Monotonia

Os clientes balbuciavam inconscientemente enquanto procuravam por produtos aleatórios no mercado. Carrinhos e mais carrinhos de compras amontoavam-se pelos corredores. Máquinas de registrar preços estavam espalhadas pelo chão. Era véspera de Natal e a agitação era grande naquele dia. Luíza trabalhava no caixa, passava produtos, embalava compras, aguentava reclamações de clientes estressados, tudo isso com um sorriso maquinalmente ensaiado no rosto.

– Posso ajudá-la? – disse Luíza à uma senhora de cabelos brancos feito algodão.

– Claro querida. Procuro a prateleira de alimentos para animais de estimação. – disse a senhora, ajeitando os óculos para enxergar Luíza melhor.

– Venha por aqui.

Luíza conduzia os clientes que se perdiam em meio às latas de suplemento alimentar, caixas de leite e prateleiras de salgadinhos Doritos ao destino desejado. Fazia aquilo por que era bondosa – não ganhava um centavo a mais pela generosidade. À noite, quando o expediente acabava, voltava para seu apartamento apertado, ligava a tv para não se sentir sozinha e entrava no chuveiro. Lá, deixava escorrer seus problemas, angústias, medos, incertezas, amores reprimidos e raivas junto com a água quente. Quando necessitava, chorava até os dedos dos pés e das mãos enrugarem. Aquilo aliviava a dor. A dor de ficar sozinha, de não ter amigos, de não ter um amor que lhe desse carinho…A dor de ter uma vida monótona.

A monotonia lhe arrebentava os ossos e o coração. Sentia como se algo a repuxasse por dentro. Um sentimento ruim que por muitas vezes foi seu único consolo e refúgio. Criava diálogos mentais com pessoas que não existiam. Dessa maneira, levava a vida como uma pessoa qualquer que paga contas, come, dorme e acorda no outro dia para fazer tudo outra vez.

Luíza queria uma mudança drástica. Nada que envolvesse um novo corte de cabelo ou roupas novas: ela queria uma mudança arrebatadora, dessas que fazem nossas vidas darem um giro de 180°. Ela queria sair para dançar, ir ao cinema de mãos dadas com um garoto lindo que a achasse maravilhosa, que a fizesse feliz. Queria sair da rotina, tirar o pó amargo das mãos e gritar ao mundo todo a felicidade que sentia. Ela observava as famílias, os casais, os jovens namorados, os velhinhos, as crianças e via neles aquilo que talvez algum dia possuiu: felicidade.

De vez em quando, assim que podia, ia ver o mar. A energia da areia a deixava um pouco mais contente, como se seu espírito se revitalizasse toda vez que seus pés tocavam aquele espaço constituído por pequenos grãos – que outrora foram estrelas, ela pensava. Não entrava no mar por não saber nadar. Ficava ali apenas observando o barulho das ondas, o cantar das gaivotas, o cheiro salgado das águas… E enquanto sua monotonia não vai embora, Luíza fica por lá, sentindo o vento soprar-lhe os cabelos.

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3 thoughts on “Monotonia

  1. Você escreve muito bem! Fico imaginando você montando toda essa história… foi quando estava no mercado, num dia de chuva ? Parabéns! Mais um texto sobre a rotina e pessoas fictícias e tão reais! Se eu me identifico com a Luíza me torno ficção?

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