muito constrangedora e infantil. Infantil? Uma garota apaixonada merece mais respeito, Davi! Principalmente uma garota especial como Luna… E foi assim que ela teve sua primeira experiência com os desamores da vida. Ao invés de se lamuriar, trancada no quarto como a maioria das garotas de quinze faziam, Luna ergueu a cabeça e escreveu uma de suas melhores estórias (ouviu alguém dizer por aí que os melhores textos eram escritos em momentos de tristeza). Aquele era o momento propício.

Mais decepções amorosas vieram ao longo dos anos, mais textos excelentes eram escritos e cada vez mais Luna adquiria forças para exercer seu talento. Hoje, aos vinte e dois, Luna tomou coragem de correr atrás de sua primeira publicação. O caminho não é fácil, ela sabe, mas apesar dos tropeços e rasteiras da vida ela nunca estará desamparada. As palavras são suas melhores amigas.

Je t’aime

Intercâmbio na França. Laços rompidos. Eu sentada em uma cafeteria, esperando-o para um novo começo. Ou uma triste conclusão.

O dia nublado afetava ainda mais a minha calma naquela manhã de sábado. Eu tamborilava os dedos, nervosa e ansiosa no mármore da mesinha, sobre a qual uma xícara tímida de porcelana e seu chá de erva doce descansavam. Ele chegaria em meia hora e eu ensaiava mentalmente o meu discurso. Havíamos dado um tempo por conta da viagem dele para o exterior. Todos os momentos, risadas e futuros planejados foram por água abaixo. Nos despedimos no aeroporto como meros conhecidos. Ele provavelmente nunca mais voltaria.

Três anos depois, lá estávamos nós, sentados um em frente ao outro, os olhares intensos de antigamente encontrando-se.

– Trouxe isso para você. – disse ele, me entregando um ramalhete de margaridas amarelas. – Você gostava de enfeitar o nosso quarto com elas, lembra?

– Compro toda terça-feira no supermercado e coloco no mesmo lugar sobre o criado-mudo. Velhos hábitos nunca morrem. – eu sorri, encabulada pelo fato de ele ainda dar importância às margaridas. – E aí, o que andou fazendo de tão bom pela “Cidade Luz” ?

– Além de estudar? – ele riu o meu riso favorito, aquele que ainda conseguia fazer meu coração quase parar de bater depois de tanto tempo. – Ah, fiz algumas amizades, trabalhei com pessoas maravilhosas… O que geralmente a gente faz em um intercâmbio. E você? O que conta de novidade?

– Comecei a trabalhar na redação do jornal da faculdade, fiz alguns amigos… O que geralmente a gente faz quando começa a trabalhar em um lugar novo. – eu sorri novamente, agora me sentindo à vontade.

– Conheceu alguém nesse meio tempo?

– Não. Me concentrei mais nos meus objetivos como jornalista. Sem tempo para homens. E você? – eu perguntei esperando ouvir um “conheci várias francesas muito belas com as quais passei noites maravilhosas”.

– Também não. Os estudos e o trabalho tomavam meu tempo por completo. Sem tempo para mulheres. – ele não havia mentido, por incrível que pareça. Me olhou no fundo dos olhos e eu pude entender que ele realmente havia voltado para mim. Sem lacunas ou mudanças. Somente o meu velho amor de sempre. – Acho melhor a gente ir direto ao ponto. A viagem que eu fiz foi realmente necessária, você sabe. Aprendi muito e me tornei uma pessoa melhor. Eu nunca iria te deixar aqui se não fosse preciso…

– Eu sei. – foi tudo o que eu consegui dizer. O nó na garganta começou a se formar e as lágrimas acumuladas ameaçavam escorrer pelo meu rosto. Desviei o olhar na tentativa de não parecer tão vulnerável.

– Meu amor, eu nunca quis me separar de você. Eu juro. – ele segurou minha mão e foi como da primeira vez. Sempre era e sempre seria. Todas as lembranças de uma vida feliz juntos voltou à tona e minhas palavras guardadas por três anos saíram atropeladas pela minha boca.

