O dia em que fui parar em um conto de fadas macabro e meus pés doeram de tanto correr

Eu caminhava. Por um lugar desconhecido, deserto e assustador. E não fazia a mínima ideia de como havia chegado ali.

Árvores queimadas se retorciam em meio a carcaças de animais mortos. Olhei para frente e avistei um enorme lago. Ao me aproximar, olhei meu reflexo. Meu vestido branco de renda estava rasgado na barra. Em minhas pernas residiam enormes arranhões. Meu rosto, com aparência cadavérica, estava espantado, cansado, querendo sair dali… Meus cabelos loiros e encaracolados pendiam nas laterias do meu corpo, a verdadeira imagem de uma boneca de porcelana jogada em um lugar qualquer. Talvez em Lugar Nenhum. Ou, quem sabe, num País das Maravilhas macabro.

Andei pelo que pareceu séculos e avistei uma casa. Ao me aproximar percebi que a porta antiga e caindo aos pedaços estava aberta. Lá dentro estava escuro, o que tornava o lugar ainda mais assustador. Das paredes desciam teias de aranha enormes. Enquanto adentrava os cômodos da casa percebi que o chão estava parcialmente forrado por crânios pequeninos. Crianças haviam morrido. Quem quer que tivesse feito aquilo não tinha um pingo de compaixão – disso eu tinha certeza.

Algo me dizia para sair dali, mas resolvi subir as escadas. Em um quarto, três ursos enormes repousavam sobre suas respectivas camas. “Sou Cachinhos Dourados”, pensei. Os ursos, ao sentirem meu cheiro, levantaram rapidamente, despertos de um sono aparentemente milenar.

– O que fazes aqui, Dorothi? – esbravejou, com uma voz gutural, o mais velho dos três ursos. O Papai Urso.

– Do-Dorothi? – gaguejei amedrontada. Eu sabia que meu nome não era aquele, mas não conseguia me lembrar do verdadeiro.

– O que fazes aqui? Invades nossa casa e perturba nosso sono, mereces ser devorada! – gritaram os três em uma só voz.

– Eu não faço ideia de onde estou ou quem sou eu. – disse entre lágrimas. O pânico tomava conta de mim.

– Tens o direito de viver, pequena Dorothi, se reponderes à uma questão. – disse o urso menor, que me parecia o filho do casal urso. – Porém, se errardes, a devoraremos como fizemos com os outros que por aqui passaram.

Eu não tinha a mínima ideia do que estava fazendo, enchi os pulmões de ar e disse:

– Eu respondo.

– Garota corajosa… Então vamos à questão – disse a Mamãe Urso, com sua boca repleta de dentes afiados e tortuosos. – Qual é a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha?

Aquilo pertencia à “Alice no País das Maravilhas”. Eu havia lido, porém não havia resposta para aquela pergunta.

– Eu não sei. – disse, olhando para os três enormes ursos.

– Então a devoraremos, pequena Dorothi. – os três levantaram-se de suas respectivas camas eu eu não pensei duas vezes em correr.

A casa era absurdamente grande por dentro, algo surreal. Um corredor enorme, com várias portas coloridas, se estendia a minha frente. Tentei abrir a primeira delas, mas estava trancada. Os ursos corriam atrás de mim, os olhos vermelhos injetados de sangue, as narinas dilatando-se no intuito de sentir meu cheiro.

– Não fuja, garota! Nós a devoraremos sem piedade! – gritaram os três ursos, o som de seus passos escoando pelo infinito corredor.

Meu pés já não conseguiam mais correr e minha respiração estava fraca. Na última porta – minha última tentativa – forcei o trinco. Se aquela porta não abrisse tudo estava acabado.

Como se por um milagre, a porta abriu. Tranquei aquele mundo esquisito atrás de mim. Ainda escutei os ursos aranhando a porta e gritando meu nome.

Quando olhei ao redor da sala onde me encontrava avistei nada além de um espelho. A sala era pintada de um preto envelhecido o que tornava o ambiente ainda mais melancólico.

Ao me olhar, vi mais uma vez meu reflexo. Aquela não era eu. Meu rosto se transformara. Eu estava velha, muito velha. Meu vestido se desmanchava em farrapos presos por costuras mal feitas. Meus cabelos sujos por uma camada poeirenta emolduravam aquele rosto que eu não reconhecia.

De dentro do espelho, uma voz de mulher falou, suavemente:

– Está na hora de viver, minha querida.

– Viver? Do que você está falando? –  tateei o espelho, esperando encontrar a dona da voz.

– Você se preocupa demais, sofre demais… Um coração velho em um corpo jovem…

Agora eu me lembrava. O trabalho, a faculdade, tudo isso tirava meu tempo e eu quase não respirava. Minha vida me sufocava e eu não tinha percebido.

– Viva, menina. Permita-se mais… – dizendo isso, a voz me entregou uma maçã, vermelha e suculenta. – Esse é seu passaporte para a felicidade. Coma e será livre para sempre.

Peguei a maçã um pouco receosa, afinal Branca de Neve havia sido envenenada por uma daquela e, creio eu, príncipe algum iria aquele lugar me acordar com um beijo. Já que não tinha nada a perder, a mordi, saboreando. De repente tudo se desfez em fumaça.

Senti que caía em um buraco, algo perturbador e angustiante. Fechei os olhos, pensando em amenizar a dor da queda.

Quando os abri novamente, estava em minha cama. Os raios de sol entravam pela persiana e, de súbito, me levantei tomada de uma imensa vontade de sair porta a fora e viver. Não me lembrava do que havia sonhado.

Uma maçã descansava em meu criado-mudo.

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