Um café e um amor que goste de ler, por favor

Marina ia todo fim de semana ao mesmo parque. Sentava no mesmo banco, via as mesmas pessoas, comprava o mesmo sabor de sorvete, abria o seu livro e entrava em uma viagem sem fim. Ia para casa ao anoitecer e repetia tudo outra vez no fim de semana seguinte.

Aquela rotina, monótona ao seu ver, a deixava encabulada: sempre ia sozinha, pois não possuía nenhuma amiga, muito menos um namorado para a acompanhar, sentir o vento, o sol sobre sua pele, olhar as crianças correndo e planejarem quantos filhos teriam… Aliás, ela queria muito um namorado, desde que ele gostasse de ler.

Sempre teve uma opinião sobre homens muito divergente da de outras garotas de sua idade: o namorado perfeito não precisaria ser uma beldade como Johnny Depp ou Brad Pitt, desde que a amasse, respeitasse, fosse carinhoso e tivesse um ótimo gosto musical. E, é claro, que gostasse de ler.

Marina se encantava com olhares e sorrisos sem graça. Sonhava com um garoto que a surpreendesse todos os dias, que a levasse para comer Mc Donald’s ao invés de ir a restaurantes caros… Marina era assim. Tinha gostos simples e encantadores.

Um dia, andando sem vontade pela rua, decidiu entrar em um café.

– Bom dia, qual é o seu pedido? – um garoto alto e magro perguntou atrás do balcão.

– Quero um café preto. – disse Marina olhando para ele. O olhos dele eram de um azul tão profundo e faziam um contraste fantástico com os cabelos pretos na altura do pescoço. Era difícil largar aqueles olhos.

– Só isso? Você deveria se alimentar direito, garota. – disse o dono dos olhos azuis. Um estranho se preocupando com seus hábitos alimentares. Era só o que faltava.

– Ok, você venceu. Me trás um pedaço de bolo de chocolate também?

– Sim, já adicionei ao pedido. – ele sorriu e entrou na cozinha.

Marina precisou de um tempo para recuperar o fôlego. Decidiu abrir seu livro, fiel companheiro de jornada, enquanto seu pedido ficava pronto.

– Puxa vida, uma garota lendo H. P. Lovecraft? – disse o garoto, voltando com uma xícara fumegante de café e um prato com um pedaço generoso de bolo de chocolate.

– Só pelo fato de eu ser garota não tenho direito de ler Lovecraft? – ela disse, olhando no fundo de seus olhos azuis.

– Não foi isso que eu quis dizer. É só que isso é… Incomum. Você tem cara de quem lê Nicolas Sparks! – ele riu e ela não exitou em rir junto.

– Digamos que eu não tenho gostos comuns… E aliás, não curto o Nicolas.

– Eu também adoro Lovecraft. – ele disse, piscando os olhos azuis para ela. – Meu nome é Bernardo e o seu?

– Marina. Prazer em conhecer, Sr. Team Lovecraft.

– O prazer é todo meu.

Os dois conversaram por um bom tempo. Quase ninguém ia àquele café aos sábados. Marina tinha tirado a sorte grande.

Marcaram de irem assistir a um filme de terror no cinema, passaram pela livraria e discutiram Tolkien e Shakespeare na sessão de quadrinhos. Compraram livros iguais e marcaram de se encontrar no café, aos sábados, para discutirem o enredo da estória. Bernardo a presenteou com um cd do Led Zepellin e a convidou para ir à casa dele ver sua tão amada coleção de cd’s de rock clássico.

Os fins de semana de Marina nunca mais seriam monótonos. E ela nunca mais iria ao parque sozinha.

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