– Esses três anos foram os mais difíceis da minha vida. Acordar sem você ao meu lado, sem sentir seu cheiro, sem seu beijo de bom dia, sem sua calma, seus sorrisos, seu olhar… Era como se eu estivesse morrendo aos poucos sem notícias suas, sem saber se ao menos você estava vivo. – parei para recuperar o fôlego e enxugar as lágrimas no guardanapo cor-de-rosa da cafeteria. – Não foi fácil para mim. Ficava na incerteza se você ao menos lembrava do que aconteceu entre a gente e se tinha um outro alguém. Passei esse tempo todo em conflito emocional “será que ele pensa em mim como eu penso nele?”. – finalmente parei.

Ele me olhava com os olhos marejados. Nunca foi muito de chorar. Ele não disse, mas bem lá no fundo sentia-se culpado por ter ido embora. Levantou da cadeira e me abraçou forte, fazendo toda a dor sumir repentinamente.

– Você me perdoa?

– É claro que sim…

– Sei que é um pedido hipócrita, mas vamos esquecer tudo isso que passou e recomeçar? Eu, você, nosso apartamento e aquelas xícaras de café feitas nas madrugadas mais felizes das nossas vidas? Eu te amo demais. Foi insuportável ficar sem você.

Não havia mais nada a ser dito. Nos beijamos apaixonadamente ali mesmo, pouco ligando para os pigarros e risadinhas constrangidas dos outros clientes. Ele enfim havia voltado. Com minhas flores preferidas, seu sorriso estonteante e fluente em francês.

Nosso apartamento nos esperava de braços abertos. Ele voltaria a preencher minha vida por completo pelo tempo que restasse.

Dezessete anos de puro desprezo. Sem amigos, sem músicas alegres. Apenas solidão. Clara trancava-se em seu quarto e deixava a vida monótona e fatídica lá fora. Entrava em um mundo habitado apenas por um ser, com muita personalidade, porém indefinível: ela. Passava horas e horas em meio a livros e discos. Filmes do Almodóvar e Hitchcock. Bandas britânicas e escritores russos. Aquela fortaleza era impenetrável. Clara descia apenas para o jantar, único momento em que estabelecia contato com sua madrasta e as duas irmãs – o pai biológico sumiu de casa quando a garota tinha treze anos, deixando-a à mercê de três espíritos ruins.

Não pense que Clara é uma espécie de Cinderela do século XXI, longe disso. Clara nunca foi fã de contos de fadas. Para ela, essas histórias servem apenas para alienar criancinhas e adolescentes apaixonadas, fazendo com que enxerguem um mundo açucarado inexistente. Preferia os personagens macabros de Stephen King à príncipes encantados.

Tirava notas razoáveis na escola e nunca havia se metido em confusões (sabe-se lá Deus porque). Passava pelos corredores sem ser notada, como um espectro. Aguentava calada as ofensas das garotas populares da escola. Aguentava até não conseguir mais e corria para o banheiro. Chorava até o rímel misturar-se com o lápis, uma sombra crescente ao redor de seus olhos. Dor alguma necessitava de platéia e Clara ficava por lá, pensando em sua vida, pelo tempo que precisasse. Nesse meio tempo, imaginava uma vida cheia de amor, na qual seus pais verdadeiros conviveriam harmoniosamente e ela não precisasse praticamente se esconder dentro de sua própria casa. Imaginou ter amigos verdadeiros, desses que nos pegam pela mão e nos ajudam a seguir a vida. Um amor, suave e sublime, capaz de nos tiram do chão. Mas tudo isso estava fora do alcance dela. Nada mudaria.

As decepções e a falta de amor a moldaram ao longo dos anos. Ela apenas esperava alguém que tivesse coragem de conhecê-la e quebrar o gelo de seu coração. Afinal, não era aquele monstro terrível que todos pensavam ser. Quando Clara finalmente terminava a sessão de “terapia do choro no banheiro”, saía, enxugava as lágrimas negras que escorriam pelo seu rosto e voltava a enfrentar a vida com bravura, como sempre fazia. Clara não vivia. Apenas sobrevivia todos os dias.

Voltava para casa, almoçava uma comida fria e pegajosa feita com o maior desprezo pela madrasta, subia para seu “paraíso perdido na Terra”, deitava a cabeça no travesseiro e fechava os olhos na esperança de aquilo tudo ser apenas um longo e terrível pesadelo. Ela seria feliz algum dia. Era apenas uma questão de tempo.

Trazido pelo vento

Andava pela rua distraída com o trânsito e seus motoristas apressados. Com os fones no volume máximo, me despedia da realidade e mergulhava em um mundo particular, no qual as guitarras e os solos de bateria são mais importantes do que buzinas e palavras de baixo calão. As pessoas passavam, se esbarravam, se evitavam e seguiam suas vidas. Engraçado pensar que estabelecemos certo contato com elas, mesmo que breve. E nem ao menos sabemos seus nomes. Nesse dia, o céu era de um azul limpo, sem nenhum resquício de nuvens. Estava quente e meu único desejo era estar em casa o mais rápido possível. Crianças deliciavam-se com potes de sorvete e latas de refrigerante. Aquilo era convidativo, mas meu desejo de estar no conforto do meu quarto falava mais alto. Velhinhos jogavam xadrez na praça. Mulheres reclamavam de seus maridos na porta do mercado. Adolescentes compravam ingressos para a próxima sessão de um filme de ação. E, naquele momento, o vento trouxe algo para mim: um perfume. Não um perfume qualquer. Mel, margarida, rosa, Chanel n° 5. Nada. Nenhum desses aromas poderia ser comparado àquele que veio com a brisa daquele dia de verão. Era o perfume dele. Eu tinha certeza.

Nos abraçávamos e beijávamos, saímos por aí, ríamos, cantávamos. Éramos felizes. E, no fim do dia, quando voltava para casa, o perfume dele estava impregnado na minha roupa. Era como uma marca. Feita para durar eternamente e perseguir meus sonhos. Nos meus cd’s, livros, travesseiro, quarto e até mesmo naquele urso de pelúcia que ele havia me presenteado no nosso último aniversário de namoro. O perfume dele estava lá, me dizendo todos os dias, estampando na minha cara com letras vermelhas feitas em neon: você deveria estar com ele agora.

Deveria. Mas não podia. Infelizmente o amor tem idas e vindas. O nosso não tinha mais volta.

Ele sorria para mim enquanto estávamos deitados no sofá. Me chamava de maluca por eu ter medo de perdê-lo para sempre algum dia.

– Boba, você sabe que eu te amo. – ele afagava meus cabelos enquanto eu desenhava círculos sobre sua camiseta, deitada em seu colo. – Pra sempre…

Eu o abraçava forte e respirava aquele cheiro que me acompanhava em todos os lugares, na tentativa de memorizá-lo para quando ele fosse embora. E funcionou.

Me virei na calçada, esperando encontrá-lo ali em pé, sorrindo como sempre fazia ao me encontrar. Ele correria até mim e me beijaria como todas as vezes em que ficávamos juntos. Me abraçaria e eu saberia que nada nessa vida é em vão. E que ele havia voltado. Para mim. Para sempre. Mas não havia nada além de um enorme buraco deixado por um passado de sorrisos e perfumes marcantes, onde não havia espaço para dor e sofrimento. As pessoas passavam e me encaravam. Eu atrapalhava o trânsito. Voltei minha atenção para os meus sagrados fones de ouvido e recomecei minha caminhada. Ele nunca mais voltaria para mim. Minha convicção gritava isso.

Retalhos

Os restos frios de pizza ainda estavam sobre pratos e o os dvd’s de “Two and a Half Man” jogados no tapete da sala. Nossas fotos coladas num mural improvisado com barbantes penduradas na parede do meu quarto. Seu perfume no meu travesseiro e nos lençóis. Sua jaqueta sobre a cadeira da escrivaninha. Nossos sapatos embolados numa desordem digna de dois adolescentes se misturavam embaixo da cama. Retalhos de uma meia vida juntos. Três anos. Pouco tempo, mas o melhor de nossas vidas.

– Se algum dia a gente se desentender e eu for embora, o que você faria? – ele me disse mês passado enquanto estávamos sentados na escada do prédio, desfrutando um copo gelado de Coca Cola para acalentar o calor daquele dia de verão.

– Provavelmente choraria como um bebê ouvindo Joy Division. – eu sorri e o beijei na bochecha. – Isso nunca vai acontecer, nós nunca brigamos. E nunca iremos. Eu prometo.

Ele passou o braço ao redor da minha cintura e ficamos ali, estáticos, ouvindo a buzina dos carros apressados que passavam pela rua.

Eu nunca fui temperamental. Nem mesmo nas piores situações da minha vida eu perdi o controle. Sempre tentei levar tudo na pura calmaria, afinal estresse não resolve coisa alguma. Ele também nunca foi de perder a cabeça por coisas irrelevantes. Pelo menos não comigo. Até agora não consigo compreender o motivo da nossa primeira e única briga. Sério.

Passamos de casal apaixonado à meros conhecidos em apenas três dias. Ele evitava meu olhar durante o café da manhã, almoço e jantar. Nossos beijos não eram mais os mesmos e as atitudes rudes dele me machucaram profundamente. Posso não ser perfeita, mas era o amor da vida dele. Era o que ele dizia.

Ontem, enquanto comíamos pizza ele veio com essa:

– Acho que a gente deve dar um tempo. – calmamente ele se virou para me encarar, dando uma última mordida na pizza de peperone.

– Você ficou maluco, né? Pode parar com a brincadeira, não tem graça. – comecei a rir histericamente. Eu sempre reagia dessa maneira em situações constrangedoras. – Para amor, eu não gosto disso…

– Não é brincadeira. Eu sei que pode parecer estranho agora, mas eu preciso dar um rumo novo à minha vida. Viajar, conhecer gente nova… – ele parou e ficou encarando Charlie Sheen na tela da tv. Ele não estava brincando.

– Amor, se você quiser viajar eu vou com você. Sem problemas. Minhas férias servem para isso e eu adoraria explorar o mundo com você… – as lágrimas começavam a se acumular no canto dos meus olhos e meu coração acelerou. Aquilo não tinha, nem ao longe, um fundo de brincadeira.

– Será que você não entende: eu quero fazer isso sozinho. Eu, minha mochila e mais ninguém. – ele alterou o tom de voz. As lágrimas jorraram como sangue em um corte profundo.

– Tem outra na jogada, né? – eu jogava aquelas palavras em cima dele, mas esperava ouvir um não. Traição não foi feita para corações fracos. – Seja sincero comigo, por favor.

– Não é da sua conta se eu tenho outra ou não. O que importa é que eu vou embora agora e não adianta me seguir. Vou sozinho.

Fiquei parada no sofá. As últimas palavras dele ainda ecoavam na minha mente. Como ele pôde ter se transformado em uma pessoa desprezível em pouco tempo? Ele que deixava bilhetes de bom dia junto ao travesseiro quando precisava sair para trabalhar mais cedo. Ele que me fazia sorrir e suspirar todos os dias como se fosse a primeira vez.

Ele escancarou a porta, carregando uma mochila com algumas roupas e os documentos. Não tentei segurá-lo. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. Saiu da minha vida sem ao menos olhar para trás, para a figura da mulher a quem ele dedicara as mais belas juras de amor eterno.

Fiquei o resto da noite vagando pelos cômodos do apartamento como um fantasma. A presença dele ainda me deixava inquieta, como se aquilo tudo não tivesse passado de um pesadelo. Eu tentava de todas as formas acordar, mas para o meu pesar aquela era minha realidade. Uma letra de música ecoava pela minha cabeça e só depois de muito tentar lembrei de qual banda se tratava. “Love, love will tear us apart, again”. Ian Curtis estava certo. O amor acabou nos separando.

Love me tender

Os dois estavam sentados próximos, assistindo à um filme desinteressante na tv. Foi então que ela quebrou o silêncio:

– Quer ver minha coleção de discos? – disse a garota, virando-se delicadamente para o rapaz.

– Claro. – ele respondeu envergonhado, afinal ela era seu amor platônico desde os dez anos.

Ana também o amava. A menos tempo que ele, é claro. No auge dos seus dezessete anos havia namorado apenas uma vez – com um garoto que não era tudo aquilo que ela esperava – e desde o término havia passado a pensar em Jorge com mais frequência. Sonhava com ele todos os dias, imaginando situações diversas nas quais eles seriam “felizes para sempre”.

Jorge madrugava todos os dias pensando em Ana. Nos cabelos negros e ondulados dela, nos olhos e no jeito como sorria ao vê-lo. Ela era perfeita. Nascida para acalentar aquele coração de dezoito em busca de sentimentos verdadeiros.

Os dois subiram as escadas. Entraram no quarto dela e sentaram no chão. Em um dos cantos da parede havia uma pilha de discos usados e uma vitrola antiga, empoeirada pelo peso dos anos.

– Bem, essa aqui é minha coleção. – Ana apontou para o amontoado de Hendrix, Queen e Bob Dylan. – O que você quer ouvir?

– O que você me sugere? – Jorge olhou-a bem no fundo dos olhos, uma tentativa de fazê-la perceber quão maravilhoso aquele momento estava sendo para ele.

– Tenho Led Zeppelin, Johnny Cash, Janis Joplin… Você escolhe.

– Isso é incomum. Garotas da sua idade convivem com Ipods e Iphones e você aqui com uma vitrola…- os dois riram.

– Eu não sou como as outras. – ela disse, deixando-o envergonhado. – Sabe, eu gosto de coisas antigas. Antigamente as pessoas davam mais valor ao que tinham. Hoje em dia quase todo mundo procura trocar os celulares ou computadores a cada semana. Eu não gosto disso: aprecio coisas simples e que possuam alguma história para contar.

Ele não acreditava naquilo que acabara de ouvir. Ela realmente havia nascido para ele.

– Eu gosto do som que a agulha faz ao tocar o disco. – ele disse. – Quando eu tinha cinco anos meu pai colocava alguns discos do Cash para tocar e eu ficava ouvindo o dia todo. Foi aí que eu comecei a me apaixonar por música. – Jorge riu ao se lembrar das suas aventuras musicais de quando era menor. Sempre quis encontrar uma garota com June Carter. Ele havia conseguido.

– Essa vitrola eu trouxe da casa da minha avó semana passada. Ela ia jogar fora porque não usa mais. Eu não podia deixá-la fazer isso, seria um pecado!  – disse Ana sorrindo. Virou-se e puxou um disco do Elvis que estava entre os discos. – Esse disco daqui é meu predileto.

A garota colocou o disco na vitrola e “Love me tender” começou a tocar. Um silêncio constrangedor tomou conta dos dois. Eles se queriam mais do qualquer coisa no mundo. Aquela era a hora certa para algo importante ser dito.

– Dança comigo? – Jorge finalmente tomou coragem para perguntar.

Eles se levantaram e, envergonhados, começaram a dança. As mãos dele na cintura de Ana. As mãos de Ana ao redor do pescoço dele. Os olhares intensos e sedentos de amor encontrando-se enquanto Elvis cantarolava melodiosa e apaixonadamente. Tudo parecia se encaixar perfeitamente. Eles podiam ser felizes juntos. Queriam ser felizes e deveriam sentir aquilo, naquele exato momento. Dois coações jovens em busca do mais sublime dos sentimentos: o amor. Uma das mãos dela passou devagarinho pelos cabelos castanhos dele. Ele sorriu e a puxou para mais perto, sentindo o cheiro que vinha de seus cabelos. Mel e flor de laranjeira. O perfume mais inebriante que ele poderia sentir algum dia. Foram chegando cada vez mais perto e quando não havia mais espaço para tanto amor, Jorge sussurrou:

– Eu te amo, Ana. Quer ser minha para sempre?

Um sorriso desconcertado surgiu nos lábios daquela que um dia seria a mãe dos filhos dele. Um “sim” apaixonado foi sussurrado pela garota incomum com gostos simples. Ela nunca mais sofreria por amor. Pelo menos, era o que esperava.

O primeiro beijo foi suave, lento, cuidadoso. Cada instante juntos merecia ser eterno e precioso. Elvis há muito havia parado de cantar, mas eles nem se deram conta. Ainda havia uma montanha de discos para serem ouvidos e, para cada um deles, um pedacinho daquele amor que acabara de desabrochar.