Em uma cafeteria, próxima à lugar nenhum…

Melissa adorava aquele lugar: uma cafeteria aconchegante, de cujo o teto pendiam pequenas corujas de madeira envernizadas e em cada canto da parede havia uma poltrona confortável – no intuito de atrair leitores ávidos.

Ela trabalhava na biblioteca central e todo dia, uma hora antes de a biblioteca abrir, ia sentar-se em uma daquelas poltronas, pedia uma xícara de chá de maçã e canela e abria seu exemplar de “Histórias Extraordinárias”, de Edgar Allan Poe, seu escritor favorito.

Aqueles momentos eram ímpares na vida de Melissa. Ela adorava observar, entre um gole e outro de chá, o quanto as pessoas eram diferentes entre si. Umas mais baixas do que outras, mais magras do que outras, mais bonitas do que outras… E foi uma dessas “pessoas bonitas”que chamou sua atenção.

Alex Flowers, editor chefe do jornal local, 22 anos (o que causava estranheza na maioria das pessoas, por se tratar de um garoto tão jovem com um cargo tão importante). Seus cabelos eram curtos e bem escuros, quase o mesmo tom dos de Melissa. As bochechas estavam rosadas por conta do intenso frio que fazia lá fora. Ele pediu uma caneca de chocolate quente.

Mellissa não se envolvia com muito rapazes. O único namorado que teve a largou no meio de um relacionamento aparentemente estável para começar a sair com a melhor amiga da garota. Mellissa tinha 20 anos e um coração partido. Desde então nunca tentou se relacionar com mais ninguém, tinha medo de se magoar novamente.

Aquele garoto de bochechas rosadas parecia ser simpático. Assistia atento ao noticiário na pequena televisão do balcão. Foi pelo reflexo dela que ele viu Melissa o observando. Naquele momento, as bochechas de Mellissa também se enrubesceram, e não era culpa do frio. Pegou o exemplar que estava lendo e fingiu estar bem interessada, talvez o rapaz nem a tivesse notado. Ele, como se houvesse lido os pensamentos dela, deu um meio sorriso e balançou a cabeça. “Eu devo falar com ela? Ela parece interessada em mim…”. pensou Alex, que por coincidência havia acabado um namoro de quase quatro anos. “Por favor, vá embora logo. Não venha até aqui, pelo amor de Deus”, pensou Melissa, apertando ainda mais o livro.

Alex, num impulso corajoso, pegou sua caneca de chocolate quente que ainda fumegava e se dirigiu à poltrona que ficava ao lado da qual Melissa estava sentada. A garota percebeu e quase saiu correndo dali, mas seus pés pareciam congelados pelo frio – ou pelo medo. Ele sentou-se e a garota fingiu que continuava sozinha. “Foco Melissa, finja que está concentrada e logo logo ele vai embora”, pensou.

– Com licença, aonde você encontrou esse livro? – disse Alex, tentando puxar assunto.

– Na biblioteca central. – Mellissa tentou se esquivar do olhar dele, mas não conseguiu. Eram castanhos e profundos. Ela quase podia enxergar a alma daquele estranho dentro deles. – Existem mais dois exemplares, se você precisar é só fazer um cadastro e pegar emprestado.

– Creio que você trabalha por lá, estou certo?

– Sim. Eu sou bibliotecária. E você? Trabalha com o que? – Ela não se dava conta do que estava fazendo. Há um minuto não queria ao menos dizer “olá” aquele rapaz, e agora já estava perguntando com o que ele trabalhava! Ela ia se arrepender eternamente por ter feito isso…

– Eu sou redator chefe do “The Sunshine”. E, a propósito, me chamo Alex.

– Muito prazer em conhecê-lo. Eu me chamo Melissa.

Aquele era o começo de uma longa e agradável conversa.

Descobriram que tinham gostos em comum: os mesmos livros, as mesmas músicas, os mesmos filmes… Coisas que geralmente só acontecem em romances filmografados.

– Você vem muitas vezes a essa cafeteria? – perguntou Alex, dando o último gole no chocolate quente já frio.

– Todos os dias, antes de entrar no trabalho… Oh, meu Deus! E por falar em trabalho eu estou atrasada! – disse Melissa apressando-se ao se levantar. Alex se prontificou a pagar sua xícara de chá e ela ficou agradecida. – Foi um prazer conhecê-lo, Alex. De verdade. – Ela sorriu ternamente ao dizer essa última frase.

– O prazer foi todo meu, Mel. –  Ele respondeu, beijando a mão dela.

Ela saiu apressada, os pensamentos ainda muito confusos. Era como se eles já se conhecessem de outras vidas. Ela gostou do modo como ele a chamou. “Mel”, soava tão perfeito… E o beijo na mão, então? Coisas de contos de fadas às vezes acontecem na vida real.

Ele queria passar mais tempo ali, ouvindo o som da risada daquela “estranha-conhecida”. Inteligente, linda, perfeita…

– “Mel” – ele sussurrou baixinho se deliciando com o nome.

Todos os dias ele voltaria àquela cafeteria. Disso ele tinha certeza.

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