Sobre timidez, amor e bandas punk

-Lembra aquele dia em que você passou pela minha porta e sorriu? Então, aconteceu uma coisa naquele momento que eu queria muito, mas muito mesmo te contar… – ela olhava fixamente para o espelho, tentando decorar o discurso que há meses estava entalado na garganta, pronto para ser colocado para fora. – Então… Naquele dia foi como se tudo tivesse mudado. Não pense que foi o tal do “amor à primeira vista”, isso é bobagem. Mas eu realmente senti algo diferente, uma vontade imensa de correr para você e… E…

Ela parou no meio da frase. Sentia-se a pessoa mais tonta do mundo. Quem falava diante de um espelho? Ah, claro. Ela falava. Não via outra maneira de tentar se acalmar, de realmente tomar coragem e ir lá na casa dele, escancarar a porta e dizer um “eu te amo” vermelho e inflamado de paixão, desses que a gente só vê nos filmes. Mas ela era tímida demais para isso. Tinha vontade de mudar, de se arriscar mais, mas como? Se tudo o que se permitia fazer era colocar um disco de músicas deprês para tocar no último volume e chorar até o nariz escorrer e as lágrimas secarem? Ela que sempre agradava a todos e que chamava atenção sem fazer o mínimo de esforço tinha medo de ouvir um não bem grande e passar o resto de seus dias, em seu quarto, sozinha, ouvindo sua coletânea de músicas tristes…

É claro que “nãos” aparecem em nossas vidas por algum motivo, sendo ele bom ou ruim. Ela nunca saberia se o temido “não” iria ser dito se nunca arriscasse uma declaração. Pegou um papel amassado, uma caneta preta já falhando e, decidida, começou a rebiscar:

“Carlos.

Lembra de mim? Naquele dia aqui em casa a gente conversou por mais ou menos duas horas. Você me disse que gostava de Ramones e de filmes de terror. Eu até elogiei seu gosto musical/filmográfico e… Bem, acho melhor eu ir de uma vez ao assunto: quando você passou pela minha porta eu senti algo revirando aqui dentro do meu peito. Não algo ruim. Pelo contrário, era algo confortável, quente. Pode parecer bobagem, mas eu acho que…Eu tô apaixonada por você. Sério, sem nenhum tipo de frescura ou coisa e tal. Te amando mesmo, de verdade. Antes de dormir eu fico pensando na gente, se algum dia a gente se casasse e tivesse filhos… Eles seriam lindos se puxassem ao pai (por favor, se você estiver me achando louca, pare de ler aqui mesmo e jogue o papel fora). Bem, se você me der uma chance eu vou ser a namorada mais paciente e carinhosa do mundo. Eu te amo de verdade, muito mesmo e faria qualquer coisa pra gente ficar junto. Droga, tô me sentindo péssima em não ter coragem de falar isso olhando nos seus olhos, mas o que posso fazer se sou tímida (e percebi que você também é)? Por favor, se eu realmente tiver alguma chance, a mais remota possível, me avise. Caso contrário, nunca olhe pra mim. Eu morreria de vergonha.

Sempre sua (apesar de achar isso um pouco clichê)

Laura. “

Laura colocou o papel amassado em um envelope usado que estava dentro da escrivaninha e rabiscou por fora um “Para Carlos” com uma caligrafia corrida e angustiada. Pediu que uma amiga levasse o bilhete na casa de Carlos e ficou esperando, esperando, esperando… Nada. Naquele dia, a garota foi dormir mais frustrada do que nunca. Colocou seu fiel escudeiro, o “100 Músicas Deprês” para tocar no rádio e deitou a cabeça no travesseiro, sem a mínima vontade de dormir. Lá fora, o barulho da chuva se confundia com os trovões dentro do coração de Laura. Foi saboreando aquele sentimento de culpa, raiva e rejeição e acabou pegando no sono. Ele nunca apareceria.

Um mês depois, quando a ferida no coração de Laura estava prestes a cicatrizar, um bilhete tímido foi colocado em sua caixa de correio. A caligrafia precisa e marcante era endereçada “À Laura”. A garota abriu o envelope sem entender e começou a ler:

“Laura

Eu sei que demorei muito pra te responder, me desculpa tá? Como você escreveu no bilhete, eu sou tímido. Bem tímido (como se isso fosse novidade pra alguém). Eu só queria te dizer que aquele dia em que a gente passou um pouco mais de duas horas conversando na sua casa foi o mais feliz da minha vida. Era como se a gente se conhecesse há muitos anos e eu me senti confortável com você. Eu também não acredito nesse tal de ‘amor à primeira vista’ e sim no ‘momento certo e hora certa’. Se você ainda estiver disposta a ser minha namorada eu serei seu. Seu amor, protetor, tudo o que você quiser. Eu te amo demais Laura e tá quase insuportável viver sem você. Vou te esperar aqui em casa com um filme, chocolate quente e muito amor. Vem pra cá e, se quiser, fica pra sempre, tá?

Sempre seu (também acho isso clichê)

Carlos.”

Laura respirou fundo, largou o bilhete na mesa e saiu correndo vida à fora. Afinal, um filme, chocolate quente e muito amor não se podem recusar.

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