Um canal qualquer na TV

Os dois estavam sentados no sofá. Mantinham uma certa distância um do outro. A TV estava ligada em um canal qualquer.

– O que você quer assistir? – ele perguntou, quebrando o silêncio entre os dois.

– Pode escolher o programa. Eu geralmente não assisto televisão. – ela disse, virando-se para ele, olhando no fundo dos seus olhos.

Ela tinha mania de olhar no fundo dos olhos das pessoas quando conversava. Alguém havia dito que aquilo transmitia sinceridade, atenção.

Ele gostava do modo como como ela o olhava. Seus olhos castanhos diziam muito à seu respeito. Ela era meiga. Corava fácil quando alguém dizia algo constrangedor. Sorria de mansinho quando pensava que ele não a estava observando.

– Posso desligar, então? A gente podia conversar… – ele perguntou de repente.

O coração dela saltou ao ouvir a proposta. Havia tantas coisas que ela desejava dizer, incluindo a declaração de amor que havia passado e repassado mentalmente tantas vezes.

– Claro. – ela respondeu com um sorriso.

Os dois eram tímidos e isso os atrapalhava. E muito. Ele também nutria  uma paixão secreta por ela, mas provavelmente nunca diria o que sentia.

Com a televisão desligada, o silêncio invadia a sala. Foi então que ele começou:

– Bem… O que você gosta de fazer no seu tempo livre? – ele disse, se aproximando um pouco mais, fazendo a garota sentir as bochechas ficarem quentes e vermelhas.

– Eu gosto de fazer muitas coisas, como… Ouvir música, ler, assistir séries de TV. Coisas que geralmente pessoas normais fazem… E você? – ela passou a mão direita pelos cabelos pretos e longos, uma tentativa de esquivar a vergonha que estava sentindo.

– Eu também faço tudo isso. Como você disse, é o que pessoas normais fazem, não é?  – ele riu. – Qual é seu estilo musical preferido?

– Gosto de Rock Clássico, Alternativo, um pouco de Heavy Metal também… Tendo guitarras, um baixo e uma bateria, eu ouço. – os dois riram.

– Você tem um ótimo gosto musical… – ele deu um sorriso torto que fazia a garota perder o fôlego. Ela era perfeita para ele.

A conversa dos dois continuou, com algumas pausas seguidas de risadas constrangidas. Eles queriam se abraçar, dizer um “eu te amo” cheio de paixão um para o outro, mas e a coragem?

Foi então que ele segurou a mão dela. O coração dos dois pulsou tão rápido e alto que poderia ser ouvido por um astronauta no espaço. Olhou-a bem no fundo dos olhos castanhos que um dia olhariam para ele ternamente ao acordar e colou os lábios nos dela, suavemente.

O beijo alimentava a alma dos dois, necessitada de amor. Séculos ou talvez milênios depois, o beijo terminou e eles sentiam-se completamente felizes. Ele a abraçou forte e os dois disseram juntos:

– Eu te amo.

De repente, um barulho os interrompeu.

– Meninos, venham comer a sobremesa. – disse a mãe do garoto, entrando na sala alegremente.

Eles estavam sentados distantes, calados, assistindo a um canal qualquer na TV.

